*

 
existia uma rua de onde observava o mar
as ondas desaparecidas já, apenas os rochedos
seus mexilhões e anémonas
a ligeira brisa
 
levantei-me de madrugada, tinha dez anos
balbuciei uns passos até à janela
 
hoje termino esse passeio pela sala
como se sentisse a água salgada
por entre os dedos
 
e novamente o mar, abraçando a felicidade
junto às areias
 
 
 
 
 
*
 
sabes, pai
 
o cachecol béje nos muros da foz
cobria as árvores com o seu pêlo, ao vento
o boné azul, marinheiro nos cabelos louros
sussurava pequenas frases às silentes águas
o teu sorriso tão leve, enternecia o rosto
esses óculos, teu cabelo nas tardes de sol
 
ou o barco encalhado na areia breve
junto ao castelo onde nos passeávamos
eu tu a mãe, duas ou três falas e o meu corpo
que se chegava a vós junto à estrada
 
nestes muros da foz, abertos ao mar
que voava
 
 
 
 
 
*
 
a cadeira está vazia, um corpo ausente
não aquece a madeira que lhe dá forma
 
e não ouço o recado que me quiseste dar
nem a tua voz forte que grita meninos
na hora de acordar
ouço o teu abraço, no corredor em gaia
e os olhos molhados pela inusitada despedida
 
o sol foge
mas o crepúsculo desenha a sombra que
tenho colada aos pés
ou o espelho, coberto com a tua face
 
pai, digo-te
a minha sombra és tu
 
 
 
 
 
*
 
faz-me falta um verso
onde o mar não termine
 
deus sobre as rochas
 
 
 

(De A Palavra no Cimo das Águas)
 
 
 
 
 
Melancolia
 
O tojo caindo o sol do fim da tarde. A caruma dos pinheiros
traz as crianças para a infância, os velhos jogam à malha no
caminho de Candeeira e as mulheres conversam junto aos
tremoços, chamando-os, desde o coberto, para a merenda.
A avó abre o postigo para ralhar aos moços, leva-os para
 
a cozinha onde lavam as mãos do pó que a alegria trouxe.
Iluminam-se na broa de mais um domingo encomendado à felicidade.
 
 
 
 
 
Poema ao Filho
 
                a Rafael Passos do Carmo Reis-Sá
 
Cresceste tanto que deixaste os meus braços para trás.
Dantes, chamavas e eu ia levantar-te do berço, preocupado
com o teu choro. Deixava-a a dormir e dava-me todo a ti.
Tu, nos meus braços, deitado e tão pequeno, abraçavas-te
muito à minha preocupação. Dizias baixinho: vamos ouvir
música, quero dançar contigo até que os demónios da noite
sejam longe. E eu ia. Ia tanto como nunca, eu que nunca
dancei para ninguém. Ligava a música, colocava-a baixinho,
tão baixinho que só nós sentíamos o seu som: A rare
and blistering sun shines down on Grace Cathedral Park,
e dançávamos. Ao som da música eu era o Pai, ao som da
música tu eras o Filho. Dançávamos como dois anjos, sabes?,
mas isso não te digo porque é muito expressivo e fica mal
no Poema. Dançávamos heróis, é mais bonito. Eu era o teu
herói, aquele que te abraçava o corpo pequeno, muito nu e
encostado a mim. Tu eras o meu herói, as mãos jovens ainda
te seguravam com a força toda do mundo. Podem dizer que
dançarias com qualquer um que te levantasse do berço e te
sossegasse o sono. Mas não. Quem diz isso nunca foi teu pai
e nunca te sentiu filho. Nós éramos um só, um lugar-comum,
eu sei, mas éramos. Eu apenas contigo nos braços, minha
única roupa, meu único conforto, minha única protecção.
Tu embrulhado em mim pela tua pequena pele, inseguro
e tímido. E a noite, a longuíssima noite, eterna noite que
eu desejava nunca terminada. O céu no seu lugar devido,
a terra no seu lugar devido, e nós, nós os dois no lugar
que devemos para sempre um ao outro: um no outro,
um para o outro como duas peças de um jogo universal.
 
Agora, filho, agora cresceste e saíste dos meus braços. Terás
um dia alguém que te embale o sono como eu embalei, mas
nunca este amor que nasceu comigo e desabrochou contigo,
nunca este amor que só eu, teu pai, posso oferecer ao longo da noite.
 
 
Bargos, Fevereiro de 2002
 
 
 
 
 
Poderia Dizer-te
 
                para a Ana, um poema e mais
 
Poderia dizer-te dos tendões e das mãos onde eles percorrem
o seu destino. Poderia dizer-te dos olhos se quisesse ser fácil
este verso, dizer-te do mar e ser evidente, ou das órbitas onde
gravito em cada sorriso teu e construir metáforas. Do fascínio
que as sobrancelhas me impõem nos dedos, dizer-te das nossas
conversas na faculdade, entre as teóricas e a foz, entre os
livros de ecologia dois e a tua ternura enquanto dissecavas,
tão gentilmente, o polvo. Dizer-te da lula, não do polvo, quis
mentir para esbracejar versos como tentáculos, manter viva
a tinta, a inteligência mais reconhecida. Ou dizer-te do choco
— era, isso sim, um choco de carapaça dura com que percorrias
o bisturi e onde mantinha o meu dedo segurando-lhe a pele e
entregando, desde cedo, o meu corpo ao teu cuidado. Poderia
dizer-te do sangue no corte profundo dos meus tendões, mas
quero saber o leitor focado antes nos teus, nas mãos com que
disse o primeiro verso. Vou dizer-te: os lábios. Como quem
diz nariz mas não pode, os poemas em que se dizem faces não
permitem outra pele que não a dos lábios, outro cheiro que não
o teu, outra boca que não a tua, próxima, interrompendo frases
e subindo colinas como só estes versos longos sobem. Poderia
dizer-te tudo mas tudo ficaria inaudito. Não há poema, em cinco
séculos de literatura, que te compare a elegância nos versos.
Nem Camões, nem Florbela, nem a nossa Rosário sussurrando-nos
a voz que conhecemos nos ouvidos quando a lemos, ninguém.
Pretensão enorme a minha, portanto, ultrapassar o feito e
inaugurar linguagem — aquela que te descreva como deve.
Poderia dizer-te se o soubesse como; ou o pudesse, pelo menos,
trazer dos versos do Ruy Belo como empréstimo, elaborar o meu
Elogio de Maria Teresa mudando-lhe o destinatário e em muito
as suas palavras. Poderia dizer-te se essas mesmas palavras
permitissem impor uma mulher no centro de uma vida, uma
menina inglesa, trazida também de Cambridge, quem sabe, uma
elegância alta e vertical e desejada, um cabelo e os óculos escuros,
poderia dizer-te. Mas não. Que a minha memória desafia o
leitor a imaginar os versos que não escrevo, dizer-te poema
final e definitivo, da completude dizer-te amor.
 
 
 
 
 
Aos Amigos
 
Porque procuro no poema final e definitivo a face de Deus,
todos os versos que escrevi me hão-de condenar ao inferno.
 
 
(De Biologia do Homem)
 
 
 
 
Langor
 
Manifesto

"Pára de ondular, agora, cobra coral:
a fim de que eu copie as cores com que te adornas,
a fim de que eu faça um colar para dar à minha amada,
a fim de que tua beleza
teu langor
tua elegância
reinem sobre as cobras não corais"
 
Wally Salomão
 

Cheguei à Galeria já passava das dez. Tinha deixado as crianças no infantário, a Isabel no emprego. Havia-me ela referido o quanto ficara feliz com a mudança anunciada para Londres. Iria mudar de terra, construir novas raízes noutro país, noutras gentes. A Tate Gallery convidara-me para consultor. Iria fechar definitivamente a Galeria, é certo, mas começaria uma vida nova em Inglaterra — uma vida em volta dos quadros, e na Tate Gallery , já viu? Estava feliz, sereno e em paz com a mudança. Nunca fico sobressaltado com nada, sabe? Sou muito calmo, paciente. Dizem-me que pareço de gelo, às vezes. Acho engraçado, eu até gosto mais de coisas quentes do que frias, mas quem o diz lá saberá. Tinha então chegado à Galeria, ia começar a arrumar as coisas para a viagem. À porta estava uma mulher de meia-idade, vestida com umas calças de bombazina castanha e uma camisola às riscas. Lembro-me perfeitamente da camisola, perfeitamente — cores dominantes: cor de tijolo, preto, amarelo torrado e verde escuto. E era feia, a mulher. Tinha uma bolsa a tiracolo, uns óculos normais que lhe não aumentavam em nada a pouca expressividade do rosto. Era feia. Não sei como lhe hei-de dizer: sabe uma pessoa que achamos feia? Era assim, feia, coitada. Dirigiu-se a mim, perguntou
— Doutor João Paulo Cardoso e Sintra?
disse naturalmente que sim, que era eu. Ela estendeu a mão
— Perdoe-me o incómodo, mas necessito de falar consigo. Perdoe-me também a mão em vez dos dois beijinhos que nestas situações outras pessoas oferecem, mas eu sou assim, faço aquilo que penso, penso sempre muito naquilo que faço. Pode ser que mais tarde lhe dê dois beijinhos, na despedida, mas isso dependerá do rumo da nossa conversa. Eu sou assim, primeiro sempre a distância. Dou-me pouco, sabe. Gosto de estar longe, vejo melhor.
E eu surpreendido com o teor da conversa e com a forma lânguida como falava. Tinha uma voz muito bonita, sabe? Parecia da rádio, aquela voz: uma das vozes do programa da tarde. Balbuciei, gaguejando
— Pois acho... que faz... bem. E de que me quer falar?
— Quero falar-lhe da Arte, da minha Arte. Eu não interesso, só a Arte interessa. Sou pintora, sabe. E se eu sou pintora e o senhor galerista a colaboração é o horizonte possível. Mas o futuro não existe, é uma dedução do passado e dos nossos dias presentes. É como a Arte, entende? é como a Arte. A Arte não existe, a Arte é o Tudo e o Nada. A Arte é a Humanidade toda num conjunto cruel. É um quadro. É apenas um quadro — o quadro perfeito. Sou, portanto, pintora. Tenho muitas telas já pintadas, sei que a qualidade está lá, no seu seio. Perdoe-me a franqueza mas eu sou assim mesmo, digo o que penso, sempre. Mas não pense que sou presunçosa, não sou. Sou realista no Significado da Obra, entende? Sei que o seu Significado é a Qualidade, é a Verdade acoplada à totalidade da Arte.
E eu acenando com a cabeça, confuso, anuindo sempre a estas palavras estranhas, a esta mulher estranha. Parecia que falava sempre em maiúsculas, entende? Como se a arte fosse sempre essencial e por isso mesmo Arte , como se o tudo fosse Tudo . Era bizarro, desconcertante. Entrou na galeria depois de dizer
— Abra lá a porta Doutor Sintra, quero consigo sentir o Espaço que envolve toda a sua galeria, saber consigo onde vamos colocar os meus quadros.
riu-se
— Perdoe-me esta franqueza, mas sei que ama a Arte, que por isso irá querer expor-me no seu espaço. Sim, caro Doutor, porque a cumplicidade entre a Artista — e falo no feminino, até o Criador é fêmea — e a sua Obra é sempre evidente, eu sou Eu nos quadros que pinto, sou sempre eu.
e eu abri. Entrou então à minha frente, arrastando aquela voz quente, cabisbaixa, os braços estendidos pelo corpo e demorando o cigarro — já tinha falado do cigarro? Tinha um cigarro fino na ponta dos dedos, francês julgo, desde o começo da conversa. Ou do discurso, tanto faz. O cigarro era fino, irritava-me profundamente. Entrou
— Aqui ficará a Gaiola Aberta, o meu primeiro trabalho, belo!, belo!, belo! Ali o Anjo Mudo, um pastel belíssimo, já os vejo!, já os vejo!
e eu anuía, e eu anuía. Falou durante uma hora. Eu anuía, apenas. Ela falava, vociferava quase naquela forma arrastada de falar. Mas tinha uma voz quente, uma voz da rádio, parecia uma daquelas vozes do programa da tarde. O sorriso que deixava entre as frases era de uma presunção tal que quase me fazia rir não fosse a irritação que o discurso provocava em qualquer um. Falava
— Dou-me toda à Arte, vendo-me. Deixo-me ser os quadros, entende? Sou uma galdéria quando pinto, sou uma com todo o quadro, com todo o corpo no quadro, todo. Não só porque a Arte mo permite, mas também porque a Autoridade específica imposta pela Autora — eu — mo permite. Acho que aquele que cria é o único que não pode ser mais destruído, nunca mais. Amo os clássicos, sabe, dou-me toda aos clássicos, toda a minha mente é invadida pela Arte que amo ao preço de um quadro novo, de uma ideia nova, de uma Obra.
o sorriso que levava qualquer um à loucura; aquele sorriso presunçoso
— Amo Da Vinci e os renascentistas. E depois Bosch, Schiele, Dali, Miró. E fico-me. Não olho para mais nada depois dos primeiros surrealistas. São merda, merda, todos os depois destes. Expressionismo abstracto? Pollock? Rothko? Longe! Sabem lá esses adolescentes o Significado da Obra. Não acho que sejam Artistas, que se tenham dado como deviam àquilo que faziam. Não aceito a arte contemporânea. E crio em oposição a todos esses energúmenos que por aí andam riscando telas.
o sorriso, o sorriso outra vez
— Pinto a Arte Total e Final, nada mais. Vai pensar que sou azeda. Não sou. Amo todos os homens, concordo com a finalidade da vida como Felicidade, entende. Amo, amo muito.
e eu anuía. Não tenho recordação de abanar a cabeça afirmativamente tantas vezes como então. Anuía. Ela não se calava, dizia barbaridades
— Pinto com o enquadramento histórico omnipresente em toda a Obra. A Obra é o Pleno, a Essência. Eu tenho todo um percurso encerrado em mim, acho que a Arte é a finalidade de mim, entende?
e eu, calado, dizia que sim, que entendia o que não conseguiria nunca entender. Mas quem era esta mulher que me esperava à entrada da Galeria? Continuava calmo, sou sempre assim, dizem que pareço de gelo, às vezes, já lhe tinha dito? Calmo e no entanto assustado com aquela figura, com aquelas palavras. Mas, depois de uma hora de deambulações
— Sou profundamente religiosa, não acredito em Deus. Ligo-me à sua inexistência como uma forma de religiosidade suprema. Vou muitas vezes à igreja. Comungo sempre que vou, para poder provar a religiosidade dos outros, entende? Não pense que sou má com quem quer que seja. Não. Vai pensar isso, eu sei. Não sou, sou muito sociável, até.
de disparate em disparate, desapareceu. Disse que iria visitar uma amiga doente — sabe? não percebi ainda porque tive eu de saber que ela tinha uma amiga doente. Mas sei-o. E ela foi. O que mais me irritava era aquela definição interior. Muito preocupada com a forma como a vamos julgar, sempre a dizer o que é e o que não é e no entanto seguríssima de si e da sua arte — ia visitar uma amiga doente, dizia. Ia e foi. Mas no entanto não ficou por ali. Disse-me que voltava ao fim da tarde, para que debatêssemos toda a exposição. Que exposição? perguntava-me eu. Pois bem, foi e voltou. Eu durante o resto da manhã e a tarde continuei calmo e sereno. Fui almoçar com a Isabel — sou um homem feliz, sabe? A Isabel é a minha cara-metade, eu a dela. Temos duas crianças, duas gémeas, lindíssimas. Sou feliz, sabe?— e depois voltei para a galeria. Já me tinha esquecido dela quando voltou, exactamente igual a de manhã. Senti um arrepio na espinha, eu que nunca sinto arrepios, e vi-a entrar segura de si e no entanto olhando o chão, com o cabelo, pelos ombros, negro, tapando-lhe a face. Entrou e voltou a falar de arte. E eu a ouvir
— Aqui estou novamente, pronta para si. Para que sejamos um só nesta conversa. Adoro conversar com as pessoas, desde que cultas, desde que sábias. Porque esta cultura do desassossego, da inexistência de procura do nosso eu, da televisão — nunca vejo televisão, sabe. Às vezes, muito raramente, o canal 2. Enerva-me profundamente a mediocridade, a inexistência de um sentido unificador para a Vida. Sinto que tenho sempre de procurar algo mais, algo mais Novo. Não entendo como os outros o não fazem e vegetam em frente a um ecrã. — Bem, mas cá estou, para si. Amanhã trago-lhe os quadros para ver. Já vêm marcados, ficará com a percentagem que entender. Não sou nada materialista. Apenas quero pintar, fluir na tela, ser Arte e...
quando disse a palavra arte em mim começou a crescer um formigueiro, uma nervura. A mim, que sou sereno como o gelo, veja bem. Começou a crescer e foi aumentando. Comecei a sentir-me fechado.
— Um quadro é uma obra perfeita. Todas as obras são perfeitas. Não quero ser nenhuma artista daquelas que vende todos os quadros e mais alguns. Quando isso suceder mato-me. Procuro em cada amante da minha arte o amante supremo. É uma promiscuidade total, dou-me a todos os seres que amam a minha pintura como se me desse ao homem mais apaixonado, mais carnal e...
tive de sair da galeria. Ela seguiu-me, perguntou
— Já vai fechar? Irei consigo, falaremos a caminho de minha casa. Se vai fechar mais cedo, pode certamente ir ver desde já a minha Obra.
saí. O ar parecia um bafo, lânguido como a voz desta mulher que me tolhia o corpo. Tinha de deixá-la, não aguentava o conjunto de frases que repetia incessantemente
— Arte como paixão, entende. Como intelecto superior, como definição de um desejo intrínseco ao Artista, à Artista — até o Criador é fêmea tinha de parar, tinha de parar. Ela não parou. Acompanhou-me pelo passeio. Já com a galeria fechada, andei lesto para o carro que estava no parque. Passámos pelo meio de algumas árvores, entre as duas vias que separavam a galeria do parque, do outro lado da estrada. E foi aí quando disse
— Arte, a Humanidade como definição suprema de uma conquista do Homem, entende? Mas não pense que sou humanista, não acredito nem em Deus nem no Homem. Sou ateia em todos os sentidos. Só acredito na Arte e na partilha total da Mente da Artista, da venda da Artista à sua Arte, na...
foi aí que não aguentei. Coloquei as mãos no seu pescoço, no centro da rodovia, no meio das árvores e apertei até que a voz lânguida se calasse para sempre.
Estou feliz, sabe. Sinto que fiz uma boa acção. Eu não fazia uma boa acção há tanto tempo. Vou mudar-me para Londres, para outra terra, novas raízes, novos amigos. Já viu, senhor guarda, quantas pessoas se vão salvar do langor daquela voz da rádio?
 
 
 
 
 
*
 
É, agora, altura de falar de ti. De ti e da tua morte, indissociáveis. É altura de te fazer viver uma vez mais, de te fazer falar um pouco. De falar de ti no momento em que estás junto à morte. Ou, como já escreveu alguém, com a morte jocosamente perto de ti, ali ao teu lado. É altura. Falo do hospital. Da imagem que me perseguiu até àquele dia em que soube exactamente que a imagem era verdadeira, existia. Falo daquele H, à saída da urgência, que ainda hoje me assalta, me faz sentir o pesadelo da mãe agarrada a mim, nós antes agarrados a ti, a ti e às tuas dores
— Não há nada que lhe possa dar, está com tantas dores...
a ti e à tua doença, à tua miséria de um corpo que se vai arrastando sem pudor.
Estavas e a dor estava contigo. A morte também, soube-o passados dias. Eras muito a morte nesse corpo envelhecido pelo peso da doença. És novo deitado na maca, mas a doença pesa-te no corpo, envelhece-te a pele. Dias depois soube que o envelhecimento foi fatal. Que a pele enrugou depressa de mais até seres apenas um corpo frio, nada mais. Até seres apenas um corpo deitado no caixão, na igreja. Até seres tu sem ti no teu interior — como podes? Esse foi o último dia em que te ouvi a voz. O último dia em que te senti a barba junto à minha pele imberbe, a barba que consigo sentir sempre que te toco com os olhos cerrados, sempre que atravesso o olhar e pousa a mão noutra pele que não a tua. Eu, que nunca te vi sem barba. Vão cortar-te a barba. Depois da cirurgia, já a terceira em menos de um mês. Tu naqueles cuidados intensivos, naqueles nove dias que mediaram a voz da mãe
— Dizem que não sobrevive à operação de hoje. Vai morrer.
e chorava. Até ao dia em que disseram
— O inevitável aconteceu.
eram seis da manhã e eu virei as costas ao mundo, deitado na cama.
Mas é altura de rever uma vez mais o H, dizia. Eu perco-me sempre nos meandros da memória, sou frágil quando me decido a investir pelo passado adentro. O H que me persegue. Até ao fim, ao meu fim, um dia, numa cama de hospital como tu, tubos por todo o lado e a mãe dia e noite ao nosso lado. A mãe abraça-me a chorar, vou contar-te. Eu e a mãe estávamos contigo, no hospital, tu e as tuas dores. E a morte ao teu lado. Gemias muito. Eu e a mãe num gemer de alma de doer no coração de tanto te chorarmos. Tu choravas sem lágrimas, maior o sofrimento. Eu e a mãe, nós, ali ao teu lado. Eu dei-te a mão, quero dar-te a mão mais uma vez, dou-te agora quando te dei a mão. A mãe do outro lado da maca, dando-te a mão. As nossas mãos abraçadas às tuas, tu que gemes.
Quando és chamado para o interior dos muros frios da sala de operações e eu vejo o médico a abrir-te com o bisturi afiado. Quem me dera não saber, ter visto nunca, para nunca imaginar o corte. Mas vi, com os olhos que não quis, com os olhos que não tenho, tu deitado e o médico a abrir-te o ventre. Abre-te as entranhas e eu nada, sem poder fazer nada, quando
— Dizem não sobrevive à operação de hoje. Vai morrer.
eu largo-a, saio da urgência e em frente um muro. Em frente da urgência é o muro onde se lamentam as pessoas da perda que a urgência lhes fez ter. É um muro amarelo escuro, torrado, aquela cor que se não consegue dizer, só ver. É um muro que separa a estrada, as casas da entrada da urgência, que protege as ambulâncias que chegam. E é nesse muro que vejo, que o sinto atónito em mim. Olhei e vi o que já tinha visto, como pude? Senti que a placa azul, a letra maiúscula branca, eram já parte de mim antes de o serem como as vejo agora. Senti que já foi, que o H já foi e eu não soube. Que o futuro é uma necessidade de lembrar as coisas que temos guardadas em nós. E chorei tanto por ter em mim a tua morte. Chorei tanto por ter visto que a tua morte era já parte de mim. Que nada se pode fazer para que o futuro mude, que ele está inserido nos arquivos da memória a haver. E que o H apenas nos lembra, nos decide ser.
Acreditei. Acreditei mesmo que te tinha sentido o calor pela última vez. Mas ainda não. Deixa-me, uma semana depois, fazer-te ainda um último carinho. Vou esperar para te abraçar ao choro. Vou esperar que o futuro seja, que o H esteja de costas para mim e eu para ele.
 
 
(De Por Ser Preciso)

 

 

 

 

 

Jorge Reis-Sá nasceu em 1977, em Vila Nova de Famalicão, Portugal. Frequentou os cursos de Astronomia e Biologia na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e estagiou no Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da mesma instituição, onde estudou genética populacional, interrompendo a formação académica para se tornar editor. É responsável pela editora Quasi Edições e pela empresa Do Impensável — Projecto de Atitudes Culturais. Editou quatro livros de poemas: À Memória das Pulgas da Areia (Vila Nova de Famalicão: Quasi  Edições, 1999), Quase e outros poemas De Querença, com pinturas de Luís Noronha da Costa (Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2000), A Palavra no Cimo das Águas (Porto, Campo das Letras, 2000) e Biologia do Homem (Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2004; Brasil: Escrituras, 2005), além de dois livros de narrativas: Por Ser Preciso (Maia: Cosmorama, 2004), vencedor do Prémio Manuel Maria Barbosa du Bocage (2004), recentemente editado em Itália, e Equilíbrios Pontuados (Edição do Autor, 2004) e um conto para a infância: Tomé e o Poema, com ilustrações de Joana Quental (Vila Nova de Famalicão: Quasi Edições, 2005). É colaborador permanente das revistas portuguesas LER e Magazine/Artes, onde assina as crónicas A Biologia dos Livros e Simbioses & Comensalismos, respectivamente. Organizou diversas antologias, entre as quais Anos 90 e agora — Uma antologia da nova poesia portuguesa . O seu primeiro romance será publicado em Fevereiro de 2006 pelas Publicações Dom Quixote. Mais em seu site e aqui.