Dizem que sempre falta uma palavra e é verdade.
Nesses anos todos eu sei que sim, que sempre falta uma palavra, é
verdade. Verdade. Pois procurei por Belinha, depois de 50 anos, 50 anos,
para dizer para ela essa palavra. Sempre falta uma palavra, verdade
verdadeira. E eu fui para dizer para Belinha essa
palavra.
Vesti meu
terno, pus o chapéu e saí. Saí, foi. Como nos tempos em que era moço,
feliz. Nos tempos em que me apaixonei por ela. Eu nunca pensei que um
amor assim pudesse me deixar perdido, quase louco. Amor grande. Amor
para sempre. Pois é. Vesti meu terno, pus o chapéu e peguei um ônibus
até Santo Amaro. Sentou-se uma moça ao meu lado e era uma moça bonita.
Ah, e o perfume era muito bom e eu conversei com ela, conversei muito
com ela, muito, até chegar à casa pr'onde eu ia. A casa que vi
construída. Que vi, tijolo por tijolo. Eu nunca morei nela, mas era lá
que Belinha morava, casada com outro. Que teve filhos e teve netos. Que
vive hoje sozinha e que nem sabe que eu vou lá, entrar naquela casa, que
vou dizer o que tenho pra dizer, depois de 50, 50 anos, que sempre falta
uma palavra. Uma única palavra, que vou levando com meu terno e meu
chapéu. E uma agonia no coração, profunda. Profunda. Que sempre falta
uma palavra. Era agora.
Desci
no mesmo ponto e o ônibus se foi. E o bonde se foi, não tem mais. Nem a
paz daquela rua. Só reconheço a esquina em que eu ficava, no bar, entre
um café e outro, a ver a felicidade de Belinha, a casa agitada, os
filhos pela calçada. Dei balas e brinquedos para eles, escondido, que
ela nunca me via. Ficou um mistério, foi. Mas, no fundo, no fundo,
Belinha sabia quem era. Eu tenho certeza, não me engano. Ela sabia que
eu é que dava balas e brinquedos, escondido, nunca a abandonei, nunca
deixei a vida dela sozinha. Que meu amor era eterno. Mas hoje ela vai
ficar sabendo de uma vez. Eu vou dizer a palavra que eu guardei, que
ficou engasgada durante 50, 50, 50 anos. Nos olhos de Belinha, é. Pra
ela saber. Saber de uma vez o que eu quero dizer, depois de 50
anos.
O
portão é amarelo, meio aberto. Há cheiro de jasmim, o mesmo cheiro, Meu
Deus. A parede é amarela e meio aberta. A mesma parede. Eu fui
invadindo, decidido como nunca. Mas eu sempre fui decidido. Fui moço
forte, fibrento, de briga. No trabalho e na vida. Meu pai era assim e me
ensinou. Mas o problema, posso dizer: foi ela. Belinha me deixou lento,
sem força nenhuma. Sem decisão pra resolver aquela situação. Eu a amava
tanto, ela me amava tanto e casou com outro. Na minha cara, na frente do
meu nariz. Casou por vingança, não sei. Por dinheiro, não sei. Por
indecisão. Porque quis fazer outro destino. Foi o fim, o começo do meu
desasossego. Fiquei inseguro, fraco, acabado de tudo. Meu fim, tão moço
que era. Minha morte no mundo.
Bati
frato na porta, assim. Fraco. Mas não demorou muito para eu pensar em
bater com todos os meus nervos na porta. E sacudir o nome dela. E tirar
o chapéu porque eu havia suado muito. Um sol de muito tempo. Um sol
antigo. Meu chapéu é quente. Meu chapéu e meu terno. O mesmo terno
quente.
Disse
o seu nome lá pra dentro. A casa escura, sem abrir. "Belinha", como
sempre tive vontade de dizer. Não gritei, só disse. Estava ali para
dizer a palavra que faltava, que sempre falta uma palavra depois de 50,
mais de 50 anos.
Ela,
ela.
Ela veio rastejando até a porta. Rastejando a sombra
dos chinelos. Cansada e sozinha que ela estava. Veio e me olhou. Demorou
olhando para mim. Olhou, olhou e me viu. O mesmo chapéu e o mesmo terno
e o mesmo sol. Foi aí que Belinha me abraçou, abraçou. Meu Deus, Belinha
me abraçou, me fechou naquela casa. Trancou. E era agora como nunca foi.
Como nunca mais será. Uma palavra que ficou em mim, envelhecida e
tratata. Pois é. Tratada como num coração de formol. De forma que
resolvi dizê-la, ali mesmo da porta, sem entrar, não entrei, não sei, a
mesma porta amarela, o mesmo jasmim, o mesmo jardim. Porque sempre falta
uma palavra, depois de 40, 50, 60 anos, não sei. Sempre faltará uma
palavra.
Ela disse que ouviu dizer de minha vida, sim. De
mulheres, de famílias. Mentira. Que eu tive filhos. Mentira. Que eu
tentei me matar. Mentira. Mesmo a morte eu esperava morrer com ela. Todo
tempo havia esperança, havia. Esperança. Eu tinha pressa, depois de 50
anos eu tinha pressa. Ela me mandou sentar, tomar um café. Não quis.
Passou a vontade, como passageira. Esperou eu falar. Pois é. E só depois
de 50 anos, 50 anos ou mais, olhando para o fundo da boca, das mãos, dos
olhos dela, no mesmo portão, porta amarela, com o cheiro de jasmim, eu
disse a palavra, a palavra que faltava, que sempre falta uma
palavra.
Falta.