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Todos olham para os relógios e celulares, contando nove, oito, sete. Empurradas pela ansiedade, as felicitações começam a distância, não é cortês distribuir abraços antes da meia-noite. Seis, cinco, quatro. Lurdes está sob o lustre de cristal com a bandeja de taças nas mãos. Krug Rosé Brut, safra de 1998, disse a ela o sommelier quando as garrafas chegaram. Três, dois, um.

Os gritos de Feliz Natal misturam-se aos afagos e brindes. Viva Jesus! Lurdes faz uma oração e o sinal da cruz mentalmente. Entrega as taças e recebe cumprimentos contidos. Mário apresenta a doméstica ao amigo de Rotary, diz que ela serve na casa há alguns anos. Veio ocupar o lugar da mãe, que já estava um tanto velha. Chegou com dezoito anos, é como se fosse da família. Lurdes pensa em corrigir o patrão, dizendo que, na verdade, começou a trabalhar quando tinha quatorze. Hoje está com vinte e dois.

O tapete vermelho sob os pés evoca a imagem do Papai Noel que, naquele momento, devia estar abraçando seu filho. Há alguns anos o tio de Lurdes ganhara uns metros de tecido vermelho como pagamento de servicinho de pedreiro e pediu para a irmã costurar a roupa copiando a revista da Coca-Cola que trazia o velho presenteador na capa.

Era o oitavo natal que o homem se caracterizava. Entrava em várias casas da comunidade distribuindo sorrisos, doces e brinquedos arrecadados durante o mês. Mas o último lar em que o Papai Noel passava (e ficava) era o da irmã, desde que o sobrinho-neto nascera há quatro anos.

Nicolas veio prematuro, Lurdes não tinha as vitaminas todas que os bebês precisam para ficar o tempo certo na barriga. Quando engravidou, já trabalhava ajudando a mãe com as faxinas na casa dos Magalhães. A patroa disse que um filho era sempre uma bênção, mas que atrapalhava nas coisas do trabalho. Eu abandonei minha carreira de arquiteta quando escolhi ser mãe. É responsabilidade demais colocar outra vida no mundo, Lurdes!

Lurdes sabia disso, apesar de recém-ingressa na maioridade. A vida ensina a gente, diria à dona Pâmela se as palavras não a tivessem abandonado naquele instante. Sabia também que o sustento do filho não seria compartilhado com o pai do bebê que, aliás, desaparecera na sétima semana de gravidez. Contaria com a mãe e, de vez em quando, com o tio que enviava alimentos e produtos de limpeza. Um dos seus irmãos cumpria pena por tráfico, o outro fez a vida na capital e nunca mais deu as caras.

Dona Pâmela pede que Lurdes traga mais canapés, depressa que os convidados estão sem aperitivos. A mulher responde com a boca e o corpo todo e, ao virar-se rumo à cozinha, tropeça na cristaleira de madeira maciça. A patroa corre para verificar o móvel francês, não havia danos aparentes. E pede que a mulher seja mais atenciosa.

Difícil pregar atenção ali enquanto sua mãe e seu filho comemoram em casa o nascimento do salvador. Enquanto Nicolas está com os dentes à mostra ao receber do Papai Noel o super-herói de plástico que tanto pediu ao longo do ano. Enquanto o tio vai ao quarto único e abaixa a barba branca de nylon para comer a torta de frango que a irmã passou o dia a preparar. Feito mágica natalina, a frase que Lurdes ouviu um dia qualquer na televisão aparece escrita no piso de porcelanato da sala: "não há dinheiro que pague os momentos em família".

Suas sobrancelhas juntam-se, espremidas. E, dos olhos pretos, descem fios de água salgada que morrem na boca. Dinheiro não traz felicidade, seu filho da puta, mas a falta dele impede que ela chegue! Rapidamente, a mulher limpa o rosto com as costas das mãos. A pele negra fica brilhante, como a testa do filho quando estava febril na semana anterior.

Foi neste dia que Pâmela avisou que Lurdes teria que trabalhar na véspera de Natal. Eu não posso, dona Pâmela, já prometi ao Nicolas que passaria com ele. A patroa ofereceu quinhentos reais pelas oito horas extras e deixou escapar pelos cantos da língua que seria melhor ela aceitar. Mário e eu gostamos muito de você, Lurdes. E queremos que continue trabalhando aqui.

Lurdes impôs uma condição: que recebesse o valor naquele momento. Com esse dinheiro, comprou o brinquedo que Nicolas desejava e as comidas que, naquele volume, nunca haviam entrado em sua casa.

As caixas, ao pé do pinheiro de quase dois metros e meio, foram embrulhadas por Lurdes. Ela aproveitou a sobra de um dos papéis para embalar o presente do filho e as lembrancinhas que comprou para a mãe e o tio: um brinco de madrepérola em formato de coração para ela e uma camiseta azul-bebê cavada para ele.

A mulher não compreendia muito bem a ausência de crianças numa noite de natal. Dez pessoas e nenhum menino escalando o sofá ou menina pedindo para tirar a sandália. O filho de dona Pâmela e seu Mário já era adolescente, devia estar na casa de amigos ou da namorada. Mas e os outros convidados?

É chegada a hora do cordeiro, tradição natalina na casa dos Magalhães. A receita, carré de cordeiro com crosta de farofa de avelã, é da melhor amiga de Pâmela, chef num dos restaurantes que os anfitriões da noite mais frequentam. O casal posiciona-se à ponta da mesa, todos esperam pelas palavras lisas de tanto uso, amor-paz-saúde-luz, mas antes Mário introduz uma oração. Os presentes fecham os olhos, juntam as mãos e o homem agradece a mesa farta e pede intervenção divina aos desvalidos.

Pâmela faz sinal com a cabeça, Lurdes entende e busca o prato principal. A patroa diz que os convidados já podem ser servidos, mas Lurdes não se mexe. Com o cordeiro à altura do peito, emerge o sorriso do filho, brilho intenso no centro do rostinho preto. O menino chama pela mãe de braços abertos. Olhando para o bicho morto, prestes a se dissolver na barriga daquelas pessoas, Lurdes sussurra, Cordeiro de Deus, tende piedade deles.

A mulher entrega a bandeja nas mãos de Pâmela, pendura o avental branco na cristaleira e sai pela porta como se o salvador a tivesse buscado. No caminho, imagina-se em contagem regressiva, ignorando relógios e celulares, com as vozes que acariciam seus tímpanos. E, para isso, valer-se-ia do tempo verdadeiro, aquela massa macia que molda a gente por dentro.

 

 

maio, 2023

 

 

Matheus Arcaro é Mestre em Filosofia contemporânea pela Unicamp. Pós-graduado em História da Arte. Graduado em Filosofia e também em Comunicação Social. É professor, artista plástico, palestrante e escritor, autor do romance O lado imóvel do tempo (Patuá, 2016), dos livros de contos Violeta velha e outras flores (Patuá, 2014) e Amortalha (Patuá, 2017), do livro de poesias Um clitóris encostado na eternidade (Patuá, 2019) e do livro de filosofia Nietzsche: verdade com metáfora e linguagem como dissimulação (Amavisse, 2022). Também colabora com artigos para vários portais e revistas.

 

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