BOLERO DAS ÁGUAS
O passo no compasso dois por quatro
acode meu suplício de afogado
afastando de mim sedento cálice
em submerso bolero de águas tantas.
A sede dança seca na garganta
curtindo signos, fala ressequida
para a língua de couro, lixa tântala,
alisando palavras rebuça
Quanto alfenim no alfanje que se enfeita
para montar as ancas de égua moura.
Lábia flamenca lambe leve as oiças,
é rito muezim ditando a dança:
no dois pra cá me levo em dois pra lá,
nas águas do regaço vou-me e lavo-me.
(H)ARAS E SARA(H)
Nas areias do Saara sei-me potro
corcel bebendo o fogo do deserto.
Nas almofadas dunas tão macias
me deito ao sono sonho cavalgando.
Arrebatado sigo sem miragens
teu trote gracioso nesse oásis
de ver nas anchas ancas tantas águas
e sei que a minha sede tem abrigo.
Sedento garanhão de antiga Arábia
no solo de Israel lua de alfanje
brilha na tenda a estrela de David.
Iluminada alcova ardendo em sândalo
a sarça da paixão demove intrigas
e rega no seu vinho nossos corpos.
CANTIGA DE SÁBADO
Quero escrever um poema
leve no dorso dourado
que fique em versos perenes
meu veneno tatuado
Um veneno de paixão
de olor forte mas sereno
e que se espalhe até na alma
tomando todo o terreno
Começo pelos teus lábios
pastores dos teus mistérios
sopro suave na brasa
do beijo que tanto quero
Do meio destas colinas
ao regaço mais molhado
me afogo e te bebo toda
na concha do teu relvado
Sentir o sal do banquete
o mormaço do teu ventre
teu cheiro que me alucina
assanha a senha serpente
Este sábado é de bênçãos
bacante regando a cor
de vinho tinto rascante
das uvas do nosso amor
Foram 7 os meus desejos
7 vezes consagrados
que a vida só vale a pena
levada nos seus pecados
LITANIA
Cultivo um pedaço de mim
guardado por sombras antigas
para a visita
predestinada
da mulher de sede serena.
Os goles aos poucos servidos
levarão a calma colhida
no cântaro das horas fluidas
samaritanas
à boca enxuta
da mulher de serena sede.
Um fio de afiado filete
se afinará foz fescenina
rio de sal salivado do corpo
decantado encontro das águas
lépida língua
sorvendo o suor
da mulher de sede serena.
Saciar sedentos anseios
à beira desse corpo ansiado
fez-se do rumor de lençóis
nesse aprendizado rugindo
desesperos de horas letivas
prece com pressa
sem a cartilha
da mulher de serena sede.
Minhas mãos desenharam mapas
da geografia enfurecida
de planícies incendiadas
pelas lavas de vulcões jovens
que sabem só desses instantes
cuspindo o fogo de momentos
surto veloz
sem essa calma
da mulher de sede serena.
Agora que rezo tranqüilo
o salmo das vinhas maduras
acendo a cultivada chama
não ao impulso de erupções
mas no pavio da candeia
lamparina de fogo brando
ardendo azeite renovado
iluminando
grãos dessa espera
da mulher de serena sede.
MULHER DE SEDE SEDENTA
Finge a mulher que não se quer vulcão
num eufemismo frágil de inverdade.
Onde existiu fogueira, abrasação,
basta um sopro na lenha da saudade.
A sede que se faz sede serena
chega filtrada em gotas bem dosadas
regando tantos tântalos na cena
roubando-a como amante acalorada.
O verde que queimaste já não conta
pela falta madura dessas montas
na pressa sem primícias do alunado.
Hoje não. Os chamados escolhidos
são bem poucos, didáticos bandidos
que não querem morrer sem ser matados.
OLHAR A DOIS
As grades que me prendem são teus olhos
aquática prisão, cela telúrica
liana que me enrosca e me desfolha
no tronco tosco dessa árvore lúbrica.
No sol de Gláucia apenas me recolho
e sendo assim o sido se faz público
num pelourinho aberto com seus folhos
zurzindo seu chicote em gestos lúdicos.
Perau de feras, circo de centelha
regendo as águas tépidas de escamas
no fogo da (a)ventura da parelha.
Tudo em suor e sal o amor proclama:
teu mar do olhar em ondas se assemelha
à chama que me acende e que te inflama.