©fernanda lemos
 
 
 
 
 
 
 
 

Fruteira

 

 

Imenso lugar em branco em que despontam sombras

lentamente amanhecidas entre sabores e tons do que sob a pele é fluida seiva a iluminar sentidos

edênica embriaguez a florescer de arrepios

no espelho, visagens, esvoaçantes palavras

veludosos violões vozes ouvidas

corpo que intui a língua do prazer e sonha

decifra rumos ocultos sob os escombros da construção em ruínas

luz sob entulho, cavando o leito da claridade: parto

ali, do lado de fora, a vida esplende.

Algo se mexe atrás do tumulto da sala,

rumoreja em surdina entre as garrafas do bar.

É provável que este murmúrio anuncie nascimentos

quem sabe, de paz ou de sílaba, do instante em que a manga-rosa

explodirá de madura sobre a sacada de mármore

e o adocicado cheiro do fruto se incrustará nos cantos do apartamento.

Agora chove.

E só então me apercebo de ser dezembro outra vez

sob a mangueira a paisagem toda se aveluda

e o mundo se umedece, suculento e próximo.

Sobre a pia, o alimento descansa entre sementes de cravo e meus secretos enigmas,

húmus que escorre desse cultivo entre desejo e morte

gerar com as mãos a esperada manhã

visgo da vida por si mesma imposta à aparente desordem que o mistério instala sobre meu destino.

Assim, sobre o susto, abandono-me à força do que não conheço

mas está aqui, iluminando objetos na penteadeira.

 

 

 

 

 

 

Bilhete

 

 

Açúcar, folhas de hortelã, um beijo de batom carmim

deixei sobre a pia à tua espera sob a luz da tarde

escondido na fruteira atrás do cheiro das tangerinas,

delicadeza de pétala orvalhada no apartamento vazio,

buscarás sinal de minha passagem e encontrarás nos objetos

o aroma cítrico de minha alegria

 

 

 

 

 

 

Antídoto

 

 

Uma casa em tons de rosa entre palmeiras verdes

o amigo que retorna — bálsamo de ervas aromáticas

cravo, canela, especiarias finas,

laivos de ouro no céu ao fim da tarde vasta,

soneto de Camões — flama de amor acesa

impõe-se sempre a vida contra a dor de nada se saber.

 

 

 

 

 

 

Vazante

 

 

Epidérmica, a notícia belisca a criminosa calma das varandas

esquiva-se dos beirais, da moça que espia o tempo

e morre na fonte das Pedras

calada na limpidez das águas do Ribeirão.

A Rua Grande com seu comércio cearense: camelôs, lojistas, transeuntes

existem do mesmo modo, imersos na atmosfera lacônica e pegajosa,

por toda parte, fermenta um mormaço aborrecido

sem que ninguém pressinta a gestação dos horrores

que se respira no mangue — os caranguejos e os homens disputando a lama

onde a vida, imponderável

não parece verossímil.

 

 

 

 

 

 

Capricho

 

 

A poesia restará como pedra preciosa refém da rocha inacessível?

Germinará de um delírio entre súbitas guitarras andaluzas?

Brincará de se esconder entre os pelos do teu púbis?

Mas o que, agora mesmo, inibirá o texto que se nega?

Um cisco em meu olhar, pousado leve sob a pálpebra?

Um pensamento difuso, esquivo a qualquer palavra?

Um desfazer-se de formas que jamais se cumprem, elaborando brilhos para o nada?

Não sei mais o que ofereça a essa deusa fugaz,

que — leve susto — risca a página

como faísca vermelha no céu das noites de maio.

 

 

 

 

 

 

O mel dos olhos

 

 

Derramar sobre teu corpo uma colmeia,

o vinho de mil açucenas e gerânios

— delicada artesania desse amor lilás

confusão de cílios, entrefechadas pálpebras,

gozo de abelhas embriagadas

zumbidos, tatalar de asas

voo

tesão parnasiano

por teus olhos

raptarei rimas raras

secretarei sonetos ardentes e castanhos.

 

 

 

 

 

 

Vida em comum

 

 

Eu meio à bruma, teu amor me guia

na veia é sumo ardente, anjo em vigília,

mão que me tomou ao sal da ventania

a fustigar-me o corpo, o peito em carne viva,

trôpego deambular ao largo da palavra,

tenebrosa aflição a que trouxeste alívio.

 

 

 

 

 

 

Miçanga

 

 

Uma ponta de lua derrama romance nos telhados

zabumbas de bumba-boi ressoam longe

metafísicos mistérios em surdina.

A luz de um candeeiro se assusta de vez em quando

com o silêncio das formas que anima no sobrado

enquanto nossos corpos docemente se festejam

gratos por um carinho súbito do vento nos coqueiros.

 

 

 

 

 

 

Carrossel

 

 

Coração de poeta não se nutre só de dor

mas de fulgor, sobretudo

do afago esquecido no sofá,

do brilho que as horas ocultam.

É domingo e nunca fomos expulsos do Jardim do Éden,

Logo despertarás aromas de café e sândalo

adornarás esta manhã de risos e de azul.

 

 

março, 2019

 

 

Lenita Estrela de Sá é graduada em Letras e Direito. Tem treze livros publicados de forma independente, em diversos gêneros literários: poesia, conto, literatura infantil, teatro, roteiro de cinema e televisão. Em 2018, publicou Antídoto (poemas), com apresentação na orelha por Salgado Maranhão. Foi incluída por Nelly Novaes Coêlho no Dicionário de Escritoras Brasileiras (Escrituras, 2002). Tem publicações nas revistas literárias "O Casulo — jornal de poesia contemporânea" (Patuá, 2016), e "InComunidade" (Portugal). Participa das antologias Mulherio das Letras 2017 (conto e poesia), Do Desejo — as literaturas que desejamos (Patuá, FLIP 2018) e A mulher na literatura latino-americana (EDUFPI/Avant Garde Edições, 2018). Foi incluída por Rubens Jardim na série As Mulheres Poetas na Literatura Brasileira (2016), publicada no blogue do autor e no e-book de mesmo título, v.2 (2018). Em 2018, lançou novo livro de contos, Brasas ardentes na ponta dos dedos, que reúne catorze histórias com temática variada, pela Editora 7Letras, com apresentação na orelha por Alberto Mussa.

 

Mais Lenita Estrela de Sá na Germina

> Contos

> Poesia