~

 

 

não há fome

 

tufão
furacão
nem amor
nem tesão
nem ninguém
ou qualquer força maior
do que quando
o poema vem
escrever
em mim
o seu

 

tsunome

 

 

 

 

 

 

~

 

não é porque deus

com seu dedo branco e eterno

tocou no ombro e disse

"serás poeta, meu filho"

,

 

é porque o tempo pesado

falou cedo no ouvido

"escreve, filho-da-puta,

ou morrerás sem sentido"

 

 

 

 

 

 

OPANIJÉ

 

 

eu contrai poesia.

 

poesia começou com umas manchas

por trás da retina.

 

por trás da retina

o mundo em fosforescências

fez-se um camaleão.

 

um camaleão africano necrosou o mar

e em derrame fez-se leopardo

a rajar a débil tez do real

seu verniz e o transe.

 

o transe foi me causando mais poesia

quando o pus da luz fez-se sincronia

com a furta-cor anônima

que prenuncia a randômica

cor da alma.

 

da alma  

foi crescendo mais poesia

sobre poesia

até que manchas de poesia

fizeram-se sombras

e abscessos nos dias.

 

dias de vírus e puro-veneno,

sangue nos olhos,

gangrena, infecção,

generalizada hemorragia

e metástase de sacralização letal

desse ritmo que fez-se

poesia.

 

 

 

 

 

 

PAKU-PAKU

 

 

o santo come
o que é do homem

 

o homem come
o que foi deus

 

o céu come canja 

de verme

 

anjos na terra 
quem come é ateu

 

a morte come
todos os planos

 

a morte come os anos

 

come os meus
come os seus

 

come< come< come< come<

 

 

 

 

 

 

ENJOO

 

 

o poema que lê as palavras

no centro da minha língua

é anoréxico

 

a palavra que lê o poema

na ponta dos meus dentes

é bulímica

 

a alma que me racha ao meio

no fundo da minha gula

é disléxica

 

não há metáfora outra

 

: é mesmo não compreender o gosto

do vômito em que nutro

toda a minha boca

 

 

 

 

 

 

 

~

 

 

o homem esperando

o que jesus prometeu

jesus esperando

o que zeus prometeu

 zeus esperando

prometeu prometer

prometeu esperando

epimeteu esperar

pandora

 

espetar o frango

 

 

 

 

 

 

COM POSIÇÃO

 

 

                                   para Vanessa

 

 

arte poética de verdade

é despir sua mulher:

 

pressinta o conjunto da obra

e tateie-a todinha

com os olhos

 

por trás da orelha

é que a língua desperta

 

um fonema que, em sussurros,

lhe foge

pode

e há de inundá-la inteira

 

é chegada a hora primeira:

 

assopre com os dedos

(tua boca é o leito de tudo)

 

adormeça-a nos lábios

ainda que não peça

(o controle, mesmo fingido,

tem que ser do poeta)

 

assombro no pé do umbigo

alumbramento em ereção

encantação de púbis

pelos

 

pele pelando em cio de alfazemas ...

 

... ah, depois de despi-la

o corpo e a alma

vista-a todo o pano

e chame-a

 

poema

 

 

 

 

 

 

A NOTA. O CUBO. A NÁUSEA

  
há um ser na sala-de-estar
à espera de godot
à espera do trem
que nunca chegou em jaçanã
 
está na sala um há-de-ser
à espera de pedro pedreiro
que aspira-aspirando o esperanto
lhe dizer qualquer coisa em-si doida
dentro do vazio de estar
entre quatro paredes
roendo os próprios dentes
 
há de estar. pedra-de-roer.
há um gato. nota-fantasma.
na sala um ser-de-estar.
outro peixe. nada pra roer.
água-de-beber
 
só amanhã de manhã.

 

 

 

 

 

 

SIMULACRO

 

 

a cara da falsidade tem uma na frente

e duzentas por trás do óculos:

uma pra sorrir quando a desgraça não agrada

outra pra se emocionar com qualquer piada

 

outra ainda pra franzir a testa

e aparentar raiva pela atrocidade do mundo

que despreza.

 

a cara da falsidade tem bombril na raiz do crânio

e chapinha nos fios opacos,

falhos,

tingidos

e quebrado nas pontas

 

ela tem horror de perversão

e está sempre pronta a recriminar

no franzir da testa

a pouca-vergonha dos outros,

 

mas quando fecha a porta do quarto

dois pênis avantajados

— um como pepino, outro em forma de nabo —

rasgam toda a cova inabitada,

aquela que nem pagando alto os mendigos poriam a mão.

 

a  falsidade e sua cara, se tivesse cara,

seria outra, seria falsa como todas as outras

e não apeteceria o verme mais guloso,

 

em verdade o enganaria, com a mesma cara-de-bunda,

oferecendo a fraudulenta boca

(no lugar do cu, que é mais gostoso)

 

 

 

 

 

 

SAPIENS SAPIENS 
 
da unha do pé à ponta do cabelo
um animal mamador sem pelo
e canibal ávido por desejo
 
forjado no barro do erro
e n'água turva de constante 
descaminho
incompletude
remendo
desarranjo                            desalinho
arremedo
inconsciência
medo
medo
medo
medo
espanto    fé    engano

 
que não nasce: se mata
para aprender a sonhar
e ser
 
humano

 

 

 

 

 

 

SEU NOME

 

 

os amigos passaram, passou o amor,
a hora de morrer passou. a cadeira de balanço.
a palavra que não veio. a chuva lá fora. 
o vento e seu nome.

passou a hora do lamento, a hora da chegada,
o momento de partir.

os olhos se voltam contra si. há sombras por trás da retina.
há fantasmas corroendo os escombros.
há eco nos escombros. espectros desidratados. 
a cadeira de balanço assovia seu nome.
a palavra que não veio.

no piscar dos olhos
passou o tempo de chorar. o sorriso que passou.
seu cadáver maquiado no meio da praça. 
a palavra que não veio.

os pombos e a dança dos mortos. 
seu nome na boca dos pombos.

 

 

 

 

 

 

DEDICATÓRIA

 

 

aos rugosos paternalistas militarizados,

meu colhão empentelhado

 

aos etnocêntricos racistas engomados,

linguão no rabo

 

aos néscios reacionários politizados,

meu leitinho

 

aos caretas moralistas mauricinhos,

meu dedinho

 

aos corruptos corruptíveis corrompidos,

a baba do pinto

 

no cu da mãe dos homofóbicos enrustidos,

calibre vinte e um por cinco

 

aos hipócritas religiosos safados,

mijadinha na roupa

 

aos estadistas coronéis dinossáuricos,

cagada na boca

 

a todo patriarcal patriarca da ordem ou progresso,

meu caralho em berço esplêndido

 

com carinho

 

 

 

 

 

 

?

 

 

?para onde vão

os pés de amarildo

quando o olho da noite não o vê?

 

?cadê os lábios,

cadê o queixo de amarildo?

 

?o joanete, aquele bico

de papagaio, a pinta

que só ela reconheceria

na calada do dia

na boca

no fumo

no beco da madrugada?

 

?o que fazem

os dedos de amarildo?

 

?serão setas? ?buracos negros?

?desenharão sóis na areia?

 

?serão ossinhos

ou palitos de dentes

na fuça de um cão?

 

?onde deita a retina da mulher

quando encontra nos olhos dos filhos

só a ausência do marido?

 

?cadê deus que não a escuta?

 

?o que será do crânio,

o que terá no peito de amarildo?

?três balas? ?dois sonhos?

 

?um vão?

 

 

 

[imagens ©edwar weston] 

 

Willian Delarte . Autor dos livros Sentimento do Fim do Mundo (poesia, 2011) e Cravos da Noite (contos, 2014), ambos pela Editora Patuá (SP). Premiado no II e III Festival de Literatura da Faculdade de Letras (FFLCH) e finalista da 15ª edição do Projeto Nascente, todos da USP. Tem publicações em diversas mídias, revistas e antologias. Foi coeditor da revista Rebosteio Digital.