A escritora Eltânia André nasceu na cidade mineira de Cataguases, atualmente mora em Portugal e acaba de lançar Decomposição dos pássaros, pela Editora Urutau. É dela também Manhãs adiadas (contos, Dobra Editora, de 2012, finalista do prêmio Portugal Telecom); Para fugir dos vivos (romance, Patuá, 2015); Diolindas (romance, Penalux, 2016, escrito em parceria com Ronaldo Cagiano); Terra dividida (romance, Laranja Original, 2020); Diários dos mundos (romance, Laranja Original, 2022, escrito em parceria com Letícia Soares) e Corpos Luminosos (contos, Urutau, 2022).

Julio Cortázar disse que se o romance ganha por pontos, o conto vence por nocaute, comparando o fazer literário ao boxe. É justamente este o caso dos contos de Decomposição dos pássaros. Eltânia leva o conceito de Cortázar a sério e sua "luta" com as palavras mais parece um balé feito de fogo, urgência e verdade. Eltânia adiciona ao paradoxo, aos contrários, sentidos outros, da ordem — ou desordem — da poesia, que tudo isso gera e que ela colhe. A escolha dos títulos dos dez contos do livro é primorosa: "Pluma e osso"; "A última música: 2 minutos e 35 segundos"; "Márrio-Riomar: um nome todo água"; "Céu na boca"; "Evangelina Agustina: a Baba Vanga brasileira", dentre outros.

Eltânia domina como poucos a esgrima, aquela luta de espadas na qual só existem vencedores. Esse que lê, a outra que escreve. Eltânia não brinca em serviço, ela encara o trágico que não respeita os personagens do livro, homens e mulheres mais que comuns. Cabem nos contos epifanias e até mesmo homenagens, como no conto "Subindo as montanhas de xisto da Bulgária ou Assassinando a lógica com a caneta de Campos de Carvalho".

A boa literatura é forjada no corpo-a-corpo e desse conluio mais que promissor nasceu o belíssimo Decomposição dos pássaros. Eltânia parece que escreve sem maquiagens, sem colares e anéis nos dedos libertos e francos. Ela não adorna o texto, não diz a mais, não diz de menos.

O conto exige rapidez, a astúcia que dura o tempo da flecha atingindo o alvo, o tal nocaute de Cortázar. Eltânia, nos contos do seu livro, não deixa de esbarrar com parentescos nos contos de Lygia Fagundes Telles. Os contos do livro são feitos de observâncias, de elipses que mais revelam que escondem. Contudo, o estilo depurado de Eltânia não é feito de omissões, mas de revelações da faceta trágica — mas poética — da vida, como se fosse possível existir um mesmo tudo feito de possíveis orquídeas. Nada escapa. Nem o trágico. A literatura mais solta que prende, daí sua inutilidade — essencial. Passam os pássaros, fica o risco do voo.

Não existe sincronia entre intenção e gesto no estilo de Eltânia. Assim são pintados os mais bonitos quadros. Vide Modigliani. O romance olha a vista, o mar amplo, o céu azul; o conto é olho no olho. Os contos prezam o trágico. Entretanto, como disse Antonio Gamoneda, "amei todas as perdas", que abre o conto "Construção".

Eltânia escreve, "peleja com o indefectível", a saber, a vida. A vida em si. A vida em sim e não. Os personagens do livro são fortes e fracos, com nomes "fáceis de gritar", como Josué, do conto que dá nome ao livro. Os contos do livro de Eltânia incomodam. Eles inauguram silêncios dentro de nós a cada término da leitura dos textos. Eltânia nos faz compreender o outro, e isso não é pouco, não.

Como bem observou Luiz Ruffato na orelha do livro: "O nome de Eltânia André vem angariando, mais e mais, espaço no sempre seletivo número de escritores fundamentais da literatura contemporânea".

Eltânia seca ao sol do real as palavras e rega a seu modo os contos do seu livro. É preciso prumo e apuro para ler Decomposição dos pássaros. Apesar do trágico, Eltânia percebeu que "patos são ótimos nadadores e mergulham na fundura das águas com graça e leveza".

 

 

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O livro: Eltânia André. Decomposição dos pássaros.

Cotia/SP: Urutau, 2025. 96 págs., R$ 55,00

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fevereiro, 2026

 

 

André di Bernardi é poeta e jornalista. Publicou A hora extrema (1994, vencedor do Prêmio Álvares de Azevedo, da Academia Mineira de Letras); Água cor (1997); Longes pertos e algumas árvores (2002); É quase noite no coração daquelas águas (Confraria do Vento, 2009); O ar necessário (Jaguatirica, 2014); e o infantojuvenil Esse bicho sou eu (Jaguatirica, 2015). Participou das antologias Amar, verbo atemporal — 100 poemas de amor (Rocco, 2013) e Pelada Poética (Scriptum, 2014). Tem poemas e resenhas publicados no Suplemento Literário de Minas Gerais e nas revistas eletrônicas Tantas-Folhas, Sibila e Caliban, de Portugal.

 

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