I

 

deus dança com o diabo

 

 

deus deseja o diabo

deus devora o diabo

deus deflora o diabo

deus degusta o diabo

deus deprava o diabo

deus desabrocha o diabo

 

 

 

 

 

 

II

 

deus desfila com o diabo

 

 

deus delata o diabo

deus desarma o diabo

deus derruba o diabo

deus derrota o diabo

deus degrada o diabo

deus desgasta o diabo

 

 

 

 

 

 

III

 

deus é o dono do diabo

 

 

deus defuma o diabo

deus degola o diabo

deus desbota o diabo

deus deforma o diabo

deus desenha o diabo

deus desmiola o diabo

 

 

 

 

 

 

IV

 

deus é a dama do diabo

 

 

deus debulha o diabo

deus desbanca o diabo

deus desgrenha o diabo

deus desmancha o diabo

deus desarranja o diabo

deus desencanta o diabo

 

 

 

 

 

 

V

 

deus é o diabo do diabo

 

 

deus desafia o diabo

deus desafina o diabo

deus desatina o diabo

deus desabona o diabo

deus desespera o diabo

deus desmascara o diabo

 

 

 

 

 

 

VI

 

deus dorme com o diabo

 

 

deus desfia o diabo

deus destila o diabo

deus desafoga o diabo

deus desdobra o diabo

deus desagrada o diabo

deus deslumbra o diabo

 

 

deus delira com o diabo

 

 

 

 

 

 

VII

 

a poeta mordeu as bordas do dia

derrubando os escritos que vieram

destrambelhados pelo morro abaixo

arrastando espinhos de relâmpagos

 

 

 

 

 

 

XIV

 

a poeta estraçalhou o prelúdio

não conhece os poemas do livro

desastrada, quebrou os holofotes.

derramou o vinho nas escadarias

 

 

 

 

 

 

XXI

 

a poeta envenenou a minha existência

como uma criança roubou a minha alegria

o meu desespero é a infância de minha arte

este poema é o primogênito da minha desgraça

 

 

 

 

 

 

XXVIII

 

A poeta tem sede satânica de glórias e epopéias

seu sorriso diabólico quebrou o espelho perdido

não vou responder à indiferença com a homenagem

ao seu narcisismo eu respondo com o meu dandismo

 

 

 

 

 

 

XXXV

 

a poeta cavalga o pégaso nascido do sangue de medusa

o abuso do álcool consumou as suas devastações em mim

me atrevo a sambar fingindo ver em seus gestos falsos

as mentirosas migalhas de respostas que ela não me dá

 

 

 

 

 

 

XLII

 

a poeta não quer fazer o sinal da cruz

atirando o suor de cristo a prostitutas gregas

que vivem ao redor de velhos castelos sinistros

se embriagando com os sarcófagos de seus inimigos

 

 

 

 

(imagem ©arnaldo pappalardo) 

 

 

 

 

Jovino Machado (Formiga-MG, 1963). Poeta. Graduado em Letras (UFMG). Publicou, entre outros, Trint'anos proust'anos (Mazza edições, 1995), Samba (Orobó Edições, 1999), Balacobaco (Orobó Edições, 2002) e Fratura Exposta (Anomelivros, 2005).