LEGADO

 

Não terás ouro de tolo

nem a tuas mãos chegarão

a pepita de um garimpo

de um igarapé ianomami

que orne um santo que seja

de um altar qualquer

num dos templos barrocos

de São Salvador, Bahia;

nem as minas de prata

do romance de Alencar,

que li sonhando,

ainda só infante.

Nem sequer um níquel

de moeda sem valor,

troco de esmolas

jogada à sorte

no pátío dos profetas

moldados pelo mulato

em Congonhas do Campo,

ermo sertão das gerais.

 

Tua herança será de chumbo, sim,

mas o trocado em tiros

nesta guerra de palavras,

Canudos sem conselhos:

terás uma arca de letras

de finas bordas

e grosseiros rombos,

vagas na aparência,

mas de pétrea rigidez

(as pedras da calçada).

 

Meu testamento conterá

a rija esclerose

das veias que transmitem

esta garapa de cana,

esta rapadura batida,

sangue de escravos,

emborcados nos porões

dos navios negreiros

que Castro Alves glosou

— com glóbulos feito foices

e sua espessa expressão

de um rubro escuro,

negro ou quase preto.

 

Haverá também entre os haveres

meu coração combalido

de tantos combates

de amor, cansaço e fé,

esperança, dor, ilusão;

tenras rendas de bilro

de rendeiras do Ceará

que te ensinam a namorar;

e todas as trilhas capazes

de te entregar à solidão.

 

Ah, na certa terás dívidas a pagar:

amigos que esqueci

e inimigos que não se esquece;

tocaias que desarmei

e velórios a que faltei;

festas barradas no meio,

brutos sem compaixão

e lutos sem remissão.

Lucros e perdas haverá,

umas, de mel deglutido

outros, afetos a vomitar.

 

Talvez os olhos míopes

de eu só ter lido o inútil

e o colesterol elevado,

a cobrar os serviços

dos feijões com carne seca

de refeições de paxá.

Quem sabe ouvidos cansados

pelas canções que ouvi

e passos retardados

por rixas que não lutei

ou barreiras que não saltei.

 

Perdoa, Pedro,

o País que te largo:

esta infame e sublime

tradição de traições,

estas taras de gerações;

a brasa morna

das charqueadas;

e a poeira seca

das vaquejadas.

Por este saldo devedor

pagarás conta de peso

com sangue, suor e cachaça.

 

Mas aproveita o que puderes

das histórias de cantador,

ainda as que eu não contar;

dos poemas de amor,

até os que eu não fizer;

e das portas do mundo,

mesmo as que eu não abrir.

 

Viver é se perder e achar,

ou melhor, é se achar e perder.

A vida é pena a cumprir,

remorso a carpir,

mesmice e castigo,

e mais ainda: é susto,

canto e mistério,

miséria, pranto,

capricho e sedução

— a vida é séria,

a vida é vil,

a vida é vã,

qual telha vã.

 

Segue a trilha oculta,

vai ao pote seco,

solta a voz travada.

Pois num lugar incerto,

num sítio tosco,

na Estação Finlândia

ou no Taj Mahal,

serei teu ouvinte atento.

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

 

OS DEZ MANDAMENTOS DA BÁRBARIE

 

"Todo este povo, no meio do qual estás, verá a obra de

Iahweh, porque coisa terrível é o que vou fazer contigo".

                                                              Êxodo, 34, 10

 

"La rabia

se volvió filósofa,

su baba ha cubierto al planeta".

Octavio Paz, Nocturno de San Ildefonso

 

"And I'll stand o'er your grave

'til I'm sure that you're dead".

Bob Dylan, Masters of War

 

 

Furarei teus olhos para que não vejas o Inferno

e te explodirei os tímpanos para não ouvires indecências.

Arrancarei teu coração porque o amor é porco

e pisarei em teu calo porque a dor redime.

Vou te marcar a ferro para que sempre te reconheça

e queimarei teu corpo para que ele não ocupe meu espaço.

Prometo não descansar enquanto o vento não soprar tuas cinzas.

Minha sarça vai arder e jogarei incenso na fogueira,

minha reza é brava, meu corpo está fechado

e a baba de minha alma vai envenenar o universo.

 

 

 

 

 

 

MARTELO MINEIRO

 

A falta de pão é a nossa verdade,

a lei é feita por punhais de aço,

luar de prata é nossa riqueza,

sou lá do sertão, pátria do cangaço,

zabumba bate no meio da noite,

ruas desertas, sem brisa, mormaço.

 

Justiça foge no meio do mato,

a fome aqui é cuspida e cantada,

estrelas se apagam no vão do espaço,

sóis que se perdem no leito da estrada,

as cordas da terna viola

são nervos tensos da terra sem nada.

 

Vejo esqueletos à face da luz,

um bode tira alimento da dor,

com sangue vermelho traço o caminho,

do verde da chuva tiro o calor,

creio na vida tal como ela é:

morte com fé, não como temor.

 

 

 

 

 

 

... E SOBRE ESTA PEDRA...

 

Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja

 

Em ti, Pedro, celebro

o cérebro dos sábios

e a alma dos dementes;

a vida, enfim,

e tudo o que nela há

de sórdido e sublime,

de sagrado e profano,

de plástico e clássico,

de inefável e medonho.

 

Em ti, Pedro, celebro

a vida que não tive

e a que não terás;

as penas de teu avô jornalista,

e as barbas de teu avô sebastianista;

teu pai moreno

e tua mãe branquinha;

tua avó que ensina

e tua avó que cura;

teus bisavós, tuas tias, teus primos,

o núcleo da família,

múltiplo e irreversível.

 

Em ti, Pedro, celebro

os bichos de nuvens

e os castelos de areia;

as maldades da infância

e os achaques da velhice.

Celebro o pó de que vieste

e o pó ao qual voltarei,

as cinzas de fênix

e as pirâmides sobre o Nilo.

 

Em ti, Pedro, celebro,

a biografia dos santos

e o suor das prostitutas;

o incenso dos altares

e o esperma dos prostíbulos;

as ratazanas de esgoto

e os ratos de biblioteca;

os sóis de maio e o luar de agosto;

o pássaro que voa

e o tiro que o abate.

 

Em ti, Pedro, celebro,

o perfume dos bosques

e o hálito dos rouxinóis;

o canto da mulher que fia

e o pranto da mulher que perde.

Em ti celebro o tear, a teia, o pote;

a aranha que tece

e a fera que fere;

a pele do tigre

e os braços do polvo.

 

Em ti, Pedro, celebro,

o mundo que não vejo

e o que não construí:

os muros erguidos

pelos heróis de guerra

e o sono sem repouso

dos guerreiros

após as batalhas perdidas,

sementes que brotam.

 

Em ti, Pedro, celebro

o sonho dos insanos,

o pesadelo dos normais

e a obra dos vadios,

que teus olhos abertos

hão-de ver

e teus dedos longos

hão-de tocar

e tuas pernas finas

hão-de dançar

e tua boca linda

há-de narrar:

o mundo a teus pés

— a nossa trilha

— a caminhada comum

— o nosso passo.

 

Em ti, Pedro, celebro

o medo e o espanto,

o susto e o justo,

o casto e o pecador.

celebro, enfim, a sorte.

Celebro, ainda, o sim,

pois sem sim

não há tropeço

e também celebro o fim,

pois sem fim

não há começo.

 

Mas, Pedro, tu és meio:

a pedra no caminho;

o seixo no eixo

da máquina do mundo;

e o lance de dados

do monólito

jogado no infinito.

 

 
 
 

SEIS QUARTETOS EM SI

 

Este poema vai para João Gilberto, Gilberto Gil e Carlos Vogt

 

O poeta é um traidor...

(apud Pessoa)

 

A poesia

é o lugar comum,

onde o poeta

ri de si mesmo.

 

A poesia

é um pilar incomum,

onde o poeta

cisma consigo mesmo.

 

A poesia

é um berço sem grades,

de onde o poeta

sai para si mesmo.

 

A poesia

é um buraco negro,

onde o poeta

trai a si mesmo.

 

A poesia

é um salto sem rede,

onde o poeta

cai sobre si mesmo.

 

A poesia

é um caixão sem tampa,

onde o poeta

encerra os seus mesmos.

 

 

 

 

 

 

TECHNICOLOR

 

Para Marcus Penchel

 

Rubro de cólera,

surge

o demoteu

e esbraveja.

 

Populus vobiscum, irmãos,

allons, enfants de la patrie...

 

Mais rubro ainda,

ruge,

cor de cereja,

antropoteu

       (eu)

como o leão Metro-Goldwin-Mayer.

 

Pára o andar que o santo quer mijar.

 

 

 

 

 

 

A SEARA DE SARAMAGO

 

Esta língua é minha semente,

machado de mulato do morro,

pátria de poeta lisboeta.

 

Esta língua é minha visão,

o sol do soldado caolho,

a mão do soldado maneta.

 

Esta língua é minha música,

na palavra do padre pregador,

no pássaro do padre voador.

 

Esta língua é minha mulher

tem cuidados de mãe

no leito da amante.

 

Esta língua é minha rosa,

tem perfume dos sertões gerais,

tem sabor de vinhos do Porto.

 

Esta língua é meu cavalo

para subir cidades e serras,

que a brisa do Brasil beija e balança.

 

Esta língua é fel com mel,

cantigas a palo seco

de ninar o futuro.

 

Esta língua é meu coração,

na tortura, na paixão

e no sal amargo da purificação.

 

Esta língua é jóia africana,

ela caça a onça caetana,

ela cruza a légua tirana.

 

Esta língua é fruto de meu ventre,

mata sede de amizade,

me arma nos bons combates.

 

Esta língua não é de viver,

língua de navegar e de lamber

e de dançar o tango argentino.

 

Esta língua é meu berço,

esta língua me conhece,

esta língua é meu caixão.

 

 

[imagens ©santiMB, sobre Gaudi]

 

 

 
 
 

 

José Nêumanne Pinto nasceu em Uiraúna, no sertão da Paraíba, a 18 de maio de 1951. Casado, tem três filhos e dois netos. Poeta, escritor, jornalista e Flamengo até morrer. Recebeu o Prêmio Esso de Jornalismo Econômico (com Maria Inês Caravaggi) em 1975, pela série "Perfil do Operário Brasileiro Hoje" (Jornal do Brasil) e o Troféu Imprensa de Reportagem Esportiva (com Paulo Mattiussi) em 1975, pela reportagem "Éder Jofre e o Boxe Brasileiro" (Jornal do Brasil). Livros Publicados: Mengele, a Natureza do Mal — Romance-reportagem (São Paulo: EMW Editores, 1985); As Tábuas do Sol — Poemas (João Pessoa: Secretaria da Cultura do Estado da Paraíba, 1986); Erundina, a Mulher que Veio com a Chuva — Perfil biográfico (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989); Atrás do Palanque — Bastidores da Eleição Presidencial de 1989Reportagem (São Paulo: Siciliano, 1989); Reféns do Passado — Coletânea de artigos e ensaios políticos (São Paulo: Siciliano, 1992); A República na Lama — Uma Tragédia Brasileira — Reportagem (São Paulo: Geração Editorial, 1992); Barcelona, Borborema — Poesia (São Paulo: Geração Editorial, 1992); Veneno na Veia — Romance policial (São Paulo: Siciliano, 1995); Solos do Silêncio — Poesia reunida (São Paulo: Geração Editorial, 1996); As Fugas do Sol — CD do CPC-Umes (São Paulo, 1999, com música original do maestro Marcus Vinicius de Andrade); O Silêncio do Delator — Romance (São Paulo: A Girafa, 2004, Prêmio José Ermírio de Moraes, da Academia Brasileira de Letras). Em coautoria: Partidos e Políticos (Rio de Janeiro: Editora JB, 1986); A Constituição que Nós Queremos (Rio de Janeiro: Editora Salamandra, 1988); Jornalismo é... (São Paulo: Zenon, Associação Brasileira de Anunciantes e Associação Brasileira de Imprensa, 1997). Selecionou e apresentou a antologia Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século, para a Geração Editorial, 2001. Mais na Estação Nêumanne, aqui: www.neumanne.com.

 

Mais José Nêumanne em Germina

> Na Berlinda