©irving penn
 

 

 

 
 

 

 

 

ENTRAVES

 

 

no afã de desligar o liquidificador

deslocou o tendão de aquiles

depois de ter lesionado a coluna

ao acionar o interruptor da lâmpada

tendo dilacerado a hérnia inguinal

ao colidir com a máquina de lavar

foi só estancar a hemorragia fluida

e distensionar o músculo deltoide

para desarrolhar o gargalo oblongo

espirrando o espesso licor no olho

até conter a lágrima no pó compacto

mais uma quina a estraçalhar seu pé

um talho rasgado em plena epiderme

não é qualquer falha de caráter que torna

arrastado o existir por entre trastes

é o completo sequestro da sanidade

que arruína para sempre toda a chance

de se desentulhar os últimos entraves

 

 

 

 

 

 

RISCOS

 

 

quando o risco do tempo corria solto

riscavam-se os potes e as suas tampas

e os traçados dos dias compridos pelo

corpo da cunhatã na tempestade de pó

acumulavam-se camadas coloridas

de pintas e círculos nas secções do tronco

enquanto linhas eram cravadas com pontas

na pele que era lisa como de manhã

punha-se um relevo saliente em cima

da maciez lenta de se acariciar

a mansidão lúcida acompanhava

o ato do desenho que se enlaçava

a mente era quietude e valentia

a seta certeira transpassando o alvo

alterado o emaranhado do tempo

a pele não é mais pintada nem riscada

sua aspereza não se dá pelos sulcos

arranhados por poucos espinhos e ossos

cuias passam sem esses traços similares

a presa escapa da mira desatenta

o pensamento é apenas devaneio

de riscos sem sentido encompridando-se

 

 

 

 

 

 

PAQUIDERME

 

 

a pele do paquiderme

padece na secura do deserto

ranhuras prenhes de pó

sulcos desenhados como

quadrados na epiderme

enquanto pasce ressequidos

ramos sem se impacientar

em súbita e sibilante sequência

na sediciosa intempérie

uma tempestade de areia

delineia-se diante dele

sente o impulso de desertar

mas empaca apalermado

tomado de paralisia suicida

permanece parado e quieto

em pouco tempo se alquebra

enterrado no granito cristalino

sucumbe na grande estrutura

arquitetônica de seu corpo

uma catedral de carne rota

 

 

 

 

 

 

CARCOMA

 

 

macerando a rama ressecada

para ministrar o remédio

amargo que mitiga a moléstia

engole a mistura malsã

um golpe a mais na renda da

moleira assenta o traumatismo

essa garapa de sangue que

rompe a teia sã do destino

deslinda a saga da menina

na raiz de uma mangueira

todo radical é como uma rima

que irradia o tema da grandeza

cada gomo roído da moranga

rememora a sua redondeza

anterior à carcoma da carne

 

 

 

 

 

 

TRAMELA

 

 

deus dá o discernimento

e o desatino

o talento e o desânimo

desanda o touro

adianta o domador

deus abandona a matilha

deixa abater a mãe

a ninhada tomba à mercê

dá sem merecimento

minora os mansos

aumenta os dias dos maus

deus tira o mais amado

de quem amou melhor

aquele que maltrata permanece

tendo a quem atormentar

deus é a tramela que impede

o padecimento de ser atenuado

mas permanentemente se pede

sua intercessão e destrançamento

 

 

 

 

 

 

EMPÓRIO

 

 

no empório de sonhos enfeixados

estão os mascates e os compradores

barganhando itens enferrujados

produtos fajutos de contrabando

espólios de incontáveis pelejas

arrancados dos campos de batalha

e dos corpos dos inimigos derrotados

despojos de guerras sanguinolentas

agora emperrados nas gôndolas

desse grande depósito de bugigangas

ilusões empoeiradas à escolha

de todos os catadores de destroços

que emprestam seus esforços

para a recolha dos cacos de sonhos

que serão partilhados por loucos

e sãos até que se pereça o tempo

 

 

 

 

 

 

DESVARIO

 

 

fosse uma silvícola

uma indígena

aborígene serena

de seta certeira

inconteste alegria

sereia de água doce

uma iara fagueira

algas nas madeixas

cachos de vitórias-régias

uma rainha iemanjá

janaína tupinambá

sentinela da aurora

alvorecendo ao relento

irmanada ao vento

redemoinho de areia

sorrateira sílfide

valquíria guerreira

uma moira anciã

fiandeira de fados

cerzideira de afetos

campeã dos desvalidos

mãe para os mendigos

valeria a pena o desvario

 

 

 

 

 

 

POESIA

 

 

tem a poesia da fome

e a das três refeições por dia

a que tem assento garantido

e aquela que fica na galeria

tem machismo na poesia

racismo e cafajestagem

o poeta oligarca acha tudo uma bobagem

passa o dia encantado

com uma série de formas criadas

por algum como ele amaciado

quem vem de outros canaviais

não conhece macio nem saciedade

a poesia de mãos gretadas é dura

pontiaguda e excruciante

garganta que engole em seco

mas que ainda tem fôlego

um soco dado em troca

uma figa no dedo

dose cavalar de

letal veneno

 

 

 

 

 

 

REBELDES

 

 

quase todas as rebeldes foram mortas

massacradas

sacralizaram as santas

as sacerdotisas de outros credos submetidas

cremadas em piras acesas

martirizadas nas masmorras

raptadas amarradas e amordaçadas

imoladas de muitas maneiras

seviciadas e desmembradas

soterradas na pirâmide da história

histéricas não se renderam

não aceitaram a imposição

espernearam debateram-se ganiram gemeram

impossibilitaram a pacificação

sobre a pele ainda a marca dos arreios

dos relhos e cabrestos

esganiçada permanece a voz

depois de tantos gritos estrangulados

mas a pantera assenta-se sobre os meus ombros

prestes a dar o bote e lhe dilacerar a jugular

 

 

 

 

 

 

A BARCA

 

 

à sobranceira ribanceira arriba a barca reluzente

de Caronte em busca de carmáticos espíritos deambulantes

erguidos bruscamente das macas dos paramédicos

nas ambulâncias após a parada dos desfibriladores

com esparadrapos grudados nos orifícios traqueostomizados

encontram-se descamisados sem maletas nem trocados

para bancar a peregrinação derradeira e traumática

o barqueiro descarnado escaneia o espectro de todos

rastreando crimes e méritos de que estejam abarrotados

o que for arrolado acaba descontado como saldo ou débito

para esses desgraçados de aspecto e destino turbulento

porém nem sempre é equânime o montante aferido

há quem seja escarnecido e sua pretensão desmerecida

mesmo tendo sido mansos e cordatos como carneiros

inofensivos sobremaneira serão ignorados e preteridos

por outros menos dignos mas mais espertos e esfuziantes

conduzidos em primeiro lugar na nave à segura margem

enquanto seus pares são deixados para trás indefinidamente

a morte também é fortuna seletiva para a gente humana

não são todos recolhidos do sofrimento da persistência

muitos não poderão jamais atravessar rumo ao nirvana

 

 

 

 

 

 

DANÇA

 

 

tanta poeta suicida patinou nessa senda

como posso pensar em me manter de pé

semear com pedras o seio seco do arroio

a haste mirrada da espiga ressequida

árido piso de troncos ocos e retorcidos

muito ansiada gota que não mais sacia

resta ascender ao patíbulo como todas as

outras arrastando amarras e mordaças

atirar-me súbito do cadafalso para

oscilar no nada pendurada pelo pescoço

uma elipse desenhada com as pernas

última dança na letal encruzilhada

 

 

 

 

 

 

GLUTONA

 

 

o corpo grande campo de pouca monta

uma mulher será antes de tudo um corpo

e uma mulher gorda será um corpo grande

campeando como gado em pasto calmo

partes inchadas de seu corpo assomando

amontoando-se encharcadas de sangue

esperma chacoalhado sobre as carnes

como incomoda demais a mulher gorda

porque é grande como a ampla copa de árvore

miúdas devem ser todas as domadas

mulas amansadas mais éguas montadas

para o manejo dos campos e das camas

mas algumas são monstruosas enguias

a sela escorrega no limo do dorso

medusas gigantes engolindo a paz

a voraz garganta glutona pastando

no vórtice em espiral do mundo cão

 

                  

 

 

 

 

 

 

 

 


Divanize Carbonieri é doutora em Letras pela USP e professora de literaturas de língua inglesa na UFMT. É autora dos livros de poesia Entraves (2017), agraciado com o Prêmio Mato Grosso de Literatura, e Grande depósito de bugigangas (2018), selecionado pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2017, e da coletânea de contos Passagem estreita (no prelo), selecionada pelo Edital de Fomento à Cultura de Cuiabá/2018. No Prêmio Off Flip, foi segunda colocada na categoria conto na edição de 2019 e finalista na categoria poesia nas edições de 2018 e 2019. Também foi finalista no 3º Concurso da Editora Lamparina Luminosa, em 2016. É uma das editoras da revista literária digital Ruído Manifesto e integra o coletivo Maria Taquara, ligado ao Mulherio das Letras - MT.