Dúvida
Queria poder dizer-te,
Agora que vives imóvel em teu leito,
Quão bonito está o dia aqui fora
E então levar-te a passear
Por entre as serras
Que nos cercam, verdes neste tempo
Estamos na primavera
E por mais sutil que seja
A primavera aqui nestes trópicos
Há flores no caminho
Que leva à cachoeira
Mas perdeste a melhor parte de tua vida
Numa casa grande
Aonde as cortinas pesadas
Nunca deixavam entrar o sol
Se te acostumaste à penumbra,
Talvez já não sintas falta do sol
Mas também pode ser que lamentes
Tê-lo perdido por tanto tempo
Assim vislumbro, também imóvel, teu penar
Daqui de minha horta ensolarada,
Na cruel dúvida de que ao tentar fazer-te o bem
Possa dar-te uma última apunhalada.