Luti II

com a boca no peito, ouço:
— desce, desce (me) nina!
e no ventre, ouço:
— sim, agora mais (em) baixo...
oh, servil que sou
(obe) desço.

 

 

 

 

 

 

Versões       

I

eu perdi minha vida
pela delicadeza
sim,
rimbaud
e eu
demasiado humanos


II

eu me perdi
sem delicadezxa
sim,
rimbaud
e eu
exagerados

 

 

 

 

 

 

 

A caixa de pandora

I
se ele me quer
me arrasta
sem pedidos
ou cara de
maior-abandonado
se não quero
um bico de pedinte
que conhece seus direitos
se forma no canto
de seus lábios
e novamente sou arrastada
ao que parece ser minha cama
(e que na verdade nunca será,
uma vez foi da enorme
cadela prenhe que
ele deixou num rancho esquecido)
: mais uma vez
uma vez mais
ele me quer recipiente


II
cadê o meu casulo
onde está o útero da mãe
o meu planetaesferabolhamundo?
devo ser guardada e esquecida
como a porra dele:
num recipiente escuro e misterioso
dentro de uma mulher

 

 

 

 

 

 

Todos os lados

 

você não me deu cigarros,

eu tinha isqueiro,

mas não pude acender.

 

eu devo mesmo estar precisando

acostumar-me ao que tu chamas civilização.

quer aculturar-me

senhorinha branca?

eu não sou um índio insolente,

preguiçoso e nu,

tampouco, um negro que precise

expiar seus pecados,

obter uma alma para chegar aos céus.

 

eu também posso ser ácida, meu amor

é como diz: o outro lado,

mas prefiro curar tua insegurança

com meu colo, pra o teu corpo

e meus dedos pra os teus cabelos,

nada que impeça uma peleja

bons combates de amor.

 

 

 
 
 

*

 

lá pelos idos de 2.207

não restará ninguém vivo

que me tenha conhecido

minha memória e lembrança,

meus gostos e desgostos,

tudo pó junto ao cemitério

onde estarão os ossos meus

e dos meus

centenas de vidas perdidas

esquecidas e enterradas

pelo tempo — implacável

 

e mesmo que eu fizesse

a mais perfeita pesquisa histórico-social

que escrevesse os mais redondos e belos versos,

nem isso sobreviveria,

e seria como se eu nunca tivesse existido.

ninguém quererá procurar meu nome

num cartório de campinas pra ver

o carimbo: apresentou atestado de pobreza.

 

talvez nem a poesia e a história — meus ofícios

resista à falta d'água.

a grande preocupação dessa época

será os estragos e não os feitos

da minha geração.

 

 

 

 

 

 

Palavra, cardíaca palavra

 

prepotente, proponho-nos

risco ou brincadeira

jogos com tristes palavras

retiradas de um romance tísico

quase esquecido na última estante

do renque, num sebo de último instante.

 

palavra ara— quedas

palavras que caem de livros

e viram hagás:

hellen hestranha

hencantadora hélida

                             hestonteante.

outras palavras soltam-se de

brancas folhas:

enfermeira encrenca ensurdecedor

enfurecidos emqualquerlugarlongedaqui.

 

palavras irrequietas

jogo de palavras riscadas por brincadeira.

palavra paralela para ler-lepípedo

longínquas irreais

correndo a nos arrastar

para a miragem

ou o que julgamos ser nós.

língua de babel

provando palavras parasitas

ou prosa em poesia

 

 

 

 

 

 

 

Linguagem

não quero meus trapos. acadêmicos
um jeans desbotado?
não, é caro. feito acessório. inútil
quero a liberdade. nudez
no co(r)po na mesa
na prática

 

 

 

 

 

 

Felicidade escrotal

pai, naquele dia
você me jorrou
pra dentro da mamãe.
que visão mais bela
a vulva, o buraco
— obscura claridade,
tudo dentro dela.

você era tão feliz,
e eu a extensão do teu gozo,
fui tão fundo
que tudo que vi
foi relance,
riso, filme noir
dos últimos instantes de vida
segundos seguidos de vida.
lindo. sem canhões
eu feito bala perdida
na intimidade, no gozo
bom é viver assim:
breve num filme de um minuto
múltiplo festival.

e agora você
vem me dizer, pai
que a beleza
é feia, suja
mas você mostrou
jorrou. gostou.
pai você!
me fez assim
tato. gosto

 

 

 

 

 

 

Cecília         

 

gemidos da minha gata.

siamesa. miscigenada.

minha lânguida gata

magra se enrola caracol

eu rodopio

lâmbda

lambida...

 

corre treteira

pra cima do telhado

derruba tinta

em minha camiseta

subo borboleta

até a chaminé.

 

minha gata é preta.

ainda bem que gosto.

 

pula de pé

no meu colo,

só atira certeiro.

 

platão me deu

medéia

minha gata

multi-étnica. ego. cecília

 

 

 

 

 

 

Balada pra lavínia não chorar                 

         ello (a porção mãe de nina rizzi)

 

entoei antigos versos

manipulei mágicas ervas

inventei cantigas de ninar

chorei

cantarolei esta balada quase triste

— de tão simples —

e até provérbios bíblicos

não para que descanse em paz

mas para que tenha os pés aquecidos

e possa passar tranqüila

estes dias tão quentes

 

 

 

 

 

 

Pra não sentir (auto) piedade       

 

         quero uma tarde de vento. ventania. um tornado. leve. que me leve ao chão.

         quero machucar o joelho. joelhos. terra carne sangue vento. minhas compras ao chão a encontrar novos livros.

         quero o cuidado de mãos estrangeiras. desconhecidas. um apartamento num prédio antigo. quem sabe um café de esquina.

         quero uma poesia arrancada. como um souvenir. aulas de cerâmica. algo que eu fizesse por mim mesma. um festival de filmes asiáticos.

         quero a alegria. o toque da descoberta. a primeira noite.

         a sensibilidade dos infiéis. a coragem dos suicidas.

 

 

 

 

 

Luxo e halitose

 

hoje a rua me ofereceu seu bafo quente. um bafo que não vinha do chão, do céu ou do ar. era intrínseco, como se sempre estivesse estado ali, e eu, por pura inércia, não o tivesse sentido a subir pelas minhas pernas, percorrer a espinha e adentrar todos meus poros e entranhas. hoje a rua estava lá.

não choveu. a temperatura estava alta e minhas contrações se seguiam ininterruptas como os gritos daquela criança que corria descalça pela estação sem se fazer entender. e quanto mais sua mãe lhe espalmava, mais ela reagia. em histeria.

eu gostava do pai.

— não benzinho, deixe que hoje eu dou um corretivo pra essa birra.

e então se trancava com ela no quarto, tirava o cinto das calças e batia nas paredes.

— você tem que chorar, senão ela descobre nosso segredo.

foi assim que aprendi a fingir. dissimular dores na infância e gozo quando pensavam que eu era mulher. me fiz atriz por pura sobrevivência, como um sobrinho a se fazer de doido pra fugir do imperador louco.

eu sobrevivi. no meio do mar, quase a chegar na praia e ver aquele enorme, hediondo de tão enorme transatlântico. oponente. ostensivo. ele passou por mim cheios dos cristais e velas que nunca terei. eu cheguei à praia. nua. não viva, sobrevivente.

passei pela rua imunda como passeia por um boulevard da quase-pólis-pós-moderna. mais umas baforadas e cheguei à estação. vi algumas locomotivas chegarem e partirem. quis deixar de ser os trilhos a suportar tantos vagões e sua gente requintada. miserável. eu quis ser como aquelas grades que separavam os destinos. uma grade. uma grade apenas. que apesar de forjada em ferro maciço, era oca. norte e sul.

o varredor das ruas passou. ninguém o notou. ele varreu os tocos de cigarros que estavam em meus pés e que eu não havia fumado. talvez as pessoas devam mesmo jogar o lixo nas ruas e assim garantir um prato de fome pra sujeitos como ele. ele varreu meus pés e não me notou. eu era como ele. mesmo que de barriga cheia. de gente, não do mundo.

e então o meu trem chegou

 

(imagens ©jx)

 

 

Nina Rizzi (1983). Formada em História pela UNESP, em Franca/SP. Mãe da Lavínia. "Sou a catalisação, a junção de todos meus pseudônimos, pseudo-eus, eus perdidos, alter ego... o que chamo de ELLO. ELLO é também uma nova fase. Uma reconceituação de poesia, música e teatro, tudo um elo, ou ello".