I


Foi o nova-iorquino filho de lituanos Karl Beckson (New York, A Reader´s Guide to Literaty Terms, The Noonday Press, 1960, p. 119) um dos primeiros críticos a dizer, com acerto, que as memórias, como gênero literário, têm como objetivo inserir o indivíduo em seu coletivo. Entre nós, Massaud Moisés (São Paulo, Dicionário de Termos Literários, Cultrix, 12ª ed., 2004, pp. 279-280) observou que as memórias distinguem-se por constituir um relato na primeira pessoa do singular que visa à reconstrução do passado, com base nas ocorrências e nos sentimentos gravados no cérebro de quem as registra.

Distorcido pela memória, diz Massaud, o passado transfigura-se como se parecesse inventado, uma vez que o intuito reside menos no pacto autobiográfico estrito do que na reconstituição das lembranças que restaram do fluxo e refluxo dos dias. Como Proust Em busca do tempo perdido, diz, o autor, "ao rememorar os dias vividos, sabe que a sua visão é subjetiva, por vezes idiossincrática, mesmo quando trata das outras pessoas com quem lhe foi dado conviver".

É o que faz Alberto da Costa e Silva (1931) em Invenção do desenho: ficções da memória, ao reconstruir fragmentos de uma vida e uma época, demonstrando a importância do contexto histórico na formação da subjetividade. Trata-se de um relato em que o autor rememora, reinterpreta e mesmo exorciza alguns fantasmas da história recente de Brasil e Portugal, trazendo-nos de volta como gente de carne e osso figuras que já fazem parte da História canonizada destes países no século XX. Ao mesmo tempo, estabelece uma íntima conexão entre subjetividade e História, ao partilhar histórias cotidianas de toda uma geração, ou seja, daqueles que neste século começam a se aproximar das oito décadas de existência. Nada mais justificável, portanto, o subtítulo que deu ao livro: ficções da memória.

A exemplo do que já fizera em Espelho do príncipe (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1994), memórias da infância, Costa e Silva dramatiza em Invenção do desenho a inter-relação entre o público e o privado, dando continuidade a suas lembranças pessoais do período que vai de sua adolescência até os 30 anos de idade, ou seja, do afastamento imposto pelos militares ao ditador Getúlio Vargas em 1945 como condição sine qua non para a redemocratização do País até a inesperada renúncia de Jânio Quadros à presidência da República em 1961.


II


Não é à toa que uma dessas lembranças situa-se por volta de 1946, quando o rapaz de 15 anos, que vivia no Rio de Janeiro, filho do poeta Da Costa e Silva (1885-1950), a caminho do consultório de seu irmão Mário, viu descer de um bonde um senhor parecidíssimo com o presidente Dutra. Era mesmo o presidente, que vinha acompanhado por seu secretário, sem a companhia de um só agente de segurança. Viera do Palácio do Catete rumo ao Centro do Rio de Janeiro, atravessando a Avenida Rio Branco em direção a um barbeiro que havia na rua de Santa Luzia, sem que ninguém dele se aproximasse, ainda que com discreto aceno de cabeça respondesse a um e a outro cumprimento.        

A recordação breve fica ali a título de não só mostrar que esse era um outro tempo, em que presidentes da República podiam circular pelas ruas como qualquer mortal, mas também para registrar a memória coletiva dos anos pós-guerra em que o Brasil viveu uma larga experiência democrática que viria a ser brutalmente interrompida em 1964 por um golpe militar. E serve ainda para resgatar a memória literária daqueles anos 40, tempo de revistas literárias a que o grupo de amigos que Costa e Silva freqüentava não se mostrou infenso, lançando também a sua publicação.

Data dessa época a amizade de Costa e Silva por Antônio Carlos Villaça (1928-2005), seu colega de ginásio que, àquele tempo, já havia traçado para si um futuro recluso de monge beneditino e de outras ordens religiosas, o que, se lhe pouparia de viver as experiências ditas normais de todo jovem, dar-lhe-ia todo o tempo de que necessitava para entender a santidade e construir uma obra literária que inclui ao menos uma obra-prima, O nariz do morto, o que não é pouco.


III


De sua juventude, recorda-se Costa e Silva do Congresso Internacional de Escritores, realizado em 1954 dentro das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo e de vários de seus participantes, como Miguel Torga, com seu estilo "carrancudo e quase intratável", um montanhês perdido na urbe, ou o norte-americano William Faulkner, que ficou quase todo o tempo no hotel, entre o bar e o quarto, e só compareceu a uma sessão plenária de poesia, ou do professor M.Rodrigues Lapa, que fascinou a platéia ao falar sobre as origens da poesia lírica medieval portuguesa.

Por essa época, o jovem Alberto da Costa e Silva começou a se preparar com o objetivo de enfrentar os exames para Instituo Rio Branco, pensando na carreira diplomática que haveria de seguir por quase meio século. A partir daí, suas memórias, em meio a algumas lembranças estritamente pessoais, como o seu casamento com Vera de Campos Queiroz e o nascimento de seus filhos, concentram-se nos primeiros tempos desse novo ofício atuando na divisão comercial do Itamaraty, o Ministério das Relações Exteriores. Logo então, encantou-se com a história da África, a partir da leitura de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, até tornar-se o africanólogo respeitado dos dias de hoje, sempre convidado a participar de toda coletânea de ensaios que se prepara sobre as relações entre Brasil e África.

Lotado na Embaixada do Brasil em Lisboa, o jovem diplomata nos anos 50 e 60, viria a fazer um grande círculo de amigos entre os intelectuais portugueses da época, como Ferreira de Castro, Urbano Tavares Rodrigues, Alfredo Margarido, Alberto de Lacerda (que já morava em Londres e vinha a Portugal só para encontrá-lo), E.M. de Melo e Castro, João Gaspar Simões, Vergílio Ferreira, Alexandre O´Neill, Sophia de Mello Breyner e Ruben A., que, inclusive, era funcionário da representação brasileira e assessor especial do embaixador Negrão de Lima.

Dessa época, recorda a visita que o presidente Juscelino Kubitschek fez a Lisboa, quando, entre outras atividades, teve de homenagear o escritor Vitorino Nemésio, presidente do Centro de Estudos Brasileiros da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, de quem nunca ouvira falar.

Mas bastaram-lhe algumas palavras do diplomata Costa e Silva sobre o autor de Mau tempo no canal, durante o trajeto de carro do Palácio de Queluz, onde estava hospedado, até o Campo Grande para que a saudação e o elogio a sua obra feitos por Juscelino na Universidade encantassem e até arrancassem lágrimas do escritor.

Desse tempo, o diplomata, acostumado a conviver no Brasil com amigos que tinham pensamentos políticos diametralmente opostos, lembra a dificuldade que tinha em Lisboa em aceitar a escassez de pontes num Portugal assolado pelo salazarismo. "Ali, ou se era favorável ao governo ou da oposição, e só se procuravam amigos entre os que pensavam da mesma forma", escreve.


IV


Com uma prosa delicada e extremamente lírica, Costa e Silva, em meio a outros momentos de sua vida pessoal, resgata ainda as peripécias de suas primeiras viagens ao continente africano, como a que fez como integrante de uma missão especial do governo brasileiro. Na Nigéria, conta que se surpreendeu ao conhecer uma cidade chamada Porto Seguro, um vilarejo tipicamente brasileiro, com pequenas casas de alvenaria, pintadas de branco, azul ou amarelo, em que algumas casas comerciais se destacavam porque tinham no alto das fachadas ou em placas de madeira os nomes Lima, Barbosa, Da Rocha, Oliveira, Medeiros, Sousa e Da Silva. Eram casas de agudás, ou brasileiros, descendentes de ex-escravos que haviam retornado do Brasil para a África.

Como se vê este é também um livro de viagens. E não só daquelas que se faz através dos livros, trajeto igualmente cumprido pelo autor, cujo percurso intelectual teve início ainda na adolescência, com a leitura de clássicos na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, onde também ainda muito jovem começou a trabalhar, por indicação de Josué Montello. E é também um livro de retratos, e não só daqueles que privaram da amizade com o autor, mas também de grandes figuras que marcaram o século luso-brasileiro para o bem ou para o mal.


V


Africanista que escreveu livros já clássicos na historiografia brasileira como A enxada e a lança: a África antes dos portugueses (1992), A manilha e o libambo: a África e a escravidão, de 1500 a 1700 (2002), vencedor do Prêmio Jabuti de 2003 da Câmara Brasileira do Livro, Um rio chamado Atlântico: a África no Brasil e o Brasil na África (2003), Francisco Félix de Souza, mercador de escravos (2004) e Das mãos do oleiro: aproximações (2005), todos publicados pela Nova Fronteira, do Rio de Janeiro, Costa e Silva aproveitou também sua experiência de diplomata de carreira que serviu durante largos anos na África para contar uma história que é um sinal da devoção que ex-escravos dedicaram ao poeta Castro Alves (1847-1871) em Castro Alves: um poeta sempre jovem (São Paulo, Companhia das Letras, 2006).

Poeta de igual brilho e incontáveis méritos, como sabe quem leu seus Poemas Reunidos (Rio de Janeiro, Nova Fronteira/Biblioteca Nacional, 2000), recolha de trabalhos de oito livros anteriores, Costa e Silva, embaixador do Brasil em Portugal de 1986 a 1990, na República de Benim e na Nigéria, serviu na África em várias oportunidades, o que, a par da sabedoria livresca, lhe deu o conhecimento da terra e dos costumes de um continente tão múltiplo, o que lhe valeu o título de doutor honoris causa pela Universidade Obafemi Awolowo, da Nigéria.

Em 2002, publicou pela Academia Brasileira de Letras uma coletânea de ensaios literários, O Pardal na Janela, que reúne textos que já haviam sido publicados em O vício da África e outros vícios (Lisboa, Edições Sá da Costa, 1989). Foi ainda presidente da Academia Brasileira de Letras de 2000 a 2004.

 

 

 

 

 

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Invenção do Desenho: Ficções da Memória, de Alberto da Costa e Silva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 239 págs., 2007. E-mail: sac@novafronteira.com.br.

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setembro, 2007