©alexas

 
 
 
 
 
 
 

,



estabelecer um início


(no princípio, deus criou o céu e a terra...


ou

era uma vez...


ou

abril é o mais cruel dos meses...


ou 

nonada. tiros que o senhor ouviu...)


— eis aí uma estratégia

para o poema sobreviver além da primeira página







,



o poema como uma narrativa:

um fio de ideia puxando outra ideia


da mesma maneira que um peixe puxa outro peixe

[em uma tarde de sol, à beira do lago]


(mas

só para aqueles que têm paciência

sabem esperar 

conhecem um pouco dos humores das águas

& conseguem são poucos

aceitar alguns dissabores: calor

suor, mal odor, insetos, insolação)







,



o poema como uma narrativa:

um fio de ideia puxando outra ideia


,



da mesma maneira que um osso puxa outro osso

[em um lamaçal esquecido por deus]


(mas

só para aqueles que tem coragem

pouco importam em sujar os pés

& conseguem são poucos  

aceitar alguns dissabores: lama

limo, mal cheiro, lodo)







,



estabelecer um início


(fiat lux...


ou

muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento...


ou

ao despertar de um sonho intranquilo, certa manhã...


ou

no meio do caminho tinha uma pedra...


ou 

nel mezzo del cammin di nostra vita...)


eis aí um subterfúgio

para o poema se estender além da segunda página







,



o início estabelecido:

matéria bruta que vai sendo moldada

para o poema se estender além do haicai

(& seguir sendo moldado)


o início estabelecido:

matéria bruta que vai sendo moldada

para o poema se estender além do soneto

& começar a se engraçar com as elegias

com os cantos, com as odes

(& seguir sendo moldado)


o início estabelecido:

matéria bruta que vai sendo moldada

&, sem que se perceba

o poema

que é feito de nada

vai sendo moldado







,



& depois outros subterfúgios

(para manter o poema em seu fluxo):


rimas internas para prender o leitor;

citações de outros autores colagens

plágios, homenagens (para dar um ar

ou dar ares de intelectualidade);



& depois outros subterfúgios

(para manter o poema em seu fluxo):


ir colocando telha por telha

até construir um telhado

(aqui, plagiando o Oswaldo)







,



& depois outros subterfúgios

(para manter o poema em seu fluxo):


ir lutando com as palavras

a luta mais vã

/até romper a manhã/

(aqui, citando o Carlos)



& depois outros subterfúgios

(para manter o poema em seu fluxo):


ir catando feijão, soprando a palha e o oco

ir tecendo a manhã luz balão

(para cear as migalhas da mesa de João)







,



importante

(para o poema manter o seu fluxo)

deixar um fio solto em algum lugar 

para servir de isca para os incautos


importante

(para o poema manter o seu fluxo)

deixar um fio solto

(um fio desencapado)

para servir de armadilha para os desavisados



(& uma luz se acender

[pálida]

quando esse fio for conectado mais adiante

fiat lux

em alguma parte)







,



& outros subterfúgios que não se revelam

para manter uma aura de mistério

& obrigar o leitor a escavar em busca dos ossos

(em um lamaçal esquecido por deus)


não os ossos superficiais

que esses não passam de palavras

impressas

na página


obrigar o leitor esse ser raro

a ir atrás daqueles ossos que não estão à flor do chão

ir atrás daqueles ossos que se escondem no fundo

mais fundo


descobertos esses ossos

pouco mais que palavras impressas na página

alegrá-lo, ou convencê-lo (o leitor mais raro)

a ir atrás daqueles ossos que se escondem um horizonte

mais abaixo







,



& outros subterfúgios que não se revelam

para manter uma aura de mistério

& obrigar o leitor a buscar o peixe dos sonhos


aquele peixe que arrebenta a linha

& não sabemos dele nada além do brilho muito rápido

de seu dorso quando muito rápido

ele pranteia na flor d'água


a inquietação de faca 

(segundo o poeta)

que há nos peixes 







,



importante ter uma sugestão de tema

porém, não muito óbvio:

nada de fácil digestão


Importante ter uma sugestão de tema

porém, não muito óbvio:

nada de mastigado em demasia


(para manter o poema em seu f l u x o)

(para manter uma aura de mistério)







,



Importante:


brumas entre as palavras pode ser demais (com-

fuso & sem um mapa, o leitor se evapora);


brumas entre as estrofes talvez seja o ideal (perce-

be-se o caminho adiante, com certa segurança);


brumas sobre as páginas por certo é bruma demais


(ainda que se possa seguir

[como guia]

um fio solto

[de preferência, um fio desencapado])







,



& o vento forte, quando menos se espera, sopra

& tudo que se ocultava, de repente se mostra


tem-se um início: não há mais volta

 



setembro, 2021



Rafael Nolli é professor, formado em Letras e Geografia. Publicou: Memórias à Beira de um Estopim (poemas, JAR Editora, 2005), Elefante (poemas, Coletivo Anfisbena, 2013), Gertrude Sabe Tudo (infantojuvenil, Editora Gulliver, 2016), Ao Pé da Letra (infantojuvenil, independente, 2017) e Sr Bigodes era o seu Nome (infantojuvenil, LAB, 2021).

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