©seanen middleton
 
 
 
 
 
 
 

buchada

 

 

a operação faca no peito

esta semana

que acontece no largo

próximo da sua casa

acaba de sangrar vários manifestantes

que reclamam que nem ao menos a semântica da ação foi respeitada

pois o alvo principal das fardas

foi o bucho dos participantes

bucho este que se espalhava pela praça

transformada num grande matadouro

era bucho pra todo lado

a buchada exposta

parecia de bode

parecia outras coisas também

aliás bucho é bucho e vice-versa

e os animais sangrando

após recolherem limparem os seus órgãos e recolocá-los nos seus respectivos lugares

grudaram as barrigas com fitas faixas ataduras

nestas horas é preciso estômago forte

esta é a principal regra para a sobrevivência quando se vai a uma manifestação

ontem hoje amanhã sempre

preciso repetir

sempre

e mesmo com algumas baixas

os manifestantes seguem firmes

preparam as faixas para a próxima manifestação

— não é o bucho das pessoas espalhado pela praça que vai impedir de

[continuarmos lutando por dignidade

dizia o letreiro no bucho de um dos participantes.

 

 

 

 

 

aula de cochilo

[oração para várias vozes]

 

 

tem horas que a gente não quer

mas é preciso cochilar

 

tem horas que a gente não gostaria

mas é preciso cochilar

 

tem horas que a gente não precisa

mas é preciso cochilar

 

tem horas que a gente não tem sono

mas é preciso cochilar

 

tem horas que a gente está exausto e com medo de dormir pra sempre

mas é preciso cochilar

 

tem horas que a situação não permite

mas é preciso cochilar

 

tem horas que sentimos vontade de sair correndo

mas é preciso cochilar

 

tem horas que o coração pesado sente

mas é preciso cochilar

 

tem horas que o corpo não dobra

mas é preciso cochilar

 

tem horas que se cochilar o carro pode parar na ribanceira

mas é preciso cochilar

 

tem horas que a vida está por um fio

mas é preciso cochilar

 

tem horas que o mundo cospe de raiva na tua cara

mas é preciso cochilar

 

tem horas que é preciso cochilar para que o corpo se mantenha

que seja

no fio de improviso que o cochilo tem com a morte.

 

 

 

 

 

cânone

 

 

e quando o poema

atingir a maior idade

a gente corta o cabelo

apara o bigode

faz a barba dele

coloca os calçados

a roupinha bem passada

e cheirosa da crítica

e dá um cargo nos anais

ou no cu da literatura.

 

 

 

 

 

corpos

 

 

isolados corpos distantes isolados corpos nus um pouco longe longe distantes bem mais que poucos corpos muito isolados tentando segurar extirpar da vida distantes talvez com medo talvez sempre com medo isolados no cadafalso de lado de quina corpos pra frente diz a placa distantes com as mãos frívolas calejadas atadas em degraus suspensos tempo tempo tempo suspensos tempo tempo tempo isolados como nunca como sempre coração atônito corpos vazados distantes com os olhos dourados na manteiga mel e pimenta de cheiro isolados marejando o que resta os corpos os conflitos as amenidades causando espasmos distantes sôfrego empapuçado na correnteza rodopios mais que muitos rodopios isolados em estado bruto brutíssimo corpos sentimentalizados ora dramatizados ora os dois ora distantes as horas tangem o galo canta fora do combinado quem combinou o que com quem pois ninguém desapareceu quando devia deveria o verbo a cortina do tablado os corpos nem tudo esticado frouxo na vitrola um sinal para o próximo ato distantes digerindo deglutindo o fígado ameaça a bílis o pâncreas o baço o estômago uma peneira isolados nada perto nada nada nada e não chega à margem o galho outro galho outros corpos que frutificam o mesmo o que se repete não há alegria distantes não obstante perto a fuligem que transforma o pulmão em dia noite resfolegado tramando para se manter o fio de memória atado na tornozeleira do pé esquerdo isolados bem distantes de tudo contudo soltos corpos com o arco das costas distantes das cores que dão alimento ao fosso quando isolados quando corpos quando distantes para desobstruir as veias o alimento a sujeira aquilo que quer parar o coração o coração o coração e eu aqui na esquina da porto alegre com a rio branco em um dia chuvoso olhando para o sinal de trânsito que me dá apenas cinco segundos para cruzar uma vida movimentada.

 

 

 

 

 

crematório

 

 

cremação pública,

o poste, o homem amarado

na praça, ali, no

latifúndio do estado

 

la crema de la crema

de la crema de la crema

 

os romanos de hoje

incendeiam e

incendiados

eufóricos gritam:

[fritam no asfalto o cu

o furico]

habemus césar

habemus papa

habemus hitler

habemus capital

que tal?

quando algo não vai bem

mal, o de sempre o habitual

o culpado é a sobra do real

o fora do quadro, da fotografia

que tu não viu no canal

afinal, a imagem do brasil

desde muito sempre

[igual surreal genial]

é meramente ilustrativa

e claro, passional

 

la crema de la crema

de la crema de la crema

 

o fogo agora

substituiu a guilhotina

que substituiu o fogo

que substituiu a guilhotina

que substituiu o fogo

que substituiu a guilhotina

que substituiu o fogo

que substituiu a guilhotina

que substituiu o fogo

que substituiu a guilhotina...

 

la crema de la crema

de la crema de la crema

 

o menino

filho do estupro

de pais e de mães fornicados

no simplório de sua educação

se diverte acrescentando

um graveto na história

para no (seu) futuro

in glória

quando achar que se sentiu lesado

heroico brado retumbante

encontrar no povo o mesmo culpado

e substituir o método

a guilhotina pelo fogo

ou o fogo pela guilhotina

e assim

[massa de manobra]

fazer girar a máquina do estado

o açougue humano

a outra a mesma

a eterna (e gravata) chacina.

 

 

[Esse poema pode ser ouvido aqui]

 

 

 

 

 

 

interditos

 

 

quando faço companhia

para os móveis da casa

e eles me espremem

os sonhos contra a parede

vou pra sacada do prédio

arremessar saudades

e do alto do destrambelho

da incerteza dos olhos

vendo a vida nublada

apenas escombros cinzas ruínas pó

me sinto ainda mais espremido

no bagaço do corpo

e não ouço respostas

não ouço não não ouço

do mesmo modo que não ouço os outros

quando sentem saudades de mim se é que sentem

as frequências nem sempre se cruzam

talvez deveria assumir que arremesso egoísmos

pintados de outra coisa

para agradar a um eu

de olhos estarrecidos

com um mundo fadado

bruto bruto gemo

e num silêncio caudaloso

volto para o aconchego com o nada

onde bebo garrafas de vinho

a espera da morte que não chega

e que por não chegar me dá

a oportunidade de na noite seguinte

na que danço com os móveis

arremessar outras coisas

mas que é claro não o faço

pois o egoísmo que mora ao lado

mora junto e se estatela no piso

como um copo que cai e fere o desconhecido

e nos arrebenta os interditos que somos.

 

 

 

 

 

lotação

[trecho]

 

 

há um homem chorando no lotação

na sétima viagem o

ônibus desatina e silencia

com o solavanco último

curva breque brusco

todos se assustam

se acentua o tardio e os

confusos se alteram

descem palpites

conversas

conversos

desconexos

ditirambos ora

mais narrativos ora

soluços

soluços

soluços

 

outro carro chega

para rebocá-lo

outro para  saborea-lo

amassa que dá

o trauma fornicado

várias vezes

segue para a garagem da empresa

 

o homem não desceu

acho que não sentiu o

solavanco nem os

soluços muito menos o

ônibus quebrado

isso é o de menos

o ônibus segue

o homem corda

a vida também

aperta

frouxa um pouco

aperta

frouxa de novo

aperta

tem horas que o soluço quer pular pra fora da boca e não consegue

aperta

 

há um homem ali

bem ali e bem aqui não há alternativa

do ladinho talvez

apenas talvez

os asilos seguem determinados

pelo surto do dia

 

o moço da empresa

chamou a polícia para retirá-lo

[precisa fazer a manutenção]

 

a polícia não veio

o jornal também não

ufa ufa ufa várias vezes ufa

o padre junto com a ONG não

não há reclame

nem propaganda

a engrenagem enferrujou

a vida desidratou o corpo

o simbólico o mantém respirando ou

mantém as sinuosidades

intactas

 

há um homem chorando no lotação

que não tem mais conserto

aproveitaram o óbvio

no novo ferro velho da cidade

o mundo ali fundo bem no fundo dali

não tem mais concerto

fino fútil delgado

ninguém se afina mais

bem nem mas ali

os calos calam

 

há um homem

morando no lotação.

 

 

 

 

 

no elevador

 

 

era um animal que corria

dentro de um elevador

 

em círculos com a couraça coração

que mordia o peito mole bem mole

 

corria esbaforido corria e o corpo

como uma mola ora descia ora subia

 

era rápido o suficiente para dar bafo do meio

morno pro gelado na própria nuca

 

gesticulava sinceridades e convertia

os tombos da vida em hematomas

 

no elevador que parecia um cubo mágico

ele pulava entre o nada e o absurdo

 

de vez em quando pelo alçapão não

claro que não pelo porão também não

 

e quando a sineta anunciava a próxima estação

gritava junto como um animal que era

 

um dia o elevador chegou ao térreo

e a servente do dia perguntou:

plástico vidro metal papel ou orgânico?

ele não teve tempo de responder

 

a servente retrucou

[como se fosse em um alto-falante] 

 

lixeira marrom

 

a porta se fechou rapidamente

dele não se teve mais notícia

ela seguiu limpando o hall de entrada e saída do prédio.

 

 

 

 

 

quebra-cabeça

 

 

os olhos caíram da face

quicaram sobre a mesa

sem sintonia alg'

uma

duas

três

quatro

cinco e

quicaram no chão

seis

sete vezes

o último quique

já em cima do tapete:

um olho voltado pra TV e o outro pra debaixo do sofá

 

[o narrador cuspiu veias no desenho

animado e no desânimo

da vida exposta

fratura]

 

ele gritou

— agora o nariz!!!

 

o nariz caiu atabalhoadamente

sem leveza

sem delicadeza

apenas caiu

parecia gripado

ploft!!!

 

ele

— as orelhas!!!

 

elas desgrudaram mansamente

deram um rasante na sala

chegaram roçar o pelo do tapete

voaram sóbrias

pousaram no corrimão da sacada

ficaram olhando para o desconhecido

num silêncio kafkiano

 

a booooooocaaaaaaaa!!!

 

pra se desfazer dela precisou gritar

queria que o último grito

zunisse no espaço

e reverberasse

mesmo que com

medo de atrapalhar

o improviso das orelhas

e o absorto dos olhos

 

[gesto influenciado pelo que

remonta a vida

na estupidez próxima

colada no corpo

fora de fora

filme talvez]

 

a boca no chão

indefesa

sendo perseguida por uma

gosmenta língua lesma losna

e uma dentadura

gengiva grossa e mal cuidada...

 

aí ergueu os braços e ficou pensando

em uma maneira de se desfazer das mãos

perder os sentidos de vez por todas

e pra acabar com o quinto

usou o cesto

mãos e pés calejados

braços e pernas

tendinites e bursites às favas

 

quando achou que tudo havia terminado

(percebeu)

estava de pau duro...

 

lembrou da primeira vez que

enfrentou a escuridão desse jeito

se viu

com o olho da TV

[depois que uma das orelhas deu um rasante e lhe mudou o horizonte]

um idiota completo

suando frio

esperando que o tempo não se demorasse

mais que os vestígios

 

deve estar ainda lá agora

olhando o desmonte

 

[afinal os coros replicam]

 

tentando ser outra coisa

qualquer menos do que imaginou

para que o trauma

no preto do silêncio

se faça inverno.

 

 

 

 

 

baile funk

 

 

este é o poema do cume

[do erudito ao não dito

da cumeeira sem beira

que do cume agito

acima abaixo

a fora e a dentro

de um pretendente

pra sempre

a ser gente]   

do cume lado do presidente

que do cume fala

que do cume governa

que do cume só pra

com um cálice

cálice cálice

o cume trouxe

estrume lado

na mão

 

o cume lado do presidente

moro do paraná

toda vez que sobe o cume

desce o cume lado

o cume lado desce

e do cume lado moro

a galope o golpe

do cume vaza

documentado

ou do cu mentido

é o cúmulo

é o cu mula

é o cume tido

é o cume moro

é o cume tendo

tendo sido

tendencioso

 

ver-te merda todo o dia

do cume o presidente

num país desmoronado

desmoronando e dançando

com o verde amarelo da colônia

com cheiro de cume engana

pois quem cunha uma moeda do safado

do safado uma moeda cunha

 

este é o poema do cume

pra dançar no baile funk

no palanque do planalto

do cume tendo e aprovando

o passado danação

com a chibata no coro

com o coro no tronco

entoando a manchete da tv

repetida como refrão

 

vai vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai

vai vai vai

vai vai...

 

 

dezembro, 2017

 

 

Demétrio Panarotto nasceu em Chapecó/SC, em 1969. É doutor em Literatura (UFSC) e professor universitário (UNISUL). Músico, poeta, escritor e idealizador do programa Quinta Maldita (na webrádio Desterro Cultural). Publicou, dentre outros, Mas é isso, um acontecimento [Editora da Casa, 2008, poemas]; Qual Sertão, Euclides da Cunha e Tom Zé [Lumme Editor, Móbile, 2009, livro/ensaio]; Poema da Maria 3D [Coleção Formas Breves, e-galáxia, 2015, e-book, conto]; Ares-Condicionados [Nave Editora, 2015, contos]; A de Antônia [Miríade, 2016, infantil]; No Puteiro [Butecanis Editora Cabocla, 2016, poemas]; Café com Boceta [Butecanis Editora Cabocla, 2017, poemas] mais alguns discos e alguns filmes. Reside em Florianópolis/SC.

 

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