©regina lustosa
 
 
 
 
 
 
 

Um mundo sensorial construído a partir de fragmentos de sons, vozes encantatórias, ventos, "pinceladas de luz", filetes de narrativa e experiência. Em Chinês com sono, de Leonardo Fróes, os elementos vão assim se combinando numa imagética bastante coesa, vazada numa dicção muito particular. A artesania é madura e sem excessos que dificultem a apreensão do significado geral dos poemas. A musicalidade meditada dos versos, reproduzindo o que poderia ser o ritmo calmo da atitude contemplativa, é claramente decantação de um convívio paciente com a estrutura material do poema e suas arestas, e embala muitas vezes algumas das melhores melodias do livro: "Seus chamados e rugidos, / silvos, estalos, estrondos. Seus avisos / à bicharada recolhida nas tocas" (Terra brava).

 

Esse aspecto sonoro tão marcante em Chinês com sono introduz um de seus temas privilegiados, ou talvez, mais do que um tema, um mote poético: o da mobilidade das formas, a tentativa de figuração do que está em constante movimento, bem encarnada nas imagens de esculturas movediças, do rosto feito de água ou, a mais radical, do ato de escrever "dentro da água, ou quase" (Ao ler no mundo flutuante). A forma em permanente mobilidade — a "fluidez dispersiva" —  é também o modo como se comporta o mundo vivo, sempre interagindo com o mundo morto, mais basal e estável: "Trepadeiras silvestres se entrelaçam / pelos restos de ossadas" (Língua de boi). O movimento, como característica fundamental da vida, converte-se também em qualidade do olhar lírico, da contemplação que funciona como princípio de registro do mundo para Fróes. Retirada da biografia do poeta, a imagem do montanhista, ou do "andarilho" que comparece com freqüência nos poemas, resume um olhar que também se move dentro do movimento mais geral do mundo vivo e morto, e mesmo assim precisa fixar pictoricamente o que vê. A exigência é de uma suspensão do desenho do gesto, uma contraditória "educação pela estátua".

 

Os melhores momentos do livro são aqueles em que o encontro do olhar e dos sentidos movediços do eu lírico com as dinâmicas da matéria exterior está mais bem tramado do ponto de vista da imagem. Em Proximidade, por exemplo, são necessários poucos traços para compor o desenho, que culmina com a sensualidade insuspeita do contato vivo/morto ressignificado. Enrodilhado pela neblina (e "Diadorim é a minha neblina", já disse Guimarães Rosa), o eu lírico experimenta a contradição fluidez/solidez e calor/frio sem escamoteá-la: "Sinto-lhe as mãos, o rosto, as coxas / a roçar em meu sexo. / Sinto sua boca refrescando a minha". A realidade quase imaterial da neblina, ausência de contornos por excelência, ativa os sentidos mais do que a experiência do tangível. Por isso ela é "o real que liberta". Esses poemas sensoriais que exploram a intimidade do vivo com o morto, como Ressurreição; ou mimetizam com êxito a experiência corpórea, como Dançando na chuva; e também os poemas em que a veia pictórica é mais forte, como o próprio Chinês com sono, são, talvez, os momentos mais inspirados do livro. São também os momentos menos comprometidos com a pregação de uma certa ética do andarilho, cujo mandamento essencial é a disposição de confundir os contornos do "eu" com os movimentos da natureza.

 

Essa militância da perda de si, combinada com um programa de valorização do ínfimo e do insignificante, por vezes assoma ao primeiro plano, em detrimento da imagética que o poeta de resto mobiliza com arte. Uma parte desse programa é o registro de tipos humanos, de personagens fabulares que podem ser lidos, não por acaso, como projeções do eu lírico. Poemas como Confissões a um andarilho, Sobre um tema de Confúcio, Retrato do ermitão no deserto, Um leitor do céu, figuram o louco, o desgarrado, o extraviado, o homem de alguma forma posto à margem da vida prática e do "delírio urbano". Em todo o caso, este homem à margem, "curtido ao sabor da estrada", estaria em posição de compreender melhor os sinais emitidos pela natureza ou o próprio drama humano, na medida em que se pusesse a "ouvir a canção além dos passos / e além de sua própria pessoa". Em outros poemas como Pedra doida ou A última romântica, os personagens são imagens do desajuste, da contramão da direção corrente da vida, pedras no meio do caminho dominante, a seu modo. Como imagens, estes dois últimos são mais expressivos do que os poemas em que a ética do andarilho comparece como discurso, misturando-se ao fluxo das metáforas.

 

A outra parte do programa do andarilho se compõe de poemas em que o tema  da Despovoação da pessoa é mais explícito; há o elogio daquela liberdade original e natural que o contrato social conspurcou, substituindo-a pela artificialidade do Estado, suas convenções, normas, equipamentos. Quebrando a máscara de coerência individual, do "nome, renome, cadastro, etc.", a pessoa adquire um "perfil nulo", desindividualiza-se. A pessoa despovoada reabilita-se para a comunhão verdadeira com a natureza de que foi seqüestrada pela civilização. A perda de si, o protesto contra o indivíduo autocentrado e o elogio de uma conexão profunda e misteriosa com a matéria são desdobramentos do mesmo tema. Nesse sentido, a relação que o eu lírico de Fróes estabelece com a natureza e a experiência dos sentidos é bem diferente, por exemplo, daquela do pastor árcade que quer expandir a sua individualidade no contato com os espaços abertos, procurando nos elementos naturais a percussão dos nobres sentimentos. O poema O observador observado constitui um exemplo. Ali o montanhista contempla um animal na mata, mas essa contemplação se torna transfusão, o observador esquece-se de si e funde-se ao observado, "largando de lado, no processo, / todo e qualquer vestígio de quem sou, / lembranças, compromissos ou datas / ou dores que ainda ficam doendo". Na operação, a perda de contornos entre os dois deixa um saldo valioso para o eu lírico: "qualquer coisa maior se estabelece" / (...) a glória, a beleza, o alívio, / coesão impessoal da matéria, a eternidade". Nessa suprema transfusão de formas, na qual a própria consciência se integra ao sentimento da natureza, instaura-se a possibilidade de esfumar também os limites do tempo, e chega-se à "eternidade". 

 

O fecho da imagem é, portanto, a suspensão do tempo humano como ponto culminante do processo de libertação do indivíduo, cuja via específica é o mergulho na matéria bruta da natureza. É quase inevitável a comparação com  uma outra modalidade de ascese muito característica da poesia moderna, que é o mergulho na vertigem das transformações mundanas. Baudelaire, no poema Paisagem, que abre os "Quadros parisienses" das "Flores do Mal", situa a eternidade a partir de outra mirada: "Verei a fábrica em azáfama engolfada; / Torres e chaminés, os mastros da cidade, / E o vasto céu que faz sonhar a eternidade" (na tradução de Ivan Junqueira). A contemplação baudelaireana está radicalmente deslocada, fundindo, com ironia, a vastidão do espaço natural, o céu, com os elementos problemáticos da cidade, como "rios de carvão" a "galgar o firmamento". A militância de Fróes, ao contrário, corresponde ao seu "afastamento progressivo / da comédia de erros da cidade", e revela uma sensibilidade refratária ao seu espetáculo eventual: "Não me comove o mistério do automóvel / numa estrada de serra assim tão cedo" (Sombra e Cão). Vista da mata, a cidade concentra os obstáculos à realização da passagem da pessoa ao coletivo natural. Os indivíduos são "esferas que rolam", e seus corpos, "pacotes moventes", cujo choque jamais produz o verdadeiro encontro. Sugestivamente, o signo do movimento, tão importante para Fróes, adquire na cidade uma outra valoração: "Tem pressa a multidão que decorre / do império da necessidade ou da sede / de movimentação pura e simples (...)" (Compromissos no Centro). Falta de aderência até física de um corpo a outro, a incomunicabilidade é a imagem oposta à utopia da fusão do "eu" nas estruturas profundas da matéria.

 

Esses poemas mais comprometidos com a utopia do andarilho, na verdade, apenas fazem aflorar no plano da expressão uma tábua de valores que percorre todo o livro. Ironicamente, o desejo de despovoação da pessoa, de fusão da individualidade na totalidade, a renúncia à cidade e à identidade, todas essas atitudes que emergem na superfície da construção dos poemas formam uma rede temática que reforça, por sua vez, a individualidade poética do eu lírico que as enuncia. À plataforma de dissolução do "eu" opõe-se uma identidade poética coesa e coerente, idiossincrática, até, sempre reposta em cada imagem que evoca a consubstanciação com o mundo natural pelos sentidos. O sujeito por trás da pura experiência revela preferências e referências das quais não se descola. Adere com força a si mesmo. Chega mesmo a povoar a própria capa do livro, que traz a foto do autor, "a caminho dos Castelos do Açu, a 2.200m, na Serra dos Órgãos", contemplando a bela paisagem do lugar. O risco, nesse sentido, está no alcance demasiado extenso da pessoalidade, ou seja, na ausência daquela distância irônica e problemática que modernidade instaurou entre o sujeito e o objeto lingüístico produzido, permitindo inclusive que a fala do poema seja tomada de assalto por vozes alheias, por multidões e anônimos. Os belos acordes sonoros de Fróes evoluem com mais desenvoltura nos poemas em que a filosofia do despovoamento está mais diluída. É quando o eu lírico cessa de enunciar a sua própria desintegração que as imagens ficam mais poderosas na sugestão.

 

Não deixa de ser curioso, portanto, que o princípio de dissolução dessa poética pregue uma espontaneidade a partir do esvaziamento, mas se apóie em referências bastante precisas na fixação de seu repertório. No poema Transição, lemos que "À mente vaga / cabe atravessar uma selva / de símbolos em dissolução contínua / antes de se tornar — sem amarras — / vaga, vazia e espontânea". A imagem da selva de símbolos em dissolução nos remete ao mapeamento dos símbolos com que Fróes demarca sua travessia. A outra presença preponderante do livro é exatamente a da natureza, que não é, contudo, virgem, mas já povoada de signos culturais reconhecíveis. No poema Leitora, a natureza comparece modificada como adorno e cenário, enfeitando a mulher que lê sob uma árvore com insetos que caem sobre ela, "para adornar-lhe o corpo pensativo / como jóias raras, / como broches vivos". A imagem é plácida e delicada, e desmente a suspeita de uma natureza crua, excessivamente orgânica ou apenas real. A natureza que comparece em Fróes passa por uma filtragem cultural nada arbitrária, modula-se em cenário e informação pictórica. A referência à poesia oriental evoca um modelo de natureza, e mais ainda, um modelo de relacionamento com a natureza. Assim, em Derivação de Wang-Wei, esse relacionamento é da ordem da comunhão da própria linguagem: "De vez em quando encontro uma criatura da mata. / Rimos e conversamos um pouco, / nem dá vontade de voltar para casa".

 

O caminho particular que Fróes traça nessa busca de uma comunhão ideal com uma natureza imaginada e impregnada de símbolos tem, como se vê, sua tradição própria e seu terreno cultural bem demarcado. Para o leitor sufocado nas urgências da cidade e enredado nos desmentidos da representação, pode parecer extemporânea a expedição à montanha, com seus quadros, sons e mistérios. Mas há sempre o bar Numa beira de estrada qualquer, habitado por "pernas balcão nojento braços bambos saiotes desajustados", onde o montanhista e a modernidade podem tranqüilamente se encontrar e se divertir.        

 

 
 
março, 2006
 
 
 
 
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Leonardo Fróes. Chinês com Sono e Clones do Inglês. Rio de Janeiro: Rocco, 2005
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Ricardo Rizzo nasceu em Juiz de Fora (Minas Gerais). Em 2002, publicou o livro Cavalo Marinho e outros poemas (São Paulo: Editora Nankin; Juiz de Fora: Funalfa Edições). Colaborou com poemas, ensaio e tradução em algumas revistas de literatura, como "Cacto" (no 2 e no 3, São Paulo), "Rodapé" (no 3, São Paulo: Editora Nankin) e "Rattapallax" (no 10, Nova York). Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Juiz de Fora em 2004. No mesmo ano, foi vencedor do prêmio Cidade Belo Horizonte, na categoria poesia, com o livro ainda inédito Ao Sul da Esfera. É editor da revista de literatura "Jandira" (Juiz de Fora: Funalfa Edições, 2004-2005, números 1 e 2). Contato e pedidos, escreva para a Revista Jandira. Atualmente, é mestrando em Ciência Política na Universidade de São Paulo.

 
 
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