O Sono dos Justos

Sob o mormaço

todos dormem a sesta

na pequenina vila.

Somente o louco da cidade

caminha ao sol sua desventura

e o jargão:

 

"Quando eu morrer

para que lado ficarão meus calcanhares?

Leste, Sul, Norte, Oeste?

Meu corpo em cruz

e a Rosa-dos-Ventos

tatuada em minha testa

e cada falange

uma lua azul em gravitação".

 

Estranha obsessão do louco da cidade:

para que lado ficarão seus calcanhares?

E nesse ir e vir

(deambulante vôo delirante)

enxerga o que não vê

e atira no que vê:

 

O suspiro da filha-de-Maria

por entre as barbas

do capuchinho confessor;

 

o açougueiro da esquina

que acaba de esquartejar

a paixão da sua vida;

 

a língua do pastor

— da 1ª Igreja Pentecostal —

umedecendo as coxas da mulher

(falando a linguagem dos homens)

e conferindo o dízimo do dia.

 

Mas é à noite

(sob o signo da lua)

que o louco da cidade

atira no que vê

e enxerga o que não vê:

o prefeito se esgueirando

pelas sombras

à procura dos seios

de dona Justina

que, entre outras coisas,

é presidente da Câmara Municipal

e mulher do seu melhor amigo.

 

 

 

 

Romance das manhãs de Domingo

 

Para o poeta Elson Farias

 

As manhãs da minha infância

chegavam sempre serenas

levadas de claridade

roçando as manhãs do sol

nos meus olhos de menino.

E só viam o que viam

porque só queriam ver

o que no olhar revelava

novidade e descoberta

para os meus olhos de festa.

 

Porque de festa se faz

toda manhã temporã

das cidades acanhadas

perdidas em suas sestas

como a Manaus dessa época.

 

Manhãs que se embandeiravam

no descanso colorido

dos andaimes de Domingos

construindo em algazarra

os sons nos pés dos moleques

com seus folguedos alegres:

coquinhos de tucumã

no futebol de botão;

pelada para os mais hábeis;

carrinhos de rolimã;

papagaios de papel;

língua do pê, canga-pé,

macaca e barra-bandeira;

pedrinhas e manjalé.

 

Fora outros passa-tempos

(em que nós todos torcíamos

para que nunca passassem)

partilhados em segredo

com meninas assanhadas

bem mais do que curiosas

unidas num só desejo

de pulsão interior:

sussurros umedecendo

os mistérios revelados

(que não eram os gozosos

das ladainhas das missas)

nos arrepios dos pêlos

(ainda ralas penugens)

na pressa dos batimentos

dos corações pequeninos.

 

Sal na saliva furtiva

no toque breve dos lábios

língua lúdica e cândida

de leve inocência lúbrica

na respiração molhada.

 

Ciclo regido nas águas

cheiro agreste de alfazema.

No talhe corpos franzinos

adocicando a paisagem

de surpresa e descoberta:

corpos deitados nas tábuas

dos escondidos porões

fugindo aos olhos contrários

de tias e avós zelosas

anjos com suas verdades

(que nunca eram as nossas)

de labareda e pecado.

 

Querendo aplacar a febre

da nossa chuva de fogo

neblina de suor úmido

de chuva fina na pele

lavando instintos ocultos.

 

E tudo era muito simples

como as coisas das crianças.

 

Nada para complicar

a nossa fala em silêncio.

Fala de olhos espertos

na parceria de cúmplices

quebrada só pela voz

da menina impaciente

sempre mais experiente:

— Põe o teu dentro do meu

não diga nada a ninguém.

 

Tudo ficava sereno

nos meus olhos de menino.

 

Depois as águas do banho

gelavam nossos desejos

e o cheiro do peixe frito

era o sinal para o almoço.

E todos sentavam à mesa

com olhos apreensivos

os ouvidos afinados

à espera de algum resmungo

ou de um olhar mais severo

da autoridade paterna

cofiando seu bigode

afiando os mesmos ralhos

cobrando as nossas posturas

de toda semana inteira

como se aquele Domingo

fosse o dia do juízo.

 

Mas em minha cabecinha

uma lembrança aflorava:

— Põe o teu dentro do meu

não diga nada a ninguém.

 

Tudo ficava sereno

nos meus olhos de menino.

 

 

 

 

Ária più soave

 

As minhas mãos são pentagramas

acordando sons no teu corpo.

Ponta de dedos ímã o tato se vai

percutindo notas descobrindo poros

um toque de cheiro no silêncio úmido.

 

Nos teus cabelos teço a fina partitura

feita de duas claves:

A mão direita

sola um sol agudíssimo

na tua verbena escondida;

a esquerda se faz em fá

o grave fado

o gesto do teu tesão

fala no meu pulsar.

(Um sopro morno fala baixo

no bafo abafado em tua boca)

O suor dos nossos corpos

enquanto garoa no lençol —

lava por um instante

o tempo de um ritmo sem metrônomo

um cheiro concreto de amêndoas.

 

 

 

 

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É preciso urgente cortar os excedentes.

Nada de adiposidades.

Estamos em crise.

Os adjetivos que me perdoem,

os substantivos são mais esbeltos,

e a Nova Era recomenda que sejamos seletos.

 

Há uma pena de andorinha voando à toa.

Há um redemoinho que nos afunda a proa.

Há uma onda marejada que não se escoa.

 

É preciso pôr um bêbado no timão do barco.

Que saiba das marés pelo trago das estrelas,

que saiba afundar levantando um brinde,

e mesmo nos destroços saber-se príncipe

salvo do rescaldo para o cetro da palavra:

La parole est morte. Vive la parole!

 

Há uma paixão em cada esquina torta.

Há um resto de angústia celebrando a morta.

Há um boi no labirinto procurando a porta.

 

É preciso correr atrás da utopia que se fez distante,

para que ela volte a habitar os dias mais comuns,

e faça que o sonho se pareça ao sonho,

mesmo sob o manto pessimista da névoa,

afiando o sabre na pedra que restou da cachoeira.

Ah, nuvens vermelhas, derramai vossa chuva de fogo!

 

Há um canto entravado na garganta.

Há um sufoco que já não me espanta.

Há um espelho que já não me encanta.

 

É preciso fugir do tempo perdido.

O que ficou pra trás encantou-se com a serpente,

e todos os dias buscamos novos corredores:

aléias renovadas para as pegadas recentes.

Salvemos aqui a parelha dos pés que suporta a canga

nesse itinerário do agora recolhendo ontens.

 

Há um solitário na mesa de um bar.

Há um suicida na voragem do mar.

Há um reclamante do verbo amar.

 

É preciso, finalmente, se apaixonar todos os dias.

Experimentar o gesto no corpo da amada.

Imprimir no toque a tatuagem serena

para que fique perene quando for saudade:

A vida se amplia num flash de coisas pequeninas,

e o que ficar são ecos de melodia transitória.

 

Há um desejo que me faz cantor.

Há uma paixão saída da sua cor.

Há um amor na contramão da dor.

 

 

 

 

Viola Azulada

 

Sempre que houver saco retiro a viola,

e ponho a cantoria no sereno

da noite, em serenata que se evola

em sons antigos, raros, que enveneno.

 

Nos acordes do pinho, a mão que sola

repete a melodia no azul pleno

dessa paixão azul, de ontens e agoras,

azulando a saudade e seu terreno.

 

Carlos Pena Filho pintou de azul

os seus sapatos por ser impossível

pintar de azul as ruas do seu rumo,

 

e a trova azul que eu canto agora aqui

mundo afora vai na nuvem que assume

chover de azul os sonhos por aí.

 

 

 

 

Constatação

 

Chega um tempo em que as nuvens não te reconhecem.

Não digas nada.

Longe não deslindas um som que te freqüentava.

Não aguces os ouvidos.

Na gruta passam por ti como se te não vissem

Não esfregues os olhos.

Caminhas pela campina e teus pés nada sentem.

Não troques de passo.

A palavra não é mais dita, apenas lida por outrem.

Não fales nada.

 

No universo transverso desse tempo

Na contramão de versos claudicantes

Ainda restam as mãos para o incêndio das horas.

 

 

 

 

Nó

 

Há sempre um nó encordoado

à espera de que alguém o dedilhe.

 

Para cada marinheiro um acorde

retesado pelos ventos da distância.

 

Há um sol encurvado nas águas

afogando horizontes longínquos

O viajante sabe quando o cais

sola a melodia do impulso.

 

A rota não é de fuga, mas de fogo.

aventura de busca sem bússolas.

 

Nesta noite em que navego lençóis

recostado a um tombadilho de plumas

 

Falta-me um par de remos, mastro e velas soltas.

 

Embora a voz remota insista por meu nome.

 

 

 

 

Velha Senhora

 

Com brincos de vírgulas

ela se enfeitava para a página

mas nunca usava o traço-de-união.

 

O pó compacto dos adjetivos

encobria algumas rugas

teimosas em aparecer após

o banho substantivo.

 

Ela não se sabia evanescente

mas apenas tênue silhueta

em espiral nas suas aparições.

 

Aos seus olhos aparecia

mas nunca na visada

de janelas vizinhas.

 

Era como se não existisse.

 

No entanto estava ali olhava-se ali

úmida de orvalho

brilhando ao sol de sua sintaxe.

Este espartilho

apertado

tentando esconder

os excessos da cintura

 

Deu-se então

o sonho

a levitação heautoscópica

a lâmina fragmentada:

caleidoscópio.

 

E se mirou sozinha

concreta

delgada

estrela que se bastava

elevada do leito das palavras:

P O E S I A

 

 

 

 

Dialética

 

Quando não se queima lenha

na casa de palha e taipa,

sinal de fome que escapa

à saga que se faz senha.

Rio, termômetro da várzea,

geografia de sol e chuva;

linha d'água, arco em curva,

elementos dessa faina.

Um pássaro risca na tarde

a cambraia do seu canto;

o fado da sarça, que arde,

queimando encardidos lírios

    e a tua palidez palustre

    em febre acendendo círios.

 

 

 

 

Primeira Lição das Facas

 

a João Cabral de Melo Neto

 

Essa faca não resgata

nem de si a própria entranha,

como cortante piranha

que a si mesma se abocanha.

 

É essa a faca amazônica

a faca com seus dois lados

peixeira de homem e peixe

lambedeira que se lambe.

 

Faca que não perde tempo

com arengas de xodó

bucho de macho se rasga

mas só do acari-bodó.

 

Como navalha que se arma

aos claros da sua escama

o peixe se alfabetiza

no fundo ABC da lama.

 

Tão do caboclo essa escola

líquida fala de gosma,

peixe/homem homem/peixe

são sinas do mesmo feixe.

 

Essa educação bigúmea:

duas águas uma lâmina

afia-se ao lombo do rio

como a faca no esmeril.

 

 

 

 

Música da Hora

 

Para Ledo Ivo

 

Habitoapausa no hábito da pauta

Músicadesilênciosesoluços

arefreardesmandosdosimpulsos

quesequeremagudossonsdeflauta.

 

Avidaétodamúsicaemseucurso

dogritooriginalemrimaincauta

aosussurroqueseouveemcamainfausta

nessefimdissonantedopercurso.

 

Otemposeencarregadometrônomo

unidoadoisponteirosdeumcronômetro

emqueodelgadoveste-sedemomo

 

paraalegrarashorasdopequeno

quedançaamarchagrisemchãosereno

fugindoaodoisporquatrodoabandono.

 

 

 

 

Czardas para Serrotes

com Arcos de Violino e Berimbau de Lata

 

Esta anábase é de hora aberta desnudada

tão desmedida como foi a minha vida

de nada me arrependo apenas me perdôo

porque meu vôo nem sequer se iniciou

 

E dessas nuvens que me espaçam esgarçadas

trapos e cordas dissonantes dessa lira

são acidentes de percurso em que recorro

como um Zenão o parafuso desse vôo

 

Assim nessa colméia em zíper me percorro

como um zangão no zigue-zague nos hexágonos

ando à procura de uma abelha desvairada

 

que me acompanhe na aventura pelos pântanos

exorcizando a desrazão desses escorços

essa não-ave desgarrada do meu nada

 

 

 

 

  

Anibal Beça (Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto) é amazonense de Manaus, onde nasceu em 13 de setembro de 1946. Poeta, compositor e jornalista, desde muito cedo colabora em suplementos literários e em publicações similares nacionais e internacionais. Especialista em tecnologia educacional na área de Comunicação Social (UFRJ), teve passagens, como repórter, redator, colunista, copy-desk e editor, em todas as redações dos jornais de Manaus, do início da década de 60 até final da década de 80; foi diretor de produção da Televisão Educativa do Amazonas - TVE. Atualmente é presidente do Conselho Municipal de Cultura e presidente do Sindicato de Escritores do Amazonas. É membro da Academia Amazonense de Letras, UBE - União Brasileira de Escritores, do Coletivo Gens da Selva (ONG) e do Clube da Madrugada, entidade instauradora dos movimentos renovadores no campo literário e artístico do Amazonas. Envolvido com teatro, artes plásticas, é na música popular que a sua contribuição se faz mais efetiva como compositor, letrista e produtor de espetáculos e de discos. Desde 1968, quando venceu o I Festival da Canção do Amazonas, Anibal foi colecionando prêmios com mais de 18 primeiros lugares em festivais em sua terra, no Brasil e no exterior. Representou o Brasil no VIII Festival de Joropo de Villa Vicencio, Colômbia (1969). Foi o único artista amazonense a se classificar e se apresentar no Festival Internacional da Canção FIC, em 1970, com a música "Lundu do Terreiro de Fogo", defendida pela cantora Ângela Maria. Tem músicas gravadas por vários artistas brasileiros como: Ângela Maria, As Gatas, Coral JOAB, Felicidade Suzy, Nilson Chaves, Eudes Fraga, Lucinha Cabral, Dominguinhos do Estácio, Bira Hawaí, Aroldo Melodia, Jander, Raízes Caboclas, Mureru, Roberto Dibo, Célio Cruz, Arlindo Junior, Paulo Onça, Paulo André Barata, Almino Henrique, Pedrinho Cavalero, Pedro Callado, Delço Taynara, Grupo Tymbre e outros. Além da sua condição artística é produtor e animador cultural nato. É profissional que, nos tempos atuais, se encaixa no rótulo de multimídia, tal a sua abrangência na área artística. Seu primeiro livro, Convite frugal, data de 1966. A propósito de sua poesia, o poeta Carlos Drummond de Andrade, teceu, em 31 de julho de 1987 — pouco antes de morrer — o comentário: "Li Filhos da Várzea, os poemas-pôster e os haicais afetuosamente a mim dedicados. Obrigado por tudo, meu caro poeta. É de coração aberto que lhe desejo a maior receptividade pública e compreensão para a bela poesia que está elaborando e que, espero, marcará seu nome como um dos que engrandeceram o cultivo artístico do verso". Em 1994, com o livro Suíte para os habitantes da noite, sagrou-se vencedor, dentre 7.038 livros de todo o país, do 6º Prêmio Nestlé de Literatura Brasileira — categoria poesia. O livro, lançado sob o selo da editora Paz e Terra, saiu em 1995.

 

Outros livros: Filhos da várzea (Manaus: Ed. Madrugada, 1984 — abrigando o livro Hora nua); Marupiara — antologia de novos poetas do Amazonas (organizador. Manaus: Ed. Governo do Estado do Amazonas, 1985); Quem foi ao vento, perdeu o assento (teatro. Manaus: Ed. SEMEC, 1986); Itinerário poético da noite desmedida à mínima fratura (Manaus: Ed. Madrugada, 1987); Banda da asa (poesia reunida. Rio de Janeiro, Ed. 7Letras, 1998 — contendo o livro inédito Ter/na colheita); Filhos da várzea (2ª edição. Manaus: Editora Valer, 2002); Folhas da selva (Manaus: Editora Valer, 2006); Noite desmedida e Ter/na colheita, 2ª edição (Manaus: Editora Valer 2006). Site oficial: http://www.portalamazonia.com/anibal

 

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