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Níquel



na última vez

que o amor veio

me ver, não portava


flechas nem flores

vinho ou versos

mísseis ou maçãs


trouxe sim nos olhos

o fósforo, e na boca

um barril de gasolina


o que em mim

não virou cinzas

o inverno regou.







Contraposição



na beira do cais

de costas viradas

para o poente


sem sigla partidária

os barcos recusam

o impeachment da tarde.







Evolar



não! minhas chaminés

não são um cigarro aceso

queimando o tóxico do tempo


minhas chaminés sopram

nuvens brancas, plumas

e pétalas de esperança fresca.







Autocídio ao pôr do sol



A tarde teimava

em descer seu mastro,

em recolher os remos

e ancorar na noite.


longe, o sol parecia

ter tido um colapso

ou impedia Rute

de pular da ponte.


e quando o filho disse:

mãe, não faça isso! 

ela respondeu: morro 

para amamentar 

teus sonhos...







Gênese



acaso eu teria voz

acaso eu teria vícios

acaso eu teria versos


acaso eu teria sede

acaso eu teria signos

acaso eu teria safra


se nas minhas veias

não corresse escuridão?







Prevalência



a vida goza

além da nudez humana


há tesão além das formas

e fora da cama


sexo por sexo é sexy

mas sexo por amor


é romance enrolado

em papel de presente.







Verso shop



vendem-se poemas

de todas as grifes

made in China


poemas lights

pra quem tem

olhos obesos


poemas sarados

pra quem sente

tesão nos bíceps


poemas neovirais

pró-esquerda pró-

direita e pra crítica.







Paisagem do cotidiano



dos becos dos morros eu beijo

as mãos do Cristo Redentor


ele me olha com a compaixão

de quem conhece o peso da cruz


balas em brasa abalam as casas

chuva de meteorito a olho nu


elas perfuram a medula do poema

transcrito no muro da minha escola


as botinas ordenam o calabouço

e os ratos decretam o silêncio


pela fresta da janela revejo o Cristo

porém agora de costas viradas para mim.







Hóspede



A saudade é uma ausência

espaçosa,

ocupa todos os cantos

e cômodos

da nossa casa mal varrida,

e briga

o tempo todo com ela

própria,

como se fosse uma mulher

histérica

que por birra, logo cedo,

abre o berreiro,

pela necessidade

extrema

de não se calar.

é sua forma de dizer:

estou viva,

mata-me!







Insurgente



bebi o sangue das horas

na demora dos sonhos

cuspi na cara do tempo

o destempero das sobras


e no trapézio dos desejos

fui tecendo meu caminho

na cerração da inquietude

na dura sequidão da vida


das sombras fiz meu sal

das pedras extraí a cura

lavei a cara empoeirada

na biqueira das lágrimas


e no cárcere da minha alma

engordei um diabo amigo

enquanto chorava silêncios

no desalento dos desencontros.







Mea-aculpa



o tempo em sua cólera 

rugiu contra meu ego

e me furou os olhos


minhas cisternas

onde eu mantinha

em neutro o nitro

das palavras e memórias

secaram em pleno inverno


sinto-me celeiro vazio

depois de desperdiçar

a colheita lá fora

nos talos dos momentos.







Vida de assombros



Os céus trovejam sangue bélico

numa eclipse de neons e nervos.

Sobe aos olhos dos narcisistas

uma poeira nuclear alienígena.


Dragões intergalácticos cospem

esgoto cancerígena nas crianças

e gafanhotos consomem homens

entorpecidos de demência aguda.


Nuvens de sangue gotejam

pestes vulcânicas, demônios

marítimos vomitando o lixo

das megalópoles americanas.


Cruz e clero, dentes e punhos,

vão sonegando o direito à vida,

enquanto palestinos e judeus

ocultam as peças do xadrez.

 

                  

 

 

 

 

 

 

 

 


Neurivan Sousa é poeta e professor, natural de Magalhães de Almeida/MA (1974), mas radicado em Santa Rita. Membro fundador da Associação Maranhense de Escritores Independentes (AMEI) e Membro Correspondente da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA). É autor de Lume (2015), Palavras sonâmbulas (2016), Minha estampa é da cor do tempo (2018), da trilogia infantojuvenil O pequeno poeta, e do infantil Ribamar, o menino peixe.


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