Rodrigo Leão -  O que você diria se considerassem "feminina" a sua literatura? Acredita no conceito de literatura feminina?

 

Ana Rüsche - Diria que tudo bem — um terço do Rasgada (livro de poesia lançado em 2005) é, realmente, de poemas que apontam para essa colocação. No entanto, a questão não é simples: há uma certa confusão entre "poesia feminina" e a "poesia escrita por mulheres", ou seja, muitas vezes se toma o enunciador do texto pelo próprio autor. Não necessariamente uma mulher escreve poesia feminina e nem sempre essa "poesia feminina" é escrita por mulheres, um autor poderia muito bem recriar esse enunciador. Apenas para exemplificar, na poesia de Micheliny Veruschnk, que estudei por conta do "Rompendo o Silêncio" (trabalho com a Casa das Rosas e o grupo SADI-USP), não há essa marcação do feminino acentuada, por mais que ela seja mulher: a preocupação de Micheliny recai em outros temas. Em contrapartida, há vários narradores do Alencar que narram como mulheres. Isso parece óbvio, mas mesmo assim gera alguma confusão, principalmente por antologias que reúnem escritores por conta de seu "gênero".

 

O que é considerado "poesia feminina" é um texto em que o enunciador (ou eu-lírico) coloca-se diante de uma questão por meio de um ponto de vista peculiar, o da mulher, que pode dar margem a uma observação de mundo diferente da um homem, já que as mudanças que as mulheres sofreram nos últimos tempos foram rápidas e muito instáveis — muitas das conquistas do feminismo apenas se reverteram em horas de trabalho extras e, às vezes, não em uma independência real — ainda existem os estereótipos da mulher galinha ou solteirona e como! Então, quando escrevo "/pega meu corpo de boneca inflável/", a marcação do enunciador feminino é inconfundível, inclusive para gerar um efeito de ironia. Mas apenas defender a posição "feminista" é bem mesquinho, essas questões têm que ser discutidas em um âmbito mais amplo — com bem escreve Marília Kubota sobre o Escritoras Suicidas, o site "faz parte de uma estratégia para fazer com que o estereótipo que se cola à literatura feminina, o da escrita confessional, passional e voltada ao umbigo se auto-extermine" — o que resume tudo com o devido bom humor.

 

 

RL - Por que estudar literatura africana?

 

AR - Primeiramente, acho uma vergonha não estudarmos na escola literatura africana em português, já que Saramago e Pessoa são obrigatórios em vestibulares — cito esses dois por serem mais recentes. A produção africana mostra-se com um vigor e qualidade surpreendentes e é muito triste que sejam mais lidos na Europa do que aqui. E o inverso não é verdade: há um intenso diálogo de africanos com obras brasileiras. Em um exemplo claro, Mia Couto organizou livro de contos com o seguinte título, Estórias Abensonhadas, cuja formação de palavra é referência direta à técnica de Guimarães Rosa, a qual é uma constante na obra do moçambicano, ou ainda mesmo o seu conto "Noventa e três", uma reflexão sobre a velhice e memória1, traz a intertextualidade com o conto de Clarice Lispector, "Feliz Aniversário"2. Por fim, Craveirinha, em quase todas as entrevistas, cita Jorge Amado.

 

Talvez seja hora de começarmos a responder melhor a essas conversas. Tenho uma perspectiva positiva sobre essa questão, já que há muitos estudiosos brasileiros que se debruçam com muito cuidado e carinho sobre essas trocas, apenas para citar alguns professores da USP, o pioneiro Benjamin Abdala, a Rita Chaves, a Vima Lia Martin... assim como escritores — lembro o Cláudio Daniel, que se corresponde com freqüência com o angolano Abreu Praxe, e publicou na Revista Etcetera (Travessa dos Editores) uma antologia de poetas muito interessantes. Esses foram alguns poucos exemplos de muitos outros trabalhos fundamentais, que se desenvolvem para ampliar as perspectivas poéticas em língua portuguesa.

 

Por fim, por ser uma literatura que propõe novos desafios lingüísticos e poéticos em face aos problemas sociais africanos, como aculturações repentinas, pobreza e modificações governamentais bruscas — algo assim não tão distante de nossos horizontes. Apesar de haver imensas diferenciações do desenvolvimento da África e do Brasil, não há como se ignorar semelhanças comuns aos países: a raiz escravocrata, as imposições culturais européias e norte-americanas... Estudar as formas com que os poetas encontraram para dizer muitas vezes o indizível, como o racismo, o abismo social, o colonialismo, auxilia-nos a ampliar a própria dimensão poética brasileira.

 

 

RL - O que fez você estudar Letras?

 

AR - Não sei, é difícil dizer... Meus pais não me deixavam assistir TV quando pequena e li muito, desde a 2ª série, a leitura sempre foi um mundo, minha companhia, talvez fazer Letras seja mais que natural — ainda mais depois de uma Faculdade de Direito. E parece que estou encarando bem o 5º ano, ainda me formo!

 

 

RL - Qual o lugar da poesia nos tempos em que estamos vivendo?

 

AR - Um lugar pequeno, mas muito vivo: há muita gente que lê e muita gente que escreve, apesar dos prognósticos serem sempre terríveis. Como a poesia não se configura como entretenimento, é natural que sua apreciação pelo grande público não exista — o que não significa dizer que a poesia irá desaparecer das estantes de livrarias, apesar de algumas mais comerciais já decretarem esse desaparecimento.

 

 

RL - Qual a importância da Internet para você e para a poesia em geral?

 

AR - Adoro computadores e adoro gente — o que me leva a ser uma franca apreciadora da internet, de conversas via comentários em blogues, e-mails. Não sei dizer quanta gente da literatura conheci esses últimos anos por meio da net e muitas dessas pessoas se tornam amigas, uma coisa muito boa — não preciso ressaltar que ficar só no ambiente virtual não vale nada, a presença física é imprescindível. Um exemplo maravilhoso é o Delmo Montenegro: trocamos muitos e-mails até eu ir para Recife a trabalho e o conhecer, uma criatura fantástica para se jogar conversa fora sobre tudo o que se imagina, um intercâmbio de livros, histórias, fofocas, o que ao vivo, com um copo de cerveja na mão, é muito mais fácil. Outros exemplos são os blogues que visito quase todos os dias, como o da Virna Teixeira, da Dani Oswald Ramos, do Thiago Ponce, da Elisa Buzzo e tantos outros — pessoas, no entanto, que conheço pessoalmente. Dessa maneira, a internet possibilita um contato mais intenso entre poetas, prosadores, críticos, embora não substitua de maneira alguma a conversa, a aula, a leitura impressa, o intercâmbio de livros pelo correio — a net é como uma grande incubadora que embora seja poderosa, precisa de forças extrínsecas e inter-relacionadas a ela para que essa potencialidade desabroche.

 

 

RL - Você tem alguma influência angustiada à maneira de Harold Bloom?

 

AR - Não, não, de maneira alguma! Acho que as coisas tristes desse mundo transformo em outra coisa, em raiva, em estudo, em outras ações, não sou uma criatura melancólica por excelência. Por isso adoro o Drummond de Rosa do Povo, alguns expressionistas alemães, agora estou ligada nesses sul-africanos que participaram da Revista Staffrider...

 

Mas vou aproveitar a pergunta para falar de alguns autores vivos brasileiros. Creio ser um dever de quem escreve hoje ler seus conterrâneos e assim leio com muito carinho diversos autores. Na maioria das vezes não influenciam diretamente meu trabalho, porém para se ter uma proposta poética, é preciso conhecer outras. Alguns exemplos em poesia aqui em São Paulo (justifico o bairrismo para cometer menos injustiças ao citar nomes): é imprescindível que se conheça a linha de escritura do Fabio Weintraub, Donizete Galvão, Frederico Barbosa e Claudio Daniel, os quais poderiam vir tranqüilamente acompanhados do Tarso de Melo, Rui Proença, Paulo Ferraz, Heitor Ferraz, Fabiano Calixto e Horácio Costa — são trabalhos bem consolidados e com proposta bem definida. Antes de se avaliar realmente se a poesia agrada ou não, deve-se ter menos preconceito, o que efetivamente impede um diálogo maior entre escritores hoje em dia. Esses nomes, por exemplo, oferecem um bom panorama do que se está a construir, mas são propostas bem diferentes (daí talvez nasça o uso de rótulos, "neobarrocos", "marginais") e, provavelmente por isso, causem tanto estranhamento em círculos diferentes: parece que é impossível reconhecer o trabalho de "quem não escreve como eu escrevo", o que é uma grande miopia. Outro exemplo de proposta diferenciada são os trabalhos do Ademir Assunção e do Marcelo Montenegro, os quais possuem um verso muito mais voltado à oralidade e com outras preocupações.

 

Na linha dos mais jovens, acredito que seja importante conhecer o trabalho da Virna Teixeira, Delmo Montenegro (que está bem presente por aqui), Fabio Aristimunho, Elisa Buzzo, Andrea Catropa, Annita Costa, Victor Del Franco, Eduardo Lacerda, Dani Ramos. De quem estou realmente fanática é pelo Dirceu Villa, o moço realmente escreve muito bem. E algo que me chama muito a atenção também são os clamores da Poesia Maloque(i)rista, do Pedro Tostes, Berimba de Jesus e Caco Pontes, gente que vende poema na rua, enfrenta o corpo-a-corpo e vive disso — assim como ações de poetas que escrevem afirmando a periferia, como o Sergio Vaz, Allan da Rosa, a Dinha, há uma promessa nisso. Veja quanta gente! Isso porque com certeza esqueci vários nomes importantes. E quantas propostas — será que não há um mesmo pano de fundo por trás de muitas delas? Tenho certeza que sim. É importante conhecer esses autores com calma, ter paciência e menos preconceito, mas me parece que há muito mais interesse em ser lido do que em ler outros, o que torna tudo mais chato e mais esquemático.

 

 

RL - O que é o Projeto Identidade?

 

AR - O Projeto Identidade é um grupo de escritores que se reúne porque acredita que podem mudar ao menos um pouco essa situação aí de cima — uma das idéias primordiais é conseguir aglutinar escritores com propostas literárias diferentes em lugares distintos do Brasil. São escritores novos, mas com muita vontade e com a mão sempre na massa. Um dos efeitos colaterais do Identidade é o Jornal O Casulo e também essa segunda edição da FLAP! — acontecimentos que se preocupam bastante com o processo de gerar literatura e não só com seus produtos. Por fim, somos extremamente abertos para bater papo, quem quiser — www.projetoidentidade.org — pessoalmente é sempre melhor, mas às vezes não é possível.

 

 

RL -  Como é colaborar para o jornal Casulo?

 

AR - Bem, sou suspeita, pois acho O Casulo tudo de bom: mistura uma série de poetas novos com trabalhos já maduros, possui distribuição ampla e gratuita, aceita sem preconceito vários poemas, enfim, difícil não falar muito bem. Sobre a colaboração em si: isso é lá com o Eduardo Lacerda e com a Andrea Catropa, os heróicos editores e fazem-tudo de O Casulo (sim, ir e voltar duas vezes seguidas Guarulhos-São Paulo, onde fica a gráfica, não é nada fácil, ainda mais em horário de pico). Na realidade, basta enviar poemas para ocasulo@projetoidentidade.org, que eles informam. Fechou-se agora uma edição, a ser distribuída na FLAP!, mas a próxima não tarda a chegar.

 

 

RL - Por que escreve?

 

AR - Não sei, não sei — às vezes acho que é porque quero me expressar, às vezes, porque é uma ótima forma de sobreviver ao dia-a-dia, às vezes, é porque adoro ler, difícil falar, não?

 

 

RL - Como avalia o seu primeiro livro, Rasgada?

 

AR - Foi muito bom lançar um livro, ainda mais tão bem acompanhada (lancei junto com o Medianeira, do Fabio Aristimunho). Parece que não se é escritor de verdade sem uma primeira edição e poder trocar seu livro com outros é uma delícia, recebi muita coisa boa em mãos e pelo correio por conta desse intercâmbio — esse processo me fez também amadurecer muito, ouvi muita crítica, às vezes as pessoas só falam com seu livro em mãos, é importante ouvir.

 

O Rasgada faz parte de um processo que engloba uns sete anos de composição, um final de adolescência, comecinho de vida adulta (publiquei com 26 anos) e como todos os livros nessa vida, há poemas bons e ruins. Alguns dos ruins realmente quis manter, até por biografia, e muitas vezes são ainda os que mais gosto, é engraçado isso, patinhos feios como exemplo o "simplesmente vermelha". Tentei conciliar a forma curta (os "pockets") com os mais longos — apesar de não transparecer, sou um pouco obcecada por forma, principalmente a mais próxima da oralidade, o que passei a estudar com mais sistematização agora. Essa conciliação parece facilitar a absorção do livro em públicos diferentes: muitos gostam dos curtos, outros adoram os longos. Por fim, uma coisa sobre todas as outras me deixou muito feliz: que o "Ataque", último poema do livro, com citações rasgadas de Jean Genet e Drummond, tenha se feito compreender — recebi um retorno bem legal disso. Resumindo: o Rasgada é um começo de muita coisa que há por vir.

 

 

RL - O que um poema deve ter para ser de sua autoria?

 

AR - Acho que um quezinho de incoformismo irônico, uma sacanagenzinha também vai bem — não sei, normalmente meus amigos já tiram um sarro: esse que tem cores estranhas e imagens bizarras conjugadas... A forma varia, estou trabalhando ultimamente com algumas recriações de poemas que gosto, mas sempre na mesma base simples de se entender: o verso oral, vocabulário pouco rebuscado, uso a ordem direta nas frases...

 

 

RL - Com quantas metáforas se escreve um poema?

 

AR - Depende do poeta, claro. O que prezo são metáforas que não exijam um grau alto de erudição do leitor para que se façam compreendidas, ou seja, as que possibilitam diversos graus de compreensão do poema e se põem de pé sem a muleta do verniz cultura. Gosto muito também de escritores que exploram a comparação, como as árvores decepadas são como mãos de enterrados vivos, que acho que é do Mario Quintana.

 

 

RL - Tem algum mote? Alguma epígrafe?

 

AR - Sou alucinada pelo "meu ódio é o melhor de mim", ainda mais porque tem a assinatura do Drummond embaixo ("A Flor e a Náusea"), o que faz as pessoas respeitarem a frase, hehehe. Mas o poema mais bonito que já li é sem dúvida é um do Giuseppe Ungaretti, com duas linhas: Mattina "MATTINA / M'illumino / d'immenso" — perfeito. Aliás, é um dos grandes desse mundo. Adotei como epígrafe do próximo livro o refrão do filme Bob Roberts, do Tim Robbins, "Times are a-changing Back", que também é genial, pois resume muita coisa, mas essas escolhas mudam.

 

 

RL - Qual o papel do poeta na sociedade?

 

AR - Hoje em dia, acho que é ficar menos em casa e dar mais a cara a bater — e isso pode ser feito de diversas formas, basta pensar um pouquinho.

 

 

RL - Por que é tão difícil publicar um livro de poesia sem pagar a a própria edição?

 

AR - Por motivos óbvios — poesia vende mal e imagina então de quem não tem nome consolidado? Mas há muita editora disposta a correr esse risco, ainda bem. E há muito poeta mais velho ajudando os mais novos também. Creio que guardar dinheiro e esperanças é fundamental nesses projetos de publicação.

 

 

RL -  Walter Benjamin considerava o cinema a arte mais completa. Qual é a grande arte?

 

AR - Walter Benjamin viveu em uma época em que se vislumbrava uma emancipação, em que ainda era possível sonhar em um cinema longe da indústria do entretenimento — hoje em dia ele negaria essa opinião. Para mim, a grande arte ainda é a literatura, mas isso é perguntar a macaco se gosta de banana — a linguagem que mais compreendo é a literária, às vezes, me custa decifrar a proposta de um quadro, de uma sinfonia, e infelizmente filmes bons chegam-nos com dificuldade ou como mero passa-tempo. Gostaria de falar bem dos casamentos literatura-cinema, como o Lavoura Arcaica, livro do Raduan Nassar, filmado pelo Luiz Fernando Carvalho, pois exigem um diálogo entre obras — ou mesmo do casamento literatura-história, literatura-geografia, estou pasmada como o À Espera dos Bárbaros, do J. M. Coetzee, é bom. Talvez esse chamamento por outros discursos é que seja o melhor.

 

 

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1 Ver o texto de Ecléa Bosi aqui.

2 O texto integral está disponível no Releituras.

 

 
 
 
 
 
agosto, 2006
 
 
 
 
 
 
 
 

Ana Rüsche (São Paulo-SP, 1980). Poeta, advogada. Foi presidente da Academia de Letras da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) no ano 2000, atualmente cursa Letras, na Faculdade de Letras da Universidade de São Paulo (USP), organiza a FLAP!, e participa do Projeto Identidade. É pesquisadora do Grupo SADI FFLCH-USP (Semiótica e Análise do Discurso), grupo responsável pela parceria com a Casa das Rosas no projeto "Rompendo o Silêncio sobre Poesia Contemporânea". Desenvolve trabalhos na área de Literaturas Africanas, como as traduções de poetas sul-africanos, que podem ser lidas na Revista Etcetera nº 8 (Ed. Travessa dos Escritores) ou no blogue Olokum. Em 2005, lançou o livro de poesia Rasgada, Edições Quinze & Trinta. Possui poemas publicados na Revista Phoenix (1998, 2000 e 2004); na Revista Metamorfose nº 2; em O Casulo — Jornal de Literatura Brasileira nºs 1 e 2; no Correio das Artes nº 21, no jornal Cabo-Verdiano O Liberal, na Revista Não-Funciona e em diversos sites. Foi traduzida para o catalão na Antologia panamericana — poetas nascidas após 1976, da SérieAlfa, por Joan Navarro. Escreve regularmente no blogue Peixe de Aquário e mantém o site AnaR. 

 

 

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Rodrigo de Souza Leão (Rio de Janeiro, 1965), jornalista. É autor do livro de poemas Há Flores na Pele, entre outros. Participou da antologia Na Virada do Século — Poesia de Invenção no Brasil (Landy, 2002). Co-editor da Zunái — Revista de Poesia & Debates. Edita os blogues Lowcura e Pesa-Nervos. Mais na Germina.