Wilmar Silva - Maria Esther Maciel, os poemas de sua estréia com Dos haveres do corpo revelam a palavra na textura do corpoque física verbal é essa?

 

Maria Esther Maciel - Como o próprio título indica, o tema predominante de Dos haveres do corpo é o corpo e seus possíveis. De feição lírico-erótica, tendendo, em vários momentos, ao elegíaco, esse livro foi organizado à luz de alguns excertos do livro Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes. Nele subjaz a idéia do corpo como um livro e vice-versa: a palavra como realização inconclusa do desejo que sempre permanece desejo. Percebo que, nesse primeiro trabalho, algumas marcas de minha poética posterior se delineiam: a concisão, um certo despojamento da linguagem, o ritmo melódico e uma subjetividade algo oblíqua. O que o diferencia do Triz é a espontaneidade, o frescor intuitivo, o exercício de uma escrita lânguida e mais permissiva em termos de linguagem.

 

 

WS - Minas fora do circuito do ouro, a geografia de onde vem, com uma dicção própria, que paralelos entre os paradoxos das muitas Minas em Minas Gerais?

 

ME - Drummond disse, num poema, que "ninguém sabe Minas", os mineiros. Mas estes "não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo". Faço minhas essas palavras, com o devido silêncio.

 

 

WS - A presença do pai, "constelação" como "ponto de fuga": o queem nossa cultura que a existência parece ser apenas o tempo carpe diem na terra?

 

ME - A morte, enquanto tema, sempre me interessou, pelo que traz de intrigante e instigante. Em quase todos os meus livros reporto-me — não sem uma certa perplexidade — a ela e ao absurdo que a atravessa. No caso do livro Triz, isso ganhou uma intensidade bem maior, pois, ao escrevê-lo, eu estava sob o impacto da morte de meu paipessoa a quem devo quase tudo do que sou. Eu quis fazer a ele uma homenagem. Mas uma homenagem que, sem prescindir do pathos, pudesse se esquivar do sentimentalismo fácil, do puro exercício do sofrimento. Se, naquele momento, não havia fingimento possível para a dor que eu sentia, coube-me, então, desviá-la de sua obviedade, de seus excessos. A idéia de me valer dos eletrocardiogramas surgiu quase por acaso. Quando os encontrei em meio aos guardados recentes de meu pai (que morreu de enfarte), percebi que naquelas tiras de papel havia uma escrita, um ritmo. Em cada linha, um verso. resolvi explorar as possibilidades dessa linguagem do coração, conjugando-a com as minhas próprias palavras e com a imagem figurativa (biológica) do órgão, acompanhada de sua taxonomia. Eu queria exaurir o signo coração, em suas várias figurações e transfigurações. Dessa forma surgiu toda aquela parte visual do livro, em que enlaço o experimentalismo à experiência, os jogos semânticos à expressão do visceral.

 

 

WS - Fala-se muito na perda de uma matilha de sentidos quando a pessoa divide sua vida com o universo acadêmico. Pode falar sobre a experiência de escrever do habitat da criação e a de escrever a partir de teorias e comparações?

 

ME - O meu trabalho de criação é bem anterior ao meu ingresso na vida acadêmica. Aos 13 anos eu publicava meus poemas e contos nos jornais de Patos de Minas. Mas, curiosamente, o meu interesse pela teoria também começou a se manifestar nessa mesma época. Basta mencionar que, dos 15 aos 18 anos, eu escrevia regularmente resenhas de livros para esses mesmos jornais e sempre procurava ler estudos sobre literatura. A opção pelo curso de Letras foi bem consciente, muito motivada por esse duplo interesse. Nunca tomei a criação e a teoria como campos dissonantes, excludentes. Mesmo depois de iniciar minha trajetória acadêmica, a relação entre essas duas coisas nunca chegou a ser, para mim, qualquer tormento. É claro que a atuação no universo acadêmico incidiu no meu trabalho criativo, tornou-me mais exigente em termos de linguagem, deu-me uma consciência maior do processo da escrita. E creio que isso foi muito bom para a minha aprendizagem, para o meu aprimoramento enquanto escritora. Mais do que nunca estou convicta disso. E digo que essa formação acadêmica também não me impede de estar, cada vez mais, aberta ao que você chama de "matilha de sentidos". Mesmo quando escrevo ensaios crítico-teóricos, não me furto ao chamado da sensorialidade, do pathos e da experiência.

 

 

WS - É possível dizer que a poesia de seu livro de estréia vislumbra "conceito" e "gênese" de "um simples pedaço de angústia" (Roland Barthes), menos explorado em livros futuros?

 

ME - Como disse anteriormente, a poesia de meu livro de estréia não tem nenhum pudor de ser visceral. Ele deixa à flor do verso os pedaços de angústia, os apelos da alma e da pele. E sem medo de dizer "eu".

 

 

WS - Sendo ensaísta e professora, aquela que é "libertina", dizendo "sou a mulher das encruzilhadas", apresenta a "liberdade da minha linguagem" (Leminski) da poeta e mulher Maria Esther Maciel? Que "hell" é esse?

 

ME - Sempre fui fascinada pelos infernos intrínsecos que definem, por dentro, a vida de uma pessoa. E um de meus infernos é este: o da linguagem em sua mais íntima liberdade.

 

 

WS - O livro de Zenóbia é uma "proesia", a exemplo da fala de Caetano Veloso sobre Galáxias de Haroldo de Campos?

 

ME - Por mais que eu tente, não consigo me desvencilhar da poesia. Mesmo em meus exercícios de prosa ela permanece e me desafia. O livro de Zenóbia é um exemplo disso. Ainda que, nele, eu tenha me proposto a contar histórias, descrever cenas prosaicas da vida de uma personagem, a poesia