Adriano Nunes

 

Era para ser uma canção do exílio

 

Meu canto de exílio

É o ruído de um riacho quase seco,

É isso.

 

Nunca vi sabiás

Nem saberia dizer como é um

Palmeiras? Só as conheço

 

De longe.

Mas meu coração abriga

O infinito.

 

 

 

 

 

 

 

Affonso Romano de Sant'Anna

 

Canção do Exílio Mais Recente

 

 

para Fernando Gabeira

 

    1

 

Não ter um país
                      a essa altura da vida,
                      a essa altura da história,
                      a essa altura de mim,
                                — é o que pode haver de desolado.

 

É o que de mais atordoante
pode acontecer ao pássaro e ao barco
                       presos desde sempre à linha do horizonte.

 

                       Desde menino
                       previvendo perdas e ansiedades
                       admitia
                                as mobílias em mudança, galinhas
                       mortas na cozinha, o incêndio em plena casa
                       e a infância com os amigos se afogando.

 

Mas sobre país
                     eu pensava ser como pai e mãe: para sempre.

 

País
      era o quintal e a horta a alimentar a mim
      e aos filhos com a sempre zelosa sopa do jantar.
País
      era como a Amazônia: desconhecimento da gente
      ou como o São Francisco: inteiramente pobre e nosso.

 

Hoje
      meu pai, cansado, já se foi
      minha mãe, com fé, já se prepara
                                                       e a horta
      se não deu às pragas
      — já foi toda cimentada.
Meus irmãos estão dispersos. Já não conversamos
como anjos adolescentes
                         debruçados sobre o sexo das tardes.

 

No entanto, há muito elaboro as perdas
e sigo a metamorfose das nuvens. Vi os corpos
mais amados se escoando no lençol
depois de ter sentido a fé fanar-se, digamos:
                              — ao mais leve frêmito carnal.

 

E após a tensa geografia caseira
com pai e mãe, seis filhos na mesma mesa e igreja,
                   ano após ano, pasmo percebo
                   que meus irmãos iam-se partindo
                   como aqueles que, mais tarde, num gesto

                                                                           [guerrilheiro
                   foram domar o dragão do castelo e a cidadela
                   a tropeçar nas celas e fronteiras
                                             e a fenecer exílios e quimeras.

 


   2

 

Ter ou não ter: — eis o sertão
                      a lei do cão, de Lampião
                      — embora Padinho Cícero e seu sermão.
Que tudo é deles
                        que me têm, detêm, retêm
                        o meu direito e o passaporte,
                        a identidade e os impostos
                        e o medo com que abro a porta,

 

que tudo é deles:
                         o arado e a bosta do prado,
                         a colheita e o mofo do pão,
                         o berro-boi contido e o ferro em brasa
                         — com que marcam a canção,

 

que tudo é deles:
                         os rios com seus mangues,
                         os picos da neblina assassina,
                         os pedágios da impotência
                         e a inclemência nordestina.

 

País. Como encontrar-se num, se mesmo o nosso quarto

                                                                       [(antigo exílio)
a militar família penetra e fuxica
a vasculhar diários e delírios?
Como encontrar-se num

 

                         se a natureza do corpo
                         — paisagem antiga e íntima —
                         a milícia dos tratores desmonta e violenta
                         na fabril poluição?

 

Será que sou um palestino? alguém que já perdeu
de antemão todas as guerras? ou será que sou aqueles alemães
que vi nas margens do Reno
                                  — cuidando de suas hortas e flores,
e sobre as derrotas e canteiros
vão refazendo seus filhos por cima da cicatriz
a carregar a encapotada alma
                                          viva e torta?

 

Ter ou não ter, eis meu brasão,
ou refrão dessa impotente canção.
                                                 Se trágico é o poder
                                                 — o não poder
                                                        sempre foi triste. 

 

Mas não posso, é proibido
não ter um país, dizem-me na alfândega.
No entanto, este não me serve, como não me serviram
os outros, quando os habitei maravilhado entre castelos
e vitrinas, entre hambúrgueres e neblinas, entre as coxas
claras das donzelas dos contos da carochinha.

 

Este não me serve, assim dessa maneira,
a me impingirem idéias mortas, me vestirem camisas-
de-força, fraques e cartolas tolas
— e eu sabendo que o defunto é bem maior.

 

— Viver é isso? — É descobrir na pele dobras
de paisagens novas, e lá fora ir perdendo a vista antiga?
— É renunciar ao ontem, refazer o ato?
e saber que em nosso corpo e país
                               — o amanhã é um fogo-fátuo?

 

E eu aqui, no nenhum-desse-lugar, estrangeiro
exilando-me ao revés, vendo o passaporte roto de traças
que transferem
                       para o nada
                                         a carcomida face.

 


   3

 

Mas, às vezes, em pleno tédio, em calmaria
                                                              — ao largo
fico como os parvos navegantes, à mercê dos fados
sonhando no astrolábio
                                 chegar à Índias pelo avesso.
À espera
             que um vento louco me enfune as pandas velas
desoriente-me a nau e o sangue marinheiro
             e eu chegue à terra santa e profanada
onde me esperam as tribos com festões e danças.
             E eu
                   jogando ao mar a cruz e a espada
correndo para a praia
                          peça para ser o menor deles
e me aquecer à luz do fogo
                                       em meio à taba
e transformar meu vil degredo
                                          — em eterna festa.

 

 

 

Affonso Romano de Sant'Anna
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AL-Chaer

 

Laranjas Laranjeiras Laranjais

 

no tempo das avós
com suas casas com quintal
e laranjeiras
quando
ainda não tinha espremedor industrial
nem lanchonetes

 

      os sabiás
      musicavam os sucos de laranja
      nas tardes dos netos

 

hoje
ainda tem avós
        mas as laranjas
        vêm escondidas em caixinhas Tetra-Pak

 

  nos shoppings e nos restaurantes
        o suco de laranja
        vem protegido por seguranças
        e walkie-talkies

 

    lá no centro da cidade
       as lanchonetes apressadas
       vendem laranjada
       espremida por um moço que usa luvas e gorro

 

um inverno rigoroso
castigou os laranjais no hemisfério norte

 

e daí?

 

        não planto laranjas

 

        as frutas cítricas
        já começam a causar acidez em mim

 

        a cidade só tem pardais

 

        minha avó
                       "é apenas uma fotografia na parede"

 

no museu de ornitologia
os estudantes
    vêem um sabiá

 

                  empalhado
        com o tempo

 

                         cada vez mais eu compreendo Drummond

 

 

 

 

AL-Chaer
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Poemas

 

 

 

 

 

 

Ana Guimarães Brito

 

Minha Canção do Exílio

 

Se eu morrer longe de minha terra,

Um sabiá migrante virá cantar em minha janela,

Seu canto levará minha alma de volta

À Terra das Palmeiras.

 

Então, verei de novo as mangueiras repletas de frutos.

As laranjeiras em flor.

O borbulhar das cachoeiras.

Sentirei o sol aquecendo meu corpo, que já não mais existe.

 

Se eu morrer longe da minha terra.

Que não morra a saudade que tenho dela.

Que as flores continuem a desabrochar no calor da primavera.

Que outros amem o sabor dos frutos que nela existem.

 

Que outros sintam saudades.

 

Se eu morrer longe da minha terra.

Minha alma voltará,

Levada por um sabiá migrante que virá cantar em minha janela.

 

Se eu morrer longe da minha terra.

 

 

 

 

 

 

Anibal Beça

 

Sabiá

 

Para Silvana Guimarães

 

Sabia sim do sabiá
que cantava em mim em sol
mas seu canto em si soava
afinado em si bemol.

 

E seu solo clareava
os meus dias mais cinzentos
as veredas de exilado
solitário sem alento.

 

Ré maior do meu terreiro
confidente dessas penas
sabiá sabe as tristezas
e as alegrias serenas

 

Às vezes sou sabiá
no trinado por empréstimo
vou retirando tormentos
solidário nos meus préstimos..

 

É essa sina assinada
que assoma o outro em acordes
levados em melodia
na alma se quer que transborde.

 

Cantador de cantoria
Irmão desse sabiá
ele é quem canta pra mim
e me ensina o bê-a-bá

 

Sete notas aprendidas
no recanto à sua beira
sei-me sabiá da mata
cantando na laranjeira.

 

 

 

 

São Sabiá

 

Sábio sabia o sabiá
ser seu solo salvador
sai seguindo sua sina
sem ser santo sofredor.

 

Soando seu som na selva
sarau de semeador
sob o signo do S
sibilino sedutor.

 

Solto sem salamaleques
Sagrando Sabá de sábados
solista servindo servas
salomés, saras e sâmaras.

 

Salva seqüelas sedentas
sonho sacro em Sabará
sua saga é sorrateira
sereno São Sabiá.

 

 

 

 

Haicai

 

Canta sem parar
o sabiá-laranjeira —
há fêmea por perto.

 

 

 

Anibal Beça

Na Germina
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Poemas
> Na Berlinda (Poemas)

 

 

 

 

 

 

Antônio Juraci Siqueira

 

Tem pato na corda

 

Minha terra tem mangueiras

maniçoba e tacacá,

os patos que aqui patetam,

não patetam como lá!

E nessa arena de corda

todo pato passará

porque, neste mundo ingrato,

quem ainda não foi pato

na certa, um dia, será!

 

 

 

 

 

 

 

 

Antônio Mariano

 

Do Impossível Exílio

 

cantar o lá
 
sem nunca
ter saído de casa
 
e estranhar ao redor
palmeiras
canto de sabiá
céu farto de estrelas
várzeas de flores
vida e amores
todo o vão
no fósforo das horas
 
cantar o lá
 
até que o toca-fitas automático
vire sucata e a caveira
volte ao pó

 

 

 

 

 

 

Antônio Virgílio de Andrade

 

Canção do Regresso

 

Minha terra tem paisagens

Que em outro lugar não há;

As aves que aqui trinam

Não trinam como as de lá.

 

Minha terra faz fronteira

Com a seca e o mar,

São tão imensuráveis suas riquezas

Que outra mais abençoada não há.

 

Minha terra tem fulgores

Que tais, não encontro eu cá,

E meditar, assim, sozinho

Sei que é melhor voltar.

 

Minha terra tem mais vida

Afago que não tenho cá;

Minha terra tem folguedos

Xaxado, baião, frevo, boi-bumbá;

 

Não permita Deus que eu morra

Sem que eu volte para lá;

Sem que desfrute dos amores

Que não encontrei por cá;

Sem matar a sede no "Velho Chico"

E lavar a dor deste meu pená;

Sem adormecer no colo da morena

Sem o "Padin Cícero" me abençoá.

 

 

 

 

 

 

Armando A. C. Garcia

 

A Minha Terra

 

Minha terra tem giestas floridas.

Rudes pinhais e frondosos castanheiros,

Onde vegetam trigais,

À sombra dos sobreiros

E, crescem o alecrim, e as margaridas.

 

Tem searas, que parecem espigas de ouro,

Serpenteadas como as ondas do mar.

Quando o vento sopra, então faz lembrar

Suas estradas, e o leito do rio Douro.

 

Tem o folclore em trajes de cores garridas.

Tem os cantares e a alegria das vindimas.

Os dialetos e as desgarradas em rimas

E, o rubor das moçoilas atrevidas!

 

Minha terra, tem os fadista de raça.

Amendoeiras floridas, oh! que beleza!

Como se por capricho a natureza

Quisesse, dar a Portugal tanta graça.

 

Tem zimbros, tem carrascos e fragas nuas.

Neve nas serras, no azul, a imensidade,

Na minha terra, mora minha saudade

Que, à noite em sonho perambula pelas ruas.

 

Na minha terra o branco do luar é mais branco.

As gotas do orvalho são frias geladas...

As terras ficam secas, e empedradas

Quando, as geadas brancas, cobrem o campo.

 

Minha terra, tem outeiros e castelos,

Tem penedos rendilhados e arribas,

Tem poetas, toureiros e escribas,

Tem heróis, tem santos e tem vitelos...

 

São Paulo, 17/05/64

 

 

 

 

 

Arnaldo Antunes

 

Inferno

 

Aqui a asa não sai do casulo, o azul

não sai da treva, a terra

não semeia, o sêmen

não sai do escroto, o esgoto

não corre, não jorra

a fonte, a ponte

devolve ao mesmo lado, o galo

cala, não canta a sereia, a ave

não gorjeia, o joio

devora o trigo, o verbo envenena

o mito, o vento

não acena o lenço, o tempo

não passa mais, adia,

a paz entedia, pára

o mar, sem maremoto,

como uma foto, a vida,

sem saída, aqui,

se apaga a lua, acaba

e continua.

 

 

Arnaldo Antunes

Na Web

> Site Oficial

 

 

 

 

 

 

Athanazio

 

Na Minha Terra Tem Amendoeira

 

Na minha terra tem amendoeira,

onde canta o rátátá

As minhas folhas caem,

mas não caem como lá

Na minha terra folhonas que entopem meu ralinho

Tem sombra pra chuchu

e um fruto que ninguém come…

Num é palmeira naum, é esta bendita amendoeira!

ponte das formigas para minha casa,

geradora infinita de folhas e sombra

bom seria extrair energia elétrica de toda

esta movimentação para fazer folhas e frutos

que por sinal não conheço ninguém que come

Até que tentei um dia mas é muito ruim,

mas de qualquer forma a amendoeira é gente boa

é como a vida, tem sombra no dia de sol

mas no inverno haja folha no caminho,

e alguns frutos que não dá para comer.

E assim caminhamos e cantamos e seguimos a amendoeira.