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ENGRENAGEM

 

 

poesia

não se entorna

se transforma

 

não se copia

cria-se

 

tem dedos

nos pés

pra caminhar

na linha

sem desequilibrar

 

poesia é máquina

e pulsação

 

 

 

 

 

 

candeas_p1.jpg

 

 

 

 

 

 

FARELO

 

 

poema

tem que ser

sequinho

 

MAGRO

 

se possível

nordestino:

desnutrido

e valente

 

deve ser

raquítico

definido:

 

coureosso

 

 

 

 

 

 

XILOGRAVURA

 

 

artesão

ata a palha

 

menino atrapalha

construção dos balaios

 

espantalho

espanta

com alho

vampiros do milharal

 

crianças atentas

aprendem com pai-véio

folclore das matas

 

mugido

que vem

do rancho

oculta cantar rouco do galo

 

cata-vento

corta vento

mirradas fatias

 

 

 

 

 

 

ESQUIZOFRENIFORME

 

 

amigos

nunca existiram

 

obra na privada

onde mais?

 

delírio, doença

alucinações

 

nenhum Jabuti

ou Nobel

pagará

essa dívida

com todos.

 

epilepsia

eletrochoque

são prendas poucas

pro poeta sem-deus.

 

 

 

 

 

 

INDIGESTUAL

 

 

MEDO: temidas são verdades que perturbam.

ESCURIDÃO: luz se revolta pra dentro.

VIGÍLIA: sono é velado por anjo devasso.

NÔMADE: em cada povoado, semente de sua perversão.

VATICANO: batinas estendidas na torre da luxúria.

PACTO: agora em 12x no cartão.

ESPELHO: face viciosa que outros contemplam.

ALTAR: grande trabalho está posto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OLÁ

MEU NOME

É POVO

 

 

sempre

disposto

começar

de novo

 

sangue

que nunca

escorre

 

sou meu

próprio porre

 

alma

que não

declina

 

sou minha

própria vagina

 

ASSALARIADA

 

rodando

bolsa

na estrada

 

DES-PRO-TE-GI-DA

 

sentada

no torno

da vida

 

preenchida

por tipos

e protótipos

 

por nórdicos

por nordestinos

 

por cretenses

e por cretinos

 

 

 

 

 

 

MORRER PARA CRER

 

 

alguém morreu

agora

parte mulher

parte José

 

morte covarde

militarizada

morte banalidade

desdentada

 

alguém morreu

agora

parte Mandela

parte vela

 

morte partidária

viralizada

morte diária

estancada

 

alguém morreu

agora

parte furor

parte flor

 

morte chacina

orquestrada

morte bailarina

discriminada

 

alguém morreu

agora

parte patrão

parte peão

 

morte comercial

tramitada

morte territorial

despautada

 

 

 

 

 

 

COM A JANELA ABERTA

 

 

a vida é mais bonita

no meio da pista

 

meus grandes planos

estão queimando

 

meus bons amigos

foragidos

 

a vida é mais completa

com janela aberta

 

meus voos insanos

estão pousando

 

meus bons ruídos

constrangidos

 

 

setembro, 2019

 

 

Bruno Candéas. Poeta e compositor pernambucano, autor dos livros: Poeta nu na alcova (2002), Filé 1,99 (com Malungo, 2003), A Trégua dos ditadores (2004), Férias do gueto (2004), Indigestual (2006), Teatrauma (2018), Poema desgovernado (com Sanjo Muchanga, 2018) e Cangaçocity (2019). Integrou dezenas de antologias no Brasil e no exterior; colaborou com centenas de fanzines, informativos e folhinhas em inúmeros países. Prêmio Destaque Nordeste (Gravatá/PE, 2019), poeta homenageado do 31° salão nacional de poesia "Psiu poético" (Montes Claros/MG, 2018); poeta homenageado da 67ª edição do "Sarau da Boa vista" (Recife/PE, 2019). Tem poemas traduzidos para o inglês, francês, espanhol e alemão. Parcerias musicais com Isaac Sete Cordas, Ricardo Silva, Rama On, Carlos JCarlos e Banda Maktub. Sua obra foi usada como referência para estudos acadêmicos pela professora Ana Paula Generoso, de Belo Horizonte, o que deu origem ao 1º Prêmio Literário Poeta Bruno Candéas, em 2018.

 

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