O BARCO BRANCO

            Em memória de João Guimarães Rosa

à distância discreta da terra
um barco viaja pelas costas do Brasil
todas as noites, só pelas noites
nele não brilham luzes nem vem dissimulado
lá está sempre que alguém se lembra de procurá-lo
do alto da amurada de uma avenida tropical
das varandas panorâmicas dos arranha céus
ou das encostas dos morros, das favelas
está ele a boiar sem vida a bordo
e contra a escuridão do mar que se perde no horizonte
parece ancorar-se num só lugar
parece que o lugar onde aparece é seu lugar
mas não dura muito esta visão
para os que se recordam acalentá-la
porque tem o barco branco moto próprio
e seu destino é contar sempre os mesmos sítios
verificar se cada baía, cada pedra ou praia
seguem lá onde ele as havia deixado
se do Forte dos Reis Magos à boca do Amazonas
o movimento das dunas não se descontrolou
se a Ilha do Mel no Paraná ainda brinca
entre a Serra e a fria correnteza antártica
se o Monte Pascoal não foi de todo desmatado
se de Torres ao Uruguai nos mangues
os patos fazem imemorialmente os ninhos
sua missão é voltar a medir a altura
das torres da Igreja da Conceição da Praia em Salvador
observar a estabilidade ou a ressaca nos estuários dos rios
que revelam se houve chuvas no interior
se os casais de turistas de São Paulo
continuam a fazer o amor repetidamente,
aos bandos, aos gritos,
nas areias nem sempre limpas de Monguaguá
não tem descanso, o barco não tem sossego
vela pelo litoral do país que mergulha
nas tintas foscas de um mar soturno
não há ninguém a bordo que possa ser surpreendido dormindo
por um evento inesperado
ninguém que se responsabilize por sua rota
pelo quê naquela noite ele há-de reencontrar
ninguém que se encapriche por um rincão
nenhum provinciano que queira guardar melhor
as costas do seu estado
ele segue, mais nada, todas as noites
e branco, e este brilho que tu vês nele
vem das estrelas além no céu
e do plâncton que o circunda
à flor d'água, à distância discreta da terra
entre o Brasil e o nada

 

 

 

(New Haven, Connecticut, 1985)

 

 

 

 

 

 

ONZE TEMPOS DE PASSEIO PELA PAULISTA

 

Um

Joaquim Eugênio de Lima

 

Não queria ver

o que vejo na tela

de teus cinemas enormes

teus templos

consentidos.

 

 

Dois

Campinas

 

Que merda

andar na chuva suja

da Paulista

não queria

não queria oh cidade

teu sortilégio

que me fascina.

 

 

Três

Pamplona

Viajo

prismas de vidro tua constante

cidade que é viaduto para alguma coisa.

 

 

Quatro

Museu de Arte de São Paulo

Penso repenso muito tempo

teu sortilégio que é meu

viaduto onde renasço

frágil

com raiva

teu observador tornado prisma

carne branca como a cal

das tuas construções

ah eu renasço sempre nos teus viadutos

de onde me carregas para algum lugar cidade.

 

 

Cinco

Peixoto Gomide

 

Banho na cal.

Banho-me cotidiano de cal cidade

Tu me banhas de ti com tua cal

Ah cidade meus glóbulos brancos

São feitos de tua cal.

 

 

Seis

Rocha Azevedo

Ah teu fígado!

somos teu fígado.

Ah tua cirrose!

queremos tua cirrose,

mesquinha fruta da cal

sua pedra branca

cidade

suja.

 

 

Sete

Frei Caneca

Onanismos

em todos

organismos.

Cidade merda taí

devolvemos teu sortilégio

de cidade suja onde começa a minha raiva

                   onde me descubro também

                   filho da tua cal

espécie do meu sangue

incapaz de te afogar no jorro que quisera.

 

 

Oito

Augusta

Nos afogas na cal.

 

 

Nove

Haddock Lobo

 

Não me finques teu orgulho de Metrópole!

eu fico por teu orgulho de metrópole

cega.

 

 

Dez

Bela Cintra

 

Fico para cegar,

Os que nascemos

Com a boca cheia de cal

(tua sina tua sarna teu cheque em branco)

que se confunde aos dentes teus

nossos dentes cariados de cidade.

 

 

Onze

Consolação

Observamos

len-ta-men-te

empapados

empapando-nos de tua chuva hostil,

cidade suja,

calcinada.

 

 

(São Paulo, 1976)

 

 

 

 

 

 

DEZESSEIS GRAUS NA PAULISTA

 

I

 

dezesseis graus na Paulista

 tinha o verso tão estruturado esta manhã

e dirijo no fluxo

                 nunca houve lugar mais belo

                 nem cidadão mais fiel

 


 

II

 

chamam-te floresta de concreto    urbe d'aço

exageros         

tomo emprestado

olhares migrantes        aves d'arribação

fixei a ventania que juntou montes

d'outonais folhas na sarjeta

o céu brilhava

diadema d'Imperatriz

mulher que nunca tive

 


 

III

 

pude voltar com o meu olhar estranho

que sabe desnudar as tuas topografias

luxo supremo         

agridoce:

ninguém dirá que és

"um ninho de pelicanos"         

por aqui

nenhuma falésia

                            ainda que

                                               gratuitas

adornem bromélias as tuas

                                               árvores

 

 


 

IV

 

Clima de serra      disse a Vera

o momento exalou inspiração

quase ninguém conecta com ele

                                               teus

uma vez pristinos rios

transformados em

esgotos

                                      — quem o negaria?

exiges um olhar educado

                                      em

constante educação

                            que restitua a matéria

para lá do coriáceo do teu corpo

 


 

 

V

 

pude voltar

                   luxo supremo

Koh-I-Noor da coroa inexistente

                   só intuída

para sofrer as epifanias

necessárias

cidade vestibular

         vestíbulo para alguma coisa não lírica

         também lírica

         pré-

semi-

         para-

         meta-

         pós-

         ante-

         trás-

 

 

 

VI

 

já o sabia

         há trinta anos o sabia

não passou o tempo

o deambular permanece

                           

quando não me encontro perto

         ou dentro de ti

exilo-me e dói

                   — quem compreenderia?

os capazes de extrair beleza

do pó acumulado

sobre um arame farpado?

 


 

 

VII

 

Boa noute             professor de esquina

Sweet ladies

oh flowers of England   boa noute

 

um uruguaio havia há pouco na sauna

ou paraguaio              um cearense             um italiano

de membro parrudo como o de Michelangelo

um coreano              trabalhadores

teus

cidade viril

                   ou amante virago

suculenta virago

                   transformas em espetáculo

os teus corpos densos

         que ao olhar educam

         e satisfazem

 


 

 

VIII

 

vi o paraguaio extraviar-se na noite

                            perder-se em tua

                            magnífica maquete

e me confessei a palavra agridoce

         — que impressões ficarão de seus tênis

         sobre a rugosidade do meio-fio?

partículas de desamparo

         aquele frotar oitocentos metros

                   rumo ao metrô

                           

breve subirá o dia

prevê-se uma manhã nublada

como uma estocada

 


 

IX

 

dezesseis graus na Avenida Paulista

sucedem-se esquinas

Peixoto Gomide      

Rocha Azevedo      

Joaquim Eugênio de Lima    

Frei Caneca

Augusta

         conselheiros do Império

         o urbanista uruguaio

         o religioso autonomista

         a rua que remete a Lisboa

e tudo atravessa o teu nome de cidade apostólica:

 

sob o signo de Saulo

anuncias o nosso caminho a Damasco

e levarás o seu nome a todos os rincões

esta a tua vertigem

                            clima de serra

esta a tua

                   missão

 

até as bromélias e as epífitas

   concordam

e entoam teu

hino


 

 

X

 

incessantemente

         aqui não importa ser noite

         ou dia claro

no chiaroscuro pinta algum

Caravaggio anônimo

                            a Paulista

é teu caminho a Damasco

na América

you will prevail

                            — as folhas mortas

estarão recolhidas amanhã

antes que as hélices dos teus helicópteros

as desfaçam

                   irei com elas para o nunca jamais

                   te abandonarei

                   como faço agora


 

XI

 

onze tempos de passeio redivivos

te percorro em três minutos

                                      cubos

                                      cubos

                                      cubos

folhas que se dispersam

 

sim vou com elas

                            rumo ao meu santuário

                            interior

                            no chiaroscuro me ilumino

deslindo o que há

o agora

o agora é o que há

o onde é o agora

sob os teus

cascos

 

 

 

 

(São Paulo, 17-19/VII/05)

 

 

 

 

 

 

TRANSFORMAÇÃO DO OBJETO

 

Objeto transformado:

Eis-me aqui procurando em tua re-forma

Teu trabalho anterior, tua sombra

Que se alongou em minha memória tua,

Em minha sempre nossa memória de contatos cotidianos,

Que afastaram tua presença de meus olhos,

Tornando-te privilégio

De meus dedos compressores.

 

Retomo agora nosso contato,

Re-amigo arrependido,

Consciente de teu poder maior que o meu

— Teu poder silencioso,

Tua alma que é tabela de claros e escuros,

Onde me insiro

Com docilidade. Manso animal

Na esteira dos teus dias e noites,

Recupero as dobras

De meu Nome.

 

                   Que me levas ao sonho

                   De te transformar/mos

                   Ainda mais:

                   Quero te ver/mos

                                      Mutantes

                   Burlando a fronteira do tempo

                   E do espaço.

 

 

 

(São Paulo, 1976)

 

 

 

 

 

 

OBJETO A

 

I

 

Cada vez mais fugidio

O Objeto A. Neste plano, ainda

Visível contra o horizonte.

Os contornos já não fotográficos,

Sujeitos a um olhar desfocado

Ou tremulante. Ainda.

Objeto A fui eu naquela tarde

Chuvosa no roseiral, com a

Maria Nadyr. Quisemos transformar-nos

Em nuvem ou vento. As rosas

Estavam à mão: espinhosas,

Não nos inspiraram. O dia

Conjugava-se inconsciente de que

Seria rememorado quarenta anos depois.

E logo, o silêncio.

 

 

II

 

Ou o barulho. O número do contribuinte

Não esquiva a ficção ruidosa

Da qual descende. Passei pelo revendedor

De rações e lá consumi a minha.

Sob um sol escarninho. A pele

Rizomatizando-se em samambaias.

Os dentes alinhando-se num mudo

Relincho. O Objeto A parece irisar-se

Antes do ponto de sua fissura

Ao final da tarde. Sou parte

Dessa condução, penetro um agora

Que mantém a aura. Ainda.

O teto de madeira, a 5,40 metros,

As vigas musicais, o crepitar

Infinitamente reconfortante

Enquanto durou. Ou durava.

Já não sei qual a conjugação

Adequada.

 

 

III

 

Objeto A: eis-te aqui ainda

Sujeito a uma cifra crepuscular.

Nenhum sinal de que não sobrevives

A não ser em mim e pouco. O tangível

Nada envia em sinais.

Não sou o mesmo e já

Não identifico as, sim,

Correspondências.

                            Afasta-se

Rumo ao nada o Objeto A?

Perdê-lo para lá do horizonte

Será também perder-me?

Apenas a memória satisfará,

Despida de sentimento e míope?

E sua sobrevivência simples,

À morte já não equivalerá?