Adriane Garcia -  Saudações, Chico Lopes. Em primeiro lugar, dizer que é para mim uma alegria conhecer sua literatura. Tive essa oportunidade, primeiramente com sua prosa, especificamente nos contos de Dobras da noite, onde encontrei uma narrativa densa, tensa e direta. Alguns personagens e seus conflitos tão marcantes, que mesmo passando o tempo, não me esqueço. Depois, conheci sua poesia no livro Caderno provinciano, editado pela Patuá e isso se deu em condição muito especial, pois além do prazer de ler sua poesia, era no exemplar da poeta Líria Porto. Eu, àquela época (2014), estava hospedada na casa dela, em Araxá. Agora, ao fazer essa entrevista sobre seu novo livro de poesia Florir no escuro, não tive como não retornar ao Caderno provinciano. Tanto num livro quanto noutro, notamos algumas características muito próprias com relação à temática e que persistem; porém, fica claro, algo novo aparece. Em Caderno Provinciano, as sombras são quase ininterruptas e em Florir no escuro, o que vemos é, entre elas, o exercício das frestas, o que é muito interessante com relação a esse título "Florir no escuro". Fale um pouquinho para os leitores sobre essa claridade florindo.

 

Chico Lopes - Sabe, Adriane?, desde meus contos, as pessoas me rotularam como um escritor sombrio (até um tanto preguiçosamente, devido aos títulos dos livros) e eu não teria como negar isso. Mas acho que isso não é necessariamente negativo nem deve assustar os leitores. O prazer de uma escrita menos alegre se situa em outra parte, na vitalidade que o autor pode obter na busca de verdades mais duras. A estética literária pode não ser tônica, mas nunca será desdenhável se atingir zonas de nossa alma que, embora estranhas, possam ser reveladoras.

 

Tenho o gosto (algo gótico, talvez) pelos tormentos que se desenrolam em personalidades proscritas, incompreendidas, divididas. Isso dá em escuridão, e eu próprio vivi períodos de trevas muito cerradas em minha vida, longos anos de depressão, penúria, dúvidas, amores mal resolvidos, enfim, todo um catálogo de coisas pesadas, às vezes muito opressivas, que eu não quero lembrar agora, mas inevitavelmente tinham que entrar em meus escritos. Mas ao mesmo tempo creio que, a partir de Hóspedes do vento, meu terceiro livro de contos, passei a trabalhar mais esperançosamente com isso que você chamou belamente de "exercício das frestas", com os lampejos de lirismo que há em todas as sombras, em todos os becos sem saída, quando prestamos uma atenção maior a eles. Meu romance O Estranho no Corredor, que para muita gente parece o máximo em sombrio, para mim tem muito de esperançoso, em meio aos tormentos do personagem. Florir no Escuro se abre um pouco para a esperança e a leveza. Não para o sentimentalismo, porém. Abomino as soluções sentimentais, o simplismo, o dever de ser "otimista" numa sociedade desesperada e mentirosa.

 

 

AG - Ao ler sua poesia, notamos o exercício da tentativa de lucidez sobre o próprio processo de vida. Escrever é, antes de tudo, esse exercício de criar a si mesmo?

 

 

CL - Escrever para mim tem algo de religioso: procuro uma lucidez que me dê a sensação exata de estar fazendo justiça à tremenda beleza (e ao tremendo terror) da vida, e acho que, sem perceber ou percebendo nebulosamente, a gente está mesmo envolvido num processo de autocriação, de autoconhecimento penoso, sinuoso.

 

Eu demorei muito a publicar meu primeiro livro. Foi em 2000, quando já tinha 48 anos e havia escrito um sem-fim de contos e novelas, que rasgava sempre, insatisfeito. Curiosamente, eu já havia escrito poesia, mas a mantinha guardada (era o Caderno Provinciano todo e parte desse Florir no Escuro). O primeiro livro foi de contos, Nó de sombras, em que tracei um tipo de narrativa do qual nunca mais quis sair, e só fiz tentar aprimorar: essa de personagens vivendo em cidades pequenas ou médias, em periferias e cantos solitários, tendo que lutar contra fantasmas interiores e também com um mundo exterior marcado pela vulgaridade, a incompreensão e os paredões da ignorância.

 

Isso já estava em minha poesia: uma vida oprimida, em que a consciência não encontrava saída para algo mais luminoso, mais vivo. Eu tinha forte influência de Pessoa, de Drummond, de uma ótica bastante pessimista ou niilista do mundo. Não mudei tanto, essencialmente. Mas muita coisa aconteceu, muitas outras leituras, muitas outras experiências de vida. E a gente amadurece, mesmo sem querer. Algo maior nos empurra em direção a não sabemos o quê. Força obscura, que não pretendo desvendar, e, aliás, seria pretensão demais tentar desvendar: a maneira de entendê-la é não entendê-la, é fazer poesia, e talvez assim nos purificar também obscuramente. Alguns dos poemas de Florir no Escuro são ainda dos anos 1980 (a década em que mais escrevi poesia, comparativamente) e eu quis mantê-los, porque me parecem dizer alguma coisa que resiste.

 

 

 

 

AG - Tanto em Caderno provinciano quanto neste novo livro Florir no escuro, há a presença do sofrimento, da luta para suportar um mundo sem sentido, politicamente inviável mas, sobretudo, há a presença da resignação. É interessante, porque no primeiro livro essa resignação se dá de forma mais interior, dentro do homem e em Florir no escuro a resignação já conta com o mundo exterior: os pássaros, por exemplo. O poeta Chico Lopes abriu propositadamente as janelas de Caderno Provinciano para ver as cores dos pássaros ou quando se assustou eles já estavam dentro da casa?

 

CL - Creio que, como disse, há na minha poesia muito de proposital, mas eu nunca negaria o poder de uma palavra exaurida e mal vista, "inspiração". Não há em mim uma consciência muito clara do que se passa, a não ser no arranjo formal, muito trabalhado, mas posterior, racional, e acredito que poesia para mim é bem mais difícil que prosa, acontece mais raramente. Não a procuro, mas há momentos em que ela me baixa como uma espécie de canção, ou de oração – nunca inteiramente, nunca facilmente, porém. Por exemplo, o início do poema "Areal", do "Caderno Provinciano", me veio como uma coisa já rimada, inevitável, quando olhava para o céu numa certa noite e, embora no interior paulistano, cercado por mato, eu me imaginei à beira-mar. "Areal da noite / enigma sem causa / turbilhão de sono / tumba de asas...", vocativos seguidos por outras imagens, e era como que começar uma prece. Mas o resto, claro, foi toda uma elaboração, decorrente desse insight. Quanto à resignação, é algo que procuro, mas talvez a palavra não seja essa (a carga de "resignação" parece negativa). Seria mais uma compreensão final das coisas, uma aceitação sábia, embora bastante desiludida. Mas os pássaros, acho que sempre estiveram dentro de minha casa.

 

 

AG -  Por falar em pássaros, é sabido o seu encantamento pela beleza das aves, dos passarinhos. Em Florir há uma seção inteira dedicada a eles e isso empresta um caráter lúdico ao livro, ou seja, ainda que Florir traga elementos de Provinciano, "aquela escuridão, que eu não me esqueça", a própria forma se alterou, com poemas muito mais cantantes, jogando de forma especialmente rítmica com as palavras. Aproveitando, é um livro onde os versos são mais curtos. Fale-nos um pouquinho sobre seu trabalho com a forma, sobre essa relação de forma que você próprio teve ao olhar o primeiro livro e agora escrever este, e sobre o papel da reescrita em Florir no escuro.

 

Chico Lopes – Essa "fresta" no Florir no Escuro, que é o bloco "Asas", vem de um livro curtinho, que uma vez escrevi, com a intenção de que fosse muito mais longo do que ficou. Chamava-se Aviário e eu queria falar de todos os passarinhos que amava e mesmo de alguns que só conhecia por ilustrações ou pesquisas em sites ornitológicos. Por fim, ficou bastante reduzido, mas o conservei exatamente por esse caráter lúdico que você notou: são poemas quase infantis, com a alegria de descrever os hábitos das criaturinhas que tanto amo, algumas delas muito populares, como o "passo-preto". Mas eu coloquei o bloco entre poemas em prosa e o terminei com uma "Elegia", porque toda aquela vasta alegria infantil destoaria demais do livro, se não fosse assim.

 

Florir no Escuro, na verdade, era um livro só, sem título, que fui mudando. Como fiquei tempo longo com ele, mexi e remexi muito. Acredito muito em reescrever, com cuidado, no entanto, para preservar aquele jorro de naturalidade que nos vem em certos momentos, como o mencionado do "Areal". Eu queria que ele fosse um livro mais heterogêneo em tom e alcance. Eu queria manter o "declamável" também, de certos poemas, porque gosto de poemas que eu possa dizer recorrendo às rimas, gosto de lê-los em voz alta para mim mesmo ou para outras pessoas, testando a musicalidade, que para mim é da maior importância.

 

 

AG - Uma vez li que um homem que muito lembra gostaria é de esquecer. Não creio que possa ser regra, mas gosto de paradoxos. A memória é um centro na poesia de Chico Lopes. Em determinado verso de Florir no escuro o eu poético diz: "O passado é saída para o futuro". O exercício constante dela, da memória em sua poesia, é uma tentativa da maior exatidão possível ou é recriação para justamente esquecê-la? E/Ou: O poeta é um fingidor, Chico Lopes?

 

CL -  Deveras (rs). O que acho é que essa coisa chamada passado é um tesouro que não se esgota. O curioso é que não tive uma infância exatamente feliz, mas a reelaboro muito, em contos que às vezes parecem evocativos (mas é um artifício, os personagens têm e não têm coisas minhas). O poema "Felicidade Antiga", que fecha o livro, é ao mesmo tempo saudosista e crítico, e eu o quis muito longo, quase como um drama em que uma mente se debate entre a doçura de lembrar e o imperioso de esquecer, entre cantar o eterno canto da "aurora da minha vida" ou ficar adulto e enterrar essas belezas já inexequíveis. Há coisas que, decididamente, quero esquecer. Mas o "retorno do recalcado" é uma força violenta em literatura. A gente nunca sabe quem de lá dentro de nós mexem os verdadeiros pauzinhos que nos fazem erguer nossos precários castelos. Ademais, sou proustiano. A reelaboração de cheiros, sensações diversas, figuras estranhas, familiares, passagens tristes ou felizes de minha infância contraditória, é quase um dever para mim.

 

 

 

 

AG - Você é um escritor, é um apreciador crítico de cinema, é um pintor. É notável a presença da imagem nos seus poemas, assim como a importância do cenário, da cena, da montagem do que está em volta do poeta, mesmo quando ele está imerso nele mesmo. Você sempre teve essa relação com a cena? Você foi (é) uma criança interessada no movimento cênico da vida?

 

CL -  Eu fui um garoto muito interessado em desenhar (fazia histórias em quadrinhos com uns precários lápis de cor em cadernos de desenho comuns) e que não saía da porta do cinema, onde levava meus gibis para trocar com outros garotos. As imagens sempre me deixaram obcecado. Há, por exemplo, em minha lembrança, a presença do vermelho, que me assustou muito em cenas do filme Marnie, de Hitchcock, em que a heroína tem fobia da cor creio que tinha 15 anos quando fui ver esse filme no cinema de minha terra. E, assim, filme após filme (o começo foi mesmo com Hitchcock), fui me apaixonando cada vez mais por imagens, movimentos, labirintos visuais que traduziriam certas angústias, certas obsessões minhas. Teria dado um cineasta, creio, porque a conjunção de palavra, imagem, de artes como pintura e literatura, além de música, que o Cinema traz, me deixa absolutamente fascinado. É como se fosse arte total.

 

Sim, de algum modo o que escrevo não está longe de querer ser um roteiro de cinema, um acompanhamento dos personagens, e há partes descritivas em que, definitivamente, entro como pintor.  "Enceno" muito meus contos e novelas em minha cabeça. Uma vez Ignácio de Loyola Brandão, velho amigo, comparou meus contos a roteiros de cinema mesmo, assim, diretamente.

 

 

AG - "Pousas em minha calma / como o anjo equívoco do prazer, / vens do escuro essencial da noite, / nas mãos a espada do desassossego. / E em mim alarmas o anjo dormente / para um combate em que só se perde" (Florir no escuro).

 

"Venceu-se a guerra? Grotescos / são os heróis da planície, / gastando o tesouro do sangue / pela troca de fantasmas — / sai tirano, entra tirano, / a História é fértil cansaço" (Florir no escuro).

 

"Alguém me ouvirá o gemido? / Não, não farei ruído / exceto o de pedregulho / absorvido por água" (Caderno Provinciano).

 

Retirei esses versos de poemas dos dois livros. Além de muito bonitos — e há grande beleza na poesia de Chico Lopes — eu os destaquei por falar de amor, política, irrealização e incomunicabilidade. Num mundo extremamente barulhento, os últimos versos me levam a pensar que a poesia é seu silêncio. E que o silêncio é uma resistência. A poesia tem esse papel pra você?

 

CL – Sem dúvida, a gente procura essa qualidade paradoxal no que escreve, e creio que você, como ótima poeta, sabe disso melhor que poucos: um silêncio enorme que contenha tudo que pode ser dito, tudo que foi dito, tudo que foi sentido, tudo que se pode sentir, uma espécie de fraternidade final com o mundo, sem explicações, sem verbalismo. O mundo é de fato de um barulho extremo, e pedimos à poesia que ele fique quieto, ao menos por um minuto, pra poder respirar de ares mais altos. Eu quero esse silêncio. Um silêncio musical. Algo como aquelas pausas em que mal se ouve um deslizar de violinos ou sopros em temas de Wagner ou Mahler já nem se sabe se é música ou silêncio que se ouve.

 

A gente quer se purificar. Embora multipliquemos os problemas, as vias fiquem cada vez mais sinuosas e extraviadas, a gente busca a purificação. O silêncio, realmente.

 

 

AG - Grande abraço. E obrigada pelo diálogo.

 

 

 

junho, 2016

 

 

 

Chico Lopes (Francisco Carlos Lopes, Novo Horizonte/SP, 06/05/1952). Escritor, tradutor, pintor e cinéfilo. É autor dos livros de contos Nó de Sombras (2000), Dobras da Noite (2004) e Hóspedes do Vento (2011). Em 2011, publicou seu primeiro romance, O Estranho no Corredor, premiado com o  Jabuti, em 2012. Neste ano, publicou seu primeiro livro de memórias, A Herança e a Procura e, em 2013, seu primeiro livro de poesia, Caderno Provinciano. Em 2014, lançou Na Sala Escura, coletânea de ensaios sobre cinema. Em 2015, foi a vez do romance Corpos Furtivos. Em 2016, publicou o segundo livro de poesia, Florir no Escuro. Vive em Brotas/SP.

 

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Adriane Garcia (Belo Horizonte/MG, 1973). Poeta, historiadora, funcionária pública, arte-educadora, atriz. Escreve poesia, infantojuvenis, contos e dramaturgia. Foi a vencedora do Prêmio Paraná de Literatura 2013 (Prêmio Helena Kolody, poesia) com o livro Fábulas para Adulto Perder o Sono, publicado em 2014 (edição da Biblioteca do Paraná). Publicou também  O Nome do Mundo (Armazém da Cultura, 2014) e Só, com peixes (Confraria do Vento, 2015).

 

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