Tudo Continua Sempre – 1974
 
 
 
 
 
 
 
 

"A obra de Farnese de Andrade diz coisas parecidas. Uma história cruel, repleta de violências e maldades, desautoriza expectativas otimistas em relação ao presente. Farnese pertence a uma vertente da cultura brasileira que pôs de lado as esperanças atribuíveis a um país jovem, em formação, e que sublinhou os entraves que conduziram à precariedade nacional. A seu lado, além de Lúcio Cardoso, poderiam ser colocados Cornélio Penna, Octávio de Faria, Jorge de Lima, certas obras de Clarice Lispector, Murilo Mendes, Ismael Nery, Mário Peixoto, e mesmo alguma coisa de Nelson Rodrigues, de Lupicínio Rodrigues ("e a vergonha é a herança maior que meu pai me deixou") — a lista vai longe. Para todos eles, por mais diferentes que sejam suas entonações, a História impede a história. Não há dúvida de que essas preocupações ajudam a equilibrar a cultura brasileira. O risco está em transformar esse peso histórico em algo não histórico, meio metafísico, meio culposo e tornar a obra de arte apenas uma ruminação a mais desse passado pegajoso. Mas há também o risco oposto: ignorar a constância — da qual nenhuma manifestação artística brasileira e, em geral, periférica, parece estar imune — de uma história que não apenas frusta, mas que volta e meia dá mesmo a impressão de não sair do lugar". [A Grande Tristeza, Rodrigo Naves, agosto de 2000, Página 21, Farnese de Andrade, Cosac & Naif Edições, São Paulo, SP, 2002]

 

Sem título - 1985

 

 

"Como na obra de Amilcar de Castro, o mar oscila do concreto ao abstrato. A distância, um belo horizonte, o encontro com o céu ora se traduz numa linha rígida como a de uma régua, ora uma linha côncava feita com compasso. À medida que nosso olhar se aproxima, o mar se torna mais e mais orgânico, revolto, agitado e violento, como as madeixas do cabelo da Medusa ou como o véu preto da Medéia.

 

Os destroços encontrados na orla pelo artista, nas longas caminhadas que fazia, é a substância de grande parte de sua obra. Certamente, além do sentimento oceânico, o mar significou uma fonte generosa para Farnese. Em parte, isso explica a antipatia que tinha por Minas Gerais, mais especificamente por Belo Horizonte, e explica também a sua paixão desenfreada por Barcelona, que pouco antes de seu falecimento planejava visitar". [Hábitos Estranhos, Charles Cosac, 2004, página 21, Farnese Objetos, Cosac & Naif Edições, São Paulo, SP, 2005]

 

Sem título - 1995

 
 
 
Farnese de Andrade Neto nasceu no dia 26 de janeiro de 1926 em Araguari, Minas Gerais. Foi o sexto de oito irmãos. Em 1942, vai morar com mãe em Belo Horizonte, MG. Estuda desenho com Alberto da Veiga Guignard, em 1945, na Escola do Parque, BH, MG. Em 1948, vai trabalhar no Rio de Janeiro, RJ, e fica quase dois anos internado no sanatório, em Correias, RJ, para tratar da tuberculose mal curada. De 1950 até 1960, ilustra inúmeros jornais e revistas, como O Cruzeiro, Manchete, Rio Magazine, Suplemento Literário do Diário de Notícias, etc. Em 1952, participa do I Salão Nacional de Arte Moderna. Expõe, em 1961, na VI Bienal de São Paulo. No mesmo ano recebe inúmeras premiações. Em 1962, participa da III Biennale Internazionale di Scultura, Carrara, Itália. Em 1964, cria o primeiro objeto e participa da Fourth International Biennial Exhibition of Prints, Tóquio, Japão. Em 1966, conquista o 1º prêmio na categoria desenho, no III Salão de Arte Moderna do Distrito Federal, Brasília. Recebe, em 1967, na IX Bienal de São Paulo o prêmio "Galeria Estréia", é eleito pelo jornal Tribuna da Imprensa o artista mais premiado do ano. Em 1968, participa da XXXIV Biennale di Venezia, Itália. Mais um prêmio em 1969, "Viagem ao País" e certificado de "Isenção de Júri", no XVIII Salão Nacional de Arte Moderna, MEC, Rio de Janeiro. No ano seguinte, ganha o prêmio "Viagem ao Exterior", no XIX Salão Nacional de Arte Moderna, MEC, Rio de Janeiro. Em 1972, viaja para a Europa, reside inicialmente em Roma e depois em Barcelona, onde permanece até 1975. Em 1978, participa da I Bienal Pan-Americana, Sala Especial, Fundação Bienal de São Paulo. Após inúmeras participações em individuais e coletivas ao longo de mais de uma década, recebe em 1993 o prêmio Fundação Roquette Pinto: "Os Melhores de 1992", pela exposição Objetos, na Galeria Anna Maria Niemeyer, Rio de Janeiro, RJ. Participa, em 1995, da Configura 2, Erfurt, Alemanha, é o único artista brasileiro contemplado com uma sala individual. Morre no dia 18 de julho de 1996, aos 70 anos, na cidade do Rio de Janeiro, RJ. As obras de Farnese de Andrade integram o acervo dos principais museus, fundações, institutos e coleções particulares do Brasil e exterior.