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Quando chegamos à clareira da mata, vimos que o angico fora atingido em cheio pelo raio mortífero. As cascas grossas haviam se soltado e o tronco se esfacelara, fazendo a majestosa árvore tombar. Minha avó ia cortando os galhos mais finos e secos. Eu os recolhia e amontoava. Ela escolheu os mais retos, aparou-lhes as pontas e os amarrou com embira, formando um feixe volumoso e uniforme. Depois tirou do bolso um molambo de chita, preparou a rodilha e a ajeitou na cabeça. Hábil e concentrada, ela fazia movimentos rápidos e precisos enquanto me explicava cada passo do trabalho.

— Me dá uma mão aqui, Ju. Pega lá na outra ponta. Cuidado que as farpas podem machucar seus dedos.

Ela assentou o feixe na rodilha, foi se equilibrando e se levantando devagarzinho. Eu acompanhava com o olhar preocupado, com medo daquela geringonça despencar no chão. Não despencou. Aprumou-se como se estivesse colado na cabeça.

Deviam ser quase cinco horas da tarde quando rasgaram os primeiros trovões. Os fachos de luz que penetravam por entre as folhagens e desenhavam um mosaico no chão foram se esvanecendo. Logo a clareira empreteceu.

— Escutou o trovão, Ju? Vem chuva grossa por aí. Eu sabia que ia chover. Tava armando desde ontem, mas a gente tinha que vir. Você viu que a lenha acabou todinha. Como é que faz? Tem que cozinhar. Mas fizemos o serviço rápido. Você ajudou muito. Vamos voltar pra casa.

— Vamos mesmo, vó, que eu tenho medo de pegar essa chuvona aqui dentro da mata. Ela não demora não. Olha como o céu tá preto!

Encetamos a jornada de volta. Dentro da mata escura, o silêncio só era quebrado pelo barulho das nossas pisadas e pelo canto compassado dos inhambus. As galinhas-do-mato eram bonitinhas e inofensivas, mas eu pressentia uma horda de bichos maus a nos espreitar por entre as grandes árvores. Eu não falava. Congelado de medo, apenas absorvia os sons, apreensivo. Caminhamos por uns quinze minutos até alcançar a boca da mata. Defronte, havia um platô descampado, onde os cavalos pastavam, e logo começava a encosta do morro.

Descemos a trilha íngreme entre a cerca de arame farpado e o desfiladeiro. Ela ia na frente, pisando firme e equilibrando o feixe na cabeça. Ela era forte, decidida, parecia não ter medo de nada. Eu tinha medo de tudo: da mata, das criaturas do mal, dos trovões, da chuva que se avizinhava, do mundo. Quando acabávamos de vencer o morro, senti os primeiros pingos fortes me golpeando a cara.

— Que sorte que a chuva demorou até a gente sair da mata e do morro, né, vó?

— Pra que esse medo todo, Ju? Essa chuva é boa pra nós, moço. Vai molhar a horta. Logo vamos ter amendoim, milho e mandioca. Esse ano vai ser bom de chuva. Ano passado foi ruim. Eu queria plantar mais, mas seu avô não me ajuda. Uma andorinha só não faz verão — murmurou após um longo suspiro.

A chuva caía compacta e nervosa. Os trovões rugiam parecendo que o céu estava vociferando com a terra. Raios faiscavam ao longe. Muita água enlameando o chão. Imaginei que o feixe de lenha deveria estar ainda mais pesado. Minha avó não lastimava a situação. Continuava tagarelando e enaltecendo os benefícios da chuva. Eu caminhava vergado, apertando os braços contra o corpo e rezando pra chuva acabar logo.

Marchamos por um bom tempo, em ritmo de procissão, até encontrarmos o primeiro abrigo: o galinheiro, que ficava a uns 50 metros da casa. Entramos. As galinhas estavam imóveis, encolhidas, espremidas umas contra as outras no poleiro. A chuva batia forte nas telhas de barro. O vento açoitava a antiga construção de madeira, que parecia frágil ante a fúria da tempestade. Fiquei com medo de tudo desabar sobre nós. Morreríamos todos: as galinhas multicoloridas, minha avó e eu. Todos, menos o galo vermelho: ele era forte e destemido, certamente iria se safar. Os fortes sempre se safam. E ficamos lá, esperando o juízo final. Eis que, após uns 40 minutos, o temporal arrefeceu. O galinheiro resistira. Ninguém morreu.

— Ficou com medo da chuva, rapazinho? disse ela, sorrindo e mexendo nos meus cabelos colados na cabeça — essa foi forte mesmo. Ô Ju, vamos deixar essa lenha aqui, viu? Tá tudo molhado. Amanhã deve abrir um sol bonito, e aí colocamos pra secar.

— Precisa consertar esse galinheiro, vó. Uma hora dessas esse trem desaba e deixa as galinhas da senhora sem casa.

— Ô moço, eu só lembro disso na época das águas. Eu quero consertar. Precisa trocar o esteio, os caibros e as ripas. É madeira boa, mas já tá velha. Cê viu que tem telha quebrada também? Pra semana, eu vou mandar chamar Bastião pra ver isso. O problema é que sou sozinha. Se seu avô me ajudasse seria bom, mas, deixa pra lá — comentou, com resignação.

Andamos poucos metros sob a chuvinha fina e entramos na casa pela cozinha. Meu avô estava sentado num cepo de madeira, perto do fogão, pensativo, fumando um cigarro de palha. Ao nos ver chegar, foi falando:

— Que chuva, hein? O lajedo transbordou. Veio trazendo um mundaréu de garranchos lá das cabeceiras. Amanhã cê vai lá ver, Ju. Foi muita água, moço!

Eram sete horas da noite. Minha avó tirou do baú uma toalha branca com cheiro de naftalina e me entregou.

— Enxuga bem a cabeça, Ju, pra não gripar. Vou preparar um banho quente pra você.

O banho de bacia foi delicioso. Água morninha, quase quente. Sabonete novo. Depois, outra toalha limpinha, com o mesmo cheiro de naftalina. Minha avó deixara uma muda de roupa passada em cima da cama. Vesti-a. Calcei um tênis Conga. Estava penteando o cabelo quando a ouvi chamar:

— Ô Ju, vem jantar! Fiz aquela sopa de mandioca que você gosta. Vem ligeiro, pra não esfriar. Sopa só presta quente!

Sentamos, eu e meu avô, para jantar. Eu gostava de me sentar num banco de madeira pintado de vermelho. Meu avô se sentava sempre à cabeceira. Minha avó nunca se sentava para comer com a gente. Ela acabava de cozinhar, punha a mesa e continuava mexendo nas coisas da cozinha: limpando a trempe do fogão, lavando as vasilhas, guardando as lenhas. De vez em quando, corria os olhos pra ver se o meu prato estava esvaziando. E já vinha com a concha cheia.

— Quer mais, meu filho? Você precisa comer bem. Hoje o dia foi cheio. E esta mandioca mansa é uma beleza. Bem molinha, com esse temperinho verde. Foi você quem plantou esse coentro, lembra?

Fiz que sim com a cabeça. Eu Já estava saciado, suando com o calor da sopa, mas aceitei mais umas duas ou três conchadas, só pra agradá-la. Leão, o gato rajado, se esfregava manhosamente nas minhas pernas, miando e querendo comida. Minha avó ralhou com o bicho:

— Chip, gato! Ele é ousado e pidão. Espanta ele, Ju.

— Deixa o bichinho, vó. Ele deve estar com fome mesmo.

Molhei um miolo de pão na sopa e joguei no chão. O bichano comeu e continuou miando, pedindo mais. Minha avó o enxotou porta afora com a vassoura. Meu avô desaprovou o ato, balançando a cabeça, mas nada falou.

Terminada a janta, meu avô entrou a desfiar suas estórias. Nesse dia, contou uma de assombração, do tempo da sua meninice. Seu Zequinha Mendes era um velhinho miúdo, manso e sabido. Gostava da natureza e dos bichos. Não gostava da lida na roça, por isso minha avó reclamava. Ele tinha uma resposta pronta pra qualquer questão: "Será que chove amanhã, vovô?", "O ônibus pra cidade atrasou, será que ainda passa hoje?". Ele respondia calmamente "Vamos assuntar". Os dias do sábio seu Zequinha passavam sem pressa.

— Deixa o Ju dormir aqui esta noite — disse minha avó ao meu pai quando ele foi me buscar — Ele jantou bem e estava aqui dormindo no banco. Falei pra ele ir deitar lá na sua cama. Já está ferrado no sono. Coitadinho. Labutou comigo o dia todo.

As histórias de assombração e os seres da mata não me perturbaram o sono. O cansaço os venceu. Dormi um sono franco e profundo. Acordei de madrugada com o canto longo e melodioso do galo vermelho. Outro galo respondeu mais longe. Abri os olhos e ainda estava escuro. Sorri e voltei a dormir. Levantei da cama quando os fios de luz furavam as frestas da janela. Abri pra ver lá fora. O dia estava limpo, alegre e cheiroso, e, como tinha previsto minha avó, mais ensolarado do que nunca.

Pulei da cama e fui pra cozinha. Meu avô já tinha saído pra rua. Tomei café quente com biscoito frito e fiquei conversando com minha avó em volta do fogão. Ela me falava dos seus inúmeros afazeres para aquele dia. Revelava-me, também, seus vários projetos. Plantar rosas-graxas no quintal. Criar mais galinhas, patos, gansos, marrecos. Teria que ir à cidade comprar uns "cocás". Com essa chuvarada, precisaria de umas galochas. Eu era o seu confidente, seu assistente imediato. Ouvia e opinava de forma obediente. 

— Seu pai esteve aqui ontem pra te levar, mas não deixei te acordar. Cê tava dormindo tão gostoso. Agora é melhor você ir pra sua casa, Ju. Sua mãe já deve estar de cara virada. Ah, esqueci de te contar, moço: deu uma caixa de marimbondo-caboclo lá no beiral do chiqueiro. Enorme. Vamos ter que dar um jeito nela, Ju. Depois, a gente vê isso, viu? Agora vai. Já passa das nove.

Desci a ladeira descascada até a minha casa. Cruzei a cerquinha de ripas pintadas de piche fresco. O cheiro ainda estava forte. Era um sábado. Tudo calado. Diamante veio ao meu encontro, farejando minha roupa e me lambendo as mãos. Começou a ganir querendo graça. Levei o dedo à boca pedindo silêncio e entrei, sorrateiro, pela porta do fundo. Olhei pela janela da cozinha e vi minha mãe estendendo umas roupas no varal. "Ainda bem que ela não me viu chegar. Mas da bronca eu não escapo". Escapei. Estava pelejando com uma tarefa de matemática quando ela me abraçou por trás e me deu um longo beijo na cabeça". Dormiu bem, Ju? Fiquei preocupada com você na hora da chuva".

Acho que minha mãe, enfim, se resignara com essa "ição" para a casa da minha avó. Na certa ela se cansara de sempre reclamar da mesma coisa. Um dia, escutei ela falando, brava, pro meu pai: "Esse menino não fica aqui em casa. Vive enfurnado na casa da sua mãe. É de dia. É de noite. Você tem que chamar a atenção dele, Aristeu. A casa dele é aqui", admoestou severamente. Meu pai ria-se por dentro, satisfeito, e tentava contemporizar: "Deixa o menino, Janete. Ele gosta de roça. Melhor do que ir pra rua vagabundar". Ele estimava esse meu apego com a mãe dele. Estava marcando seu território.

Quando meus pais se separaram, tivemos que nos mudar da vila pra cidade. Eu continuava a voltar à casa dos meus avós. Nos fins de semana e nas férias escolares. Depois, fui estudar em São Paulo e só ia duas vezes por ano. Nessas idas, quando ainda era estudante e solteiro, chegava a passar dois ou três dias na vila. Participava das rotinas da casa. Dormia no quarto em que eu, menino, sonhava com as assombrações das histórias do meu avô. Dona Ercília ficava toda satisfeita.

A vida de casado e as obrigações da profissão impuseram-me restrições às viagens pra Minas: apenas uma vez por ano. As visitas à minha avó passaram a ser mais curtas. Só de um dia. Sem pernoite. Minha avó se ressentia desse doloroso distanciamento.

— Estamos perdendo o Ju cada vez mais, minha filha. Ele agora nem dorme mais aqui em casa. Fico tão pesarosa com isso — comentou ela com tia Sônia.

Nessas visitas rápidas, eu passava a tarde conversando com ela, sentado no vetusto banco vermelho. Meu avô se demorava um pouquinho e escapulia pra rua. Ela coava café e fritava biscoito de polvilho. Em acessos de ternura, tomava a minha mão entre as suas e a acariciava longamente. Como se eu ainda fosse uma criança. A sua eterna criança. Quando me levantava pra ir embora, ela dizia com a voz sumida:

— Ô meu filho, cê já vai? Ficou tão pouco desta vez, Ju.

— Tenho que ir, vó. É o jeito. Ano que vem eu volto.

— Só ano que vem, não é, Ju? Ô meu filho, por que você foi morar tão longe de mim? Engoli em seco e não consegui lhe responder.

Despedir-me da minha avó era um luto, uma tristeza abissal. Tinha que ser forte para não desaguar em lágrimas na frente dela. Eu cruzava a cancelinha e avançava alguns passos sem olhar pra trás. Antes de sumir na rua de terra, eu me permitia virar o rosto pra vê-la, de longe, os cabelos brancos, a face consternada, encostada na cerca de achas, acenando-me em um último desejo de sorte. Eu ia me arrastando, em frangalhos, engolindo as lágrimas salgadas e ruminando aquela amargura. Por anos a fio, isso não mudava. Sempre esse lanho na carne: doído, cruel.

São Paulo, terça-feira, final de janeiro. Eu atendia ao último paciente da tarde quando ouvi o ribombar frouxo dos trovões. Vinham da Cantareira, anunciando mais um aguaceiro feroz. O paciente saiu. A secretária se despedia. "Apague as luzes quando sair, Lorena". "Quer curtir o escuro, doutor Julimar? Tá bom. Até amanhã. Bom descanso, doutor!". Fiquei sozinho, absorto, mirando os caminhos tortuosos que os pingos traçavam na vidraça. A luz do celular se acendeu, indicando uma chamada. Era minha mãe.

— Ô Ju, vou te dar uma notícia ruim, meu filho. Sua avó se foi hoje. Dona Ercília já vinha bem fraquinha por causa da doença, mas não sofreu. Sua tia Sônia me disse que ontem ela tomou o remédio e dormiu cedo. Hoje de manhã, a moça que mora com ela estranhou ela dormir até aquela hora. Quando foi ao quarto, ela não estava mais respirando. É a vida, não é meu filho? Você vai vir para o enterro?

Não fui. Assim como não fora ao enterro do meu avô e do meu pai. A verdade é que nunca pusera os pés no cemitério da vila. Sempre fugi dos mortos. Tinha medo de que, se os visse, atrairia pra mim a mesma morte que eu insistia em negar. Mantive o expediente. Fugi. Escondi-me atrás da distância e do trabalho. Misturei aquela dor espessa aos outros aborrecimentos diários, como se a quisesse diluir aos poucos. Ela diluía, mas não sumia. Fiquei chorando e sofrendo em pequenas parcelas a perder de vista. Volta e meia ainda mastigava uns pedacinhos daquela tristeza.

Passei cinco anos sem aparecer na vila. Viajava pra Minas todo ano, mas não queria ir à casa da minha avó. "Não vai mesmo não, Ju. A vila está muito triste, abandonada. Ir lá só pra sofrer? Você não tem ninguém mais lá" reforçava minha mãe. Quando se completaram seis anos da morte da minha avó, decidi que iria. Minha mãe não quis opinar. Tacitamente, concordara. Isabela se esquivou (ainda bem): "Eu não posso ir com você, amor. Já marquei salão hoje à tarde. Olha o estado das minhas unhas". Meu filho mais novo insistia em ir comigo. "Dessa vez, não, Gui. Eu preciso ir sozinho". Fui. 

A vila estava diferente. Gostei de ver que as ruas estavam calçadas com pé-de-moleque. Eu ia guiando o carro devagar, especulando as novidades. Essa ponte não existia. Pintaram a estação. As pessoas me olhavam como se eu estivesse pilotando uma nave espacial. Homens saíam de dentro das vendas e cochichavam entre si: "Quem será esse sujeito? Acho que é gente de fora. Sim, é placa de São Paulo. Que carrão, hein?". Entrei na rua estreita que morria na entrada da gleba. A porteira estava trancada com cadeado.

Fiquei um tempo parado, esperando não sei o quê. "Que burrice, Julimar. Devia ter avisado pra tia Sônia que viria". Comecei a dar ré no carro quando vi, pelo retrovisor, uma mulher gorda acenando com a mão e falando alguma coisa que eu não entendia. Parei o carro e abaixei os vidros.

— Não tem ninguém aí não. Casa tá fechada há muitos anos. Tem um velho morando num barraco lá na grota, mas ele adoeceu e foi pra cidade se tratar. Eu tô te conhecendo. Ocê é parente da dona Ercília e seu Zequinha?

— Sou neto deles. Julimar, meu nome. Eu sou daqui, mas moro em São Paulo.

— Uai, Ju! É ocê. Tá lembrando de mim não? Emerenciana. Mulher de Chico Zoiudo. Moro nessa casinha rosa aqui. Eu trabalhei na casa da sua vó, já esqueceu? Cê tá diferente, menino. Tira "o óculos" pra "mim" ver.

— Nossa! Virou um "homão" bonito, hein? Nem parece aquele menininho vergonhoso que conheci. Ô Zita, ó quem tá aqui: o Julimar do Aristeu.

Depois que Emerenciana falou, me lembrei claramente. Ela havia morado um tempo na casa da minha avó, trabalhando como empregada. Minha avó a chamava de Meré. Era uma preta lustrosa. Gostava de me fazer uns agrados. Uma vez, ela estava lavando vasilhas no lajedo e levantou a saia pra me mostrar o que tinha por baixo. Fiquei mudo de vergonha e saí correndo. Ela ficou lá, com um risinho maroto. Minha avó falava que Meré era boa, mas muito "entrona", por isso trabalhara pra ela somente por alguns meses. Por sorte, tia Sônia deixara uma cópia da chave com Emerenciana e assim consegui entrar.

Havia duas casas no sítio: aquela em que nós morávamos, que ficava na parte mais baixa, e a casa da minha avó, que ficava num morrinho mais retirado. O carro só chegava até a casa de baixo. Estacionei o carro na sombra das amendoeiras que ajudara a plantar. Estavam gigantescas. O portãozinho de ferro que dava acesso à casa de baixo estava trancado. Não quis pular o muro. Fechei o carro e subi a pé para a casa da minha avó.

O cenário era desolador. A casa havia desmoronado. Tinha uma árvore crescida no quarto onde eu dormia. Subi os degraus da escadinha de pedra que dava pra sala. O piso era um amontoado de adobes, telhas quebradas e pedaços de madeira podre. Fui andando por cada um dos cômodos: a sala, os três quartos, o corredor, a despensa e a cozinha. Saí pela varandinha do fundo e parei no meio do quintal. Fiquei olhando em volta, com os olhos marejados. O mato invadira tudo. Permaneci ali estático, silente, trespassado, como se estivesse em outra dimensão.

De repente, escutei um som de cascos. Contornando o morro, foi apontando um menino montado num cavalo pampa. Ele vinha ressabiado, tocando o cavalo lentamente, e estacou na minha frente. Aparentava uns 10 anos. Bem lourinho, os cabelos lisos, quase brancos e partidos ao meio. Tinha os olhos vivos. Os dentes falhados. Os braços finos. Usava uma camiseta vermelha, com a gola branca. Vestia uma bermuda marrom curta. A mão esquerda segurava as rédeas e a direita, um chicotinho de couro trançado. "De onde saiu esse menino? Emerenciana me disse que não morava ninguém aqui. Será que a danada agora deu pra mentir?". Puxei conversa.

— Opa! Tudo bem? Cê mora aqui no sítio?

— Não. Moro não.

— Cê mora onde?

— Não tem esse morrão aqui atrás? O senhor sobe ele todinho. Lá em cima, tem um plano. Depois vai descambando até chegar no lajedo. O senhor atravessa o lajedo, com cuidado, que é perigoso escorregar, passa beirando umas moitas de bambu, vai curvando e sobe um morrinho careca. Vai reto. Lá na frente, tem um mata-burro. Passando ele, o senhor já vai ver uma estrada larga cheia de eucaliptos. Vai nela toda vida. Umas duas léguas. Tem uma pedrona do lado esquerdo, o senhor baixa na estradinha e chega. Eu moro numa casa amarela, perto de umas mangueiras.

— Nossa. É longe, hein? E você anda essa distância toda sozinho? Não tem medo não?

— Medo de quê? Eu ando pra todo canto. Tô acostumado. O senhor vai comprar essa terra aqui?

— Não. Esta terra é da minha avó.

— A velha Ercília? O povo daqui da redondeza fala muito dela. Já morreu, né?

— Já. Minha avó faleceu tem seis anos. Minha tia cuidava disso aqui, mas ela se mudou pra cidade e ficou tudo abandonado. Tia Sônia estava cansada de roça. Dava muito trabalho e despesa pra ela.

—Eu conheço dona Sônia. Gente boa. Ela já deu aula pra mim. Na escola ela era brava, mas aqui fora era de boa. Meu pai já vendeu uns porcos pra ela. Mulher direita. Pagou direitinho e nem reclamou dos preços.

— É, tia Sônia é gente fina. Me fala uma coisa, você que é muito atinado: eu ouvi dizer que tem um velho morando lá na grota. Cê conhece ele?

— É o velho Jeremias. Eu não gosto daquele velho não. É esquisito. Eu tenho é medo dele, por isso quase não ando pro lado da grota. O povo aí da rua fala que ele mexe com macumba.

— Será? Esse povo da vila conversa demais. Às vezes, o pobre só quer ficar sossegado no canto dele.

— Pois sim! Eu é que não confio naquele velho macumbeiro. Até comentei com meu pai que dona Sônia é doida de deixar um sujeito daquele tomando conta da terra dela.  Agora, ele nem toma conta mais. Dizem que adoeceu de tanto fumar aquele cachimbo fedorento dele. Tomara que nem volte pra cá e dona Sônia arranje outro. Aí, eu vou passear mais praquelas bandas da grota. Lá tem uma água boa e um bananal bonito.

— É. Emerenciana me disse que ele está mesmo muito doente. Bonito esse seu cavalo. É seu mesmo ou é do seu pai? 

— É meu.

— E como é o nome dele?

— Pégaso. Eu não sei o que quer dizer esse nome. Eu vi um livro que tinha uma figura de um cavalo com asas que tinha esse nome. Achei bonito e coloquei. E ele é bom de corrida. Tem hora que eu corro tanto nele que ele parece ter asa mesmo.

— Cuidado pra não cair. Cavalo é perigoso. Quando eu era menino, eu tinha um cavalo parecido com o seu. Um dia, levei um tombo feio e nunca mais montei a cavalo.

— Cai nada. É só ter cuidado. Arriar direito. Apertar bem a barrigueira. Segurar firme nas rédeas e, o mais importante, sempre apoiar o corpo no estribo. A segurança do cavaleiro tá no estribo.

 — Você entende tudo de montaria hein, rapaz?

— É. Foi meu pai que me ensinou essas coisas.

— Que bacana. Você é muito esperto. Como é mesmo seu nome?

— Julimar. Mas todo mundo aqui só me chama de Ju.

— Sério? Somos xarás então. De nome e de apelido. Eu sou Julimar e Ju também.

Ele franziu a testa e ficou me olhando meio espantado, sem falar nada. Olhei o relógio: quase 6 horas da tarde. Falei pro menino que tinha que voltar pra cidade. Ele balançou a cabeça, assentindo. Depois, virou as rédeas e chicoteou o cavalo em direção à casa velha. O cavalo refugou ao chegar perto dos escombros. Ele insistiu, chicoteando com mais força e batendo o calcanhar na virilha do animal. "Sobe, Pégaso! Sobe!". O cavalo deu um passo pra trás e saltou pra cima da casa caída.

— Aí, Pégaso. Bom menino! Você é meu cavalo mágico. Viu como ele me obedece? — gritou lá de cima, orgulhoso.

— Desce daí, moço. Tem muito entulho, lixo, prego enferrujado. Perigoso machucar seu cavalo e até você mesmo. Desce!

— Tem perigo não. Pégaso é ferrado.

Não satisfeito em ter subido, o menino empinou o cavalo e ficou olhando ao longe.

— Cê tá doido, Julimar? Empinar cavalo aí em cima! Olha que você cai e se machuca todo.

— Caio não. Eu sei empinar. É tão lindo daqui que só se vendo. Dá pra enxergar o rio lá longe. A ponte, a estrada. Tô vendo até as vacas de Seu Juca Medrado lá na baixa.

Daí a pouco, o menino chicoteou de novo o cavalo, fazendo-o pular para a frente das ruínas. "Moleque genioso, esse Julimar. Não obedece à gente".

Dei a volta. Despedi-me do menino e fui descendo a ladeira até chegar ao carro. O menino ficou lá em cima, me observando. "Ele é teimoso, mas é ladino, corajoso. Andar pra todo lado montado num cavalo. Eu, na idade dele, não largava da barra da saia da minha avó". Manobrei o carro e peguei a estrada em direção à porteira. Quando procurei o menino pra dar o último adeus, ele tinha sumido. "Uai, cadê o menino? Evaporou? Não ouvi barulho de cavalo correndo. Será que saiu voando no seu cavalo encantado? Só pode. Estranho".

No retorno pra cidade, eu me via estranhamente leve, faceiro. Preenchia-me uma sensação de alívio, uma espécie de prazer. Engraçado como desaparecera aquele nó na garganta que sempre me angustiava ao sair dali. Porém um pensamento me intrigava: algo me soprava que eu conhecia aquele menino de algum lugar, mas não me recordava de onde. "Deixa pra lá. Deve ser cisma da minha cabeça". Acelerei o carro e toquei pra cidade, cantarolando uma antiquada canção da infância.



[Goiânia, fevereiro de 2021]

 

                  

 

 

 

 

 

 

 

 


Luciano de Castro é mineiro de Teófilo Otoni, cruzeirense, dentista e professor da Universidade Federal de Goiás. Mora em Goiânia. Paralelamente à docência, dedica-se à música e literatura, atuando como compositor, cronista, contista e poeta. O autor se considera um apaixonado pelas várias formas de arte, pela história do Brasil, pelas plantas e passarinhos. Atualmente, colabora com algumas revistas e jornais brasileiros e prepara material para o seu primeiro livro.