Haikai 2
após o tango
um esfaqueado
é exercício
após o losango
um quadrado
é vício.
A culpa da arma
A culpa da arma não é do inventor.
A culpa da arma nem é mesmo da arma.
A culpa da arma é de quem não tem dor.
A culpa da arma é das almas com Karma.
A culpa da arma não é do meteoro.
A culpa da arma não é do obelisco.
A culpa da arma odeia desaforo.
A culpa da arma é de um rápido risco.
A culpa da arma é uma lágrima seca.
A culpa da arma é de um líquido medo.
A culpa da arma é um furo na parede.
A culpa da arma é da biblioteca.
A culpa da arma é mais tarde ou mais cedo.
A culpa da arma é Vossa! — Olhai! E vede!
A-ciência
conflito
luta luta
natureza
homem
ciência
máquina
homem
natureza
ciência
produção
produção
aliança
harmonia
técnica
tecnologia
produção produ
tecnologia atrope
produção produção
máquina técnica ciência
manipulação
atropelamento
técnica lei
harmoni
harmo
hegemo
domínio
produção-
cracia
destru
nia
alian
hegemonia
ciência
harmon
destruição
dom
tecnologia
ínio
máquina poder
destruição
lei
hegemonia
produção produção produção
tecnologia técnica
poder
ódio
pode-o
pódio
conflito produção domínio
destruição poder lei manipulação
ciência técnica
atropela-mente
tecnolo
mente
tec maqu
luta luta luta luta
AR
MA - quina
GE - nte
DOM - ínio
destru
cênico
tecnofim
burocracia
cracia
cia
BURO
FURO
ar cênico
FU
natureza
natur
nat
na
t
¿
Amigos são como navios
não escolha os muito pesados, de chumbo e mau-caráter
porque eles afundam em pouco tempo
não escolha os muito leves, de papel e libertinagem
porque o vento adora varrê-los com o espanador
da ironia...
não escolha os aproveitadores
porque são feitos de pedra
não escolha os levianos
porque se descosturam em alto mar
e deixam você a ver navios
afogando-se...
não escolha nunca nunca os sórdidos
(são os piores)
porque se encharcam de lama
cedo ou
mais cedo ainda
e nem o fundo das águas marítimas
com sua extensão infinito fértil
quer suas almas de lodo
não escolha os de ouro e prata
porque são feitos para a venda
e vendem também quem estiver com eles
não escolha os de plumas e paetês
porque são feitos para a quarta-feira
de cinzas
alegóricas...
Amigos são feitos de navio
por sobre cujo pátio vasto e amplidão
se observam — com o sorriso da Mona Lisa
que seria o mesmo da esfinge? —
falsos navios sendo despedaçados nas rochas
sugados nas ondas
queimando em pleno mar
na fogueira
na fogueira
no fogo inextinguível, afinal,
da Justiça
em sua sentença de Sal!
Anjo de Luneta
Dos vícios da noite, o pior é a solidão...
Bares se apagam depois que a música fica...
Antes era Mona Lisa, agora é Guernica...
Príncipes e princesas, olhai o dragão!...
A carne invisível — não vejo, não percebo...
Nem sei quantas vezes pensei em desistir...
O reino da noite é o império de um faquir
na cama de pregos, ingerindo placebo...
A noite é uma vírgula. Que o dia recusa...
O dia é casado contra a noite solteira...
O beijo da noite é uma concha entre suspiros...
A noite é uma pobre noviça confusa,
uma vaga sobrando, choro, mamadeira...
e mama água benta no covil dos vampiros...
O beco fino
Para a amada Elke Grunupp
Concluir nossa igualdade é tão terrível,
que se inventaram hinos e doutrinas
"provando" o quão alto é o nosso desnível
diante das pobres bestas, "pequeninas"...
Até se criaram canções de amor; salmos
recitam-se; festas, orgias... de quebra...
Na farsa, o cavalo jamais foi zebra,
não há maremotos, só lagos calmos...
Cada homem se acha dono das estrelas,
crê que o universo foi feito POR ele —
seu Agente! Causa! Finalidade!
Antes das pessoas — e depois delas —
havia a mesma Lei. Pois se revele
que a água da vida é de quem nela nade...