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Maria Esther Maciel. (Patos de Minas-MG, 1º/02/1963). Poeta, ensaísta e ficcionista, vive em Belo Horizonte desde 1981. É professora de Teoria da Literatura da Faculdade de Letras da UFMG, com Doutorado em Literatura Comparada, pela mesma instituição. Realizou estudos de Pós-doutorado em Literatura e Cinema na Universidade de Londres (1999-2000), onde ocupou também o cargo de Pesquisador Visitante. É autora dos livros Dos haveres do corpo (poesia, Ed. Terra, 1985), As vertigens da lucidez: poesia e crítica em Octavio Paz (ensaio, Ed. Experimento, 1995); A dupla chama: amor e erotismo em Octavio Paz (ensaio, Ed. Memorial da América Latina, 1998); Triz (poesia, Ed. Orobó, 1999); Vôo Transverso: poesia, modernidade e fim do século XX (ensaios, Ed. 7Letras, 1999); A memória das coisas (ensaios, Ed. Lamparina, 2004), e O livro de Zenóbia (ficção, Ed. Lamparina, 2004). Organizou os livros A palavra inquieta: homenagem a Octavio Paz (ensaios, Ed. Autêntica, 1999); Laís Corrêa de Araújo (Ed. Fale/UFMG, 2002), e O cinema enciclopédico de Peter Greenaway (ensaios, Ed. UNIMARCOS, 2004). Seu site: www.letras.ufmg.br/esthermaciel
Mais Maria Esther Maciel em Germina |
Entre
o nervo e o osso
Entre o eco e o oco
Entre o mais e o pouco
Entre a sombra e o corpo
Entre a voz e o sopro
Entre o mesmo e o outro
Há um
vestígio mineral
na sua ausência: algo
que sem estar ainda
fica: fatia de cristal
que não
se vê e brilha:
solidez em transparência
elegância de pedra, luz
do que é perda e não.
Há um
vestígio musical
na sua ausência: algo
que é sigilo e ressonância:
sintonia de cristais
sílabas de sim no
silêncio do som e do aqui.
A lua desliza
sob as sombras
do sol
luz de escuros
véu para o olhar
que não vê
a cor lilás
da noite
num verso

1
É noite mas não sei a hora:
entre mim e o aqui-agora,
a sombra e suas sobras.
Na noite incerta
da memória
meu mortos voltam:
ausências luminosas
imagens fátuas
de minha história.
Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.
Sombras que conheço:
Confio a vós
o meu excesso
o nome avesso
que me empresto
a imagem vária
que me dei.
Viajo ao longe
do que sou, além
do meu espanto
Levo a face
Deixo o espelho
e seu reflexo
Em vosso rosto
deposito
o meu assombro.
Entre as coisas que voam
e as coisas que ficam
vôo e fico.
— Entre
um herói, um mágico
e um artista
prefiro o que faça o imprevisível,
o delicado no amor
perverso na sutileza
que saiba a mágica, a arte
e a conquista
sem que seja três
ou um de cada vez.
(Poemas do livro Triz, 1999)
Um pássaro
atravessa
a página, no lapso
deste tempo que me retém.
Em que palavra não estou?
1
Plantas de raízes
drásticas eram cultivadas por Zenóbia em 76. Eram doze as espécies
que cresciam no jardim estranho que criara em sua nova casa. Delas cuidava
como se
fossem uma dádiva, uma beleza ideal ou seu nada.
2
Tanta dor teve
Zenóbia quando seu primeiro cão morreu que escreveu cem vezes
seis
vezes o nome dele no chão do quarto. Eram quatro para as onze quando
completou o
quadro. Foi dormir quase sem culpa ou cansaço. Sonhou com um pássaro
sem asa.
3
Em 87, Zenóbia
conheceu na rua uma mulher que vendia palavras. Eram todas
inventadas. Encantou-se com "ilágrime". Comprou-a, sem alarde.
Porém, mais tarde,
soube que essa era uma palavra roubada.
4
Alicia Mirabilis
foi o nome que Zenóbia usou quando publicou o seu livro sobre os
milagres de Santa Clara. Já ao escrever sobre Tereza d'Ávila,
escolheu o nome Notylia.
Descobriu-o quando pesquisava orquídeas numa ilha que inventou no dia
de sua maior
alegria.