Poética

 

Há sementes

escondidas por dentro

quando se corta

a veia do tempo.

 

 

 

 

 

 

Alice e o espelho

 

Ontem

de manhã

quebrei o espelho

e Alice

foi embora

pelo vão da árvore

como não era de costume

e antes

que sem Alice

eu me acostume

disse

hoje

de manhã

não compro outro espelho.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O fantasma do palco

 

Volto

constantemente

à noite

para estas ruínas

que deixei

quando era velho.

Faço as mesmas coisas de antes:

preparo o camarim para as atrizes,

varro o palco,

descerro as cortinas,

aplaudo com veemência.

Depois,

sento calmamente

naquela pedra ali,

verde musgo,

e observo

os espectadores

deixarem o teatro.

Só não consigo

retornar para casa

onde

sempre

encontro a porta fechada

como num sonho.

 

 

 

 

 

 

*

 

Para desbravar a noite

é preciso que anoiteça

é preciso um pouco de angústia

é preciso esfumaçar o vento

é preciso que passe o tempo

é preciso dos sapatos em silêncio

é preciso que se desfaleça o dia

é preciso estar acordado

é preciso esquecer os óculos

é preciso a madrugada

é preciso sentar na última mesa do bar

é preciso permanecer até o último gole

é preciso sempre a última tentativa

é preciso que chegue o dia

 

 

 

 

 

 

*

 

Céu de estrelas.

Estrelas!

Por que, tão densamente,

descrevê-las?

 

 

 

*

 

Sinuosa manhã. Debatem-se flores no jardim lá fora. Debatem-se desesperadas as cores no aquário azul — peixes vivos de olhos crispados avançam contra o vidro —. Cadeiras dançam pela sala na manhã fria de um junho esquecido entre abelhas zunindo tão forte quanto o som da TV. Meus braços despedaçam-se. As cortinas caem estrondosamente sem tocar nas vidraças foscas, sujas de lembranças. O leiteiro não toca mais a campainha. Não há mais ninguém lá fora, pelas ruas. Não há ninguém entre a areia e o nada. Não há certeza de nenhum oásis. Flores debatem-se no jardim. Lá fora

 

 

(Do livro Guardados. Londrina: Atrito Art Editorial, 2003)

 

 

 

 

Tratado sobre o silêncio

 

O silêncio dói muito mais na pele do inimigo que o grito.

Pousa assim, cálido, como uma resposta sem pontuação.

Deita suave nas concavidades do ouvido.

Desconserta.

Desmancha certezas.

Hospeda pulgas atrás da orelha.

Arma afiada

Toque lancinante

Estratégia zen

Linguagem de deuses da arte da guerra.

 

 

 

 

 

 

Miudezas

 

De onde brotam

os textos

que escrevo no fundo do quarto?

De onde brotam

os olhos

que surgem no escuro da noite?

De onde brota

o vento

que arrepia a pele?

De onde brotam

os sons

transmutados em uivos?

De onde brotam

estas palavras

miúdas?

 

 

 

 

 

 

O mapeamento dos dias

 

1.

 

mais um dia

para afligir

as coisas do cotidiano

colocar em ordem

sentimentos inúteis

rostos medíocres

que apavoram o sono

 

 

2.

 

mais um dia

de aflição

diante de situações

insuportáveis

de conselhos dispensáveis

de reclamações ridículas

de detalhes insuperáveis

 

 

3.

 

mais um dia

sufocante

diante da mesma

platéia

que não sabe

em uníssono

o sentido das coisas

que adormece

diante de cada fala

 

 

4.

 

mais um dia

enfadonho

que aperta a garganta

e mostra como é

inútil

a vida

que desaba como um

fardo

sobre a mesa

de trabalho

 

 

5.

 

mais um dia

que pode ser

cinza

ou

branco

sem cor até

um pedaço de céu

pela janela

ínfimo

trisco de céu

 

 

6.

 

mais um dia

perdido

como o pássaro

em zigue-zague

em direção ao vidro

translúcido

 

 

7.

 

mais um dia

(como é difícil)

mais um dia

de palavras vazias

faladas aos borbotões

intensamente

para causar otites

no ouvido

 

 

8.

 

mais um dia

de silêncios e solidões

de frases recorrentes

no poema

de saudades e

sentimentos

obstinados

que ferem os sonhos

dilaceram

mais um dia

 

 

 

 

 *

 

uma palavra

para salvar a noite

uma palavra apenas

para salvar esta noite

entre nós

uma palavra qualquer

que salve

as últimas gotas desta noite

a palavra exata

a palavra como lâmina

repentina

uma palavra

apenas

 

 

 

 

 

 

*

 

é melhor

não criar expectativas,

eu não posso

enterrar-lhe

uma adaga

no meio do peito

injetar tristeza

em sua mente.

a minha perversidade

é estancada

pela minha moral.

talvez tu tenhas

derrotas bem particulares,

daquelas que não se contam

para evitar a alegria dos inimigos

(que, em teu caso,

diante de tanta arrogância,

são fileiras

que se perdem

no horizonte).

o tempo passa,

o mundo rotaciona

para fabricar os dias,

as vicissitudes

afloram

para cada

um

em sua hora.

 

 

 

Sobre o cotidiano

 

tirar o corpo da cama, calçar os chinelos, tomar o café com açúcar, provar um afeto, lamber a colher de mel, aguçar a úlcera lendo as manchetes de jornal, rir da coluna de política, travestir-se para o mundo, enfrentar o trânsito, estacionar o carro, entrar em cena, a performance do trabalho, os risos, os silêncios, as palavra comedidas, o almoço com sobremesa, o café sem aspartame, as reuniões da tarde, os chinelos nos pés à noite, as saudades, o chá mate quente, o barulho dos carros, as árvores dobrando-se na noite de ventos e trovoadas, a cabeça sobre o travesseiro que cochicha sonhos e a vida no ponto a partir do qual, realmente, começa.

 

 

 

 

 

 

*

 

Hoje amanheceu escuro. As janelas da casa estão todas lacradas e os vidros ainda não receberam as ordens para a luz entrar. Tudo está breu. Talvez algum dia eu abandone as palavras. Não vai ser mais meu corte e costura. Talvez um dia eu emudeça como estas janelas nesta manhã. É manhã? Só escuto alguns sons ao longe. Mas, nada adianta. Talvez emudecer seja mais imprescindível que parir palavras.

 

 

 

 

 

 

Das imagens invisíveis

 

A imagem retida na retina clara delata a fotografia que não postei. Não enviei para o ciberespaço tecnológico, nem compartilhei visualmente com os navegantes virtuais. Os contornos de um castelo às avessas. Com cravos que crispam de um lago verde. Surreais sombras de uma ponte, uma passagem que já não é, um vir a ser de um caminho. Também vejo a sensação de uma cidade suspensa. Verde como o cheiro melancólico da neblina. Um som estrangulado pela névoa. Cravos crispados, que irão ficar gritando em meus ouvidos (como imagem retesada na mente).

 

 

(imagens ©matthieu spohn)

 

Karen Debértolis. Escritora e jornalista. Publicou A estalagem das almas (Curitiba: Promic/Travessa dos Editores, 2006), Guardados (Londrina: Atrito Art Editorial, 2003) e Calidoscópio (edição de autor, 1995). Em 1994, ganhou o prêmio Revelações, do jornal literário Nicolau (Secretaria de Estado da Cultura do Paraná). É verbete no Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras, de Nelly Novaes Coelho (São Paulo: Escrituras, 2002). Participou das coletâneas Helena Kolody (Secretaria de Estado da Cultura do Paraná, 1991) e 12 – Antologia de Poetas Londrinenses (Londrina: Atrito Art Editorial, 2000) e do livro Jornalismo no Cinema, organizado pela jornalista Christa Berger (Porto Alegre, Editora da UFRGS, 2002). Publicou textos nos jornais literários Nicolau e Suplemento Literário de Minas Gerais, e nas revistas Coyote, Medusa, Proa da Palavra e Novos Talentos em Literatura. Tem parcerias musicais com Elton Mello, entre elas, "Alice e o Espelho", gravada no CD Decifra-me ou..., do grupo Chaminé Batom. Desenvolveu, com a fotógrafa Fernanda Magalhães, os projetos "A Expressão Fotográfica e os Cegos" (2002), "Impressões da Memória" (2002-2003) e o livro A estalagem das almas.