DERRADEIRA SOLIDÃO
SÓ,
NO PÓ.
E
SÓ.
ALERTA
Água, água, água,
Vejo um mar de baleias com sede,
Vejo um deserto de águas retirantes,
Vejo o cinza a repintar o verde.
Água, água, água,
É o sal que fugiu da terra,
É o pó que espera pela vida,
É a paz com jeito de guerra.
Água, água, água,
O alento aos poucos se expira,
Na fanfarra cretina dos discursos,
Onde o homem é a grande mentira.
Água, água, água,
Vejo cemitérios de asas no chão,
Vejo alvoradas de poeira no ar,
Ouço um mutismo de silêncio-inação.
Água, água, água,
Não há tempo para lágrimas, morre o pranto,
O espinho sobrevive sem a flor,
O amor se esvai no desencanto.
Água, água, água,
Nem fauna, nem flora, nem essência,
O racional se opõe à natureza,
A duidade é quebrada na demência.
Horror insano e tão previsível
Numa voragem destrutiva insaciável
Mas, se o homem se vestir logo do juízo
Ainda poderá se despir do inevitável.
MUITOS ANOS DEPOIS
Pouco me importa o que teci, o que perdi,
As lágrimas, as saudades, os desencantos,
Tantos disfarces, infernos, tantos véus,
E quantos céus que eu rejeitei, e quantos.
Pouco me importa agora esse tempo
Que traçou rugas, desenhando o envelhecer,
É o mesmo tempo que hoje pára e escuta
O que a vida sempre me ouviu dizer:
Eu te amo.
ARDENTE DESEJO
Vem dormir nos meus sonhos,
Traz promessas aos meus desejos.
Sem pejo, despudoradamente,
Pressente meus anseios,
Me banha com teus beijos,
Me inunda de paixão,
Conduz a minha mão
Ao encontro dos teus seios
E, sem pressa, devagarinho,
Ensina-lhe o caminho,
E deixa que meus dedos,
Na avidez da ansiedade,
No roçar de mil meneios,
Te incendeiem de emoção o peito.
Flutuarás então na excitação,
A mesma que todas as noites
Me põe na tua direção,
Vagando em pensamentos
Buscando nossos momentos,
Esperando que de repente, num açoite,
Saltem do imaginário pro real
E nos atirem do sonho para o leito.
A ÚLTIMA NOTÍCIA
"Atenção, muita atenção
Para a última notícia".
(e seria a última mesmo)
A voz lúgubre noticia
No espaço vazio, a esmo,
A última notícia.
Nem chegou a ser a última
Porque não chegou ao fim.
Nem mais ouvidos havia
Para escutar a notícia.
A cidade ficara surda,
A pátria estava surda,
O mundo já nada mais ouvia.
Nem ouvia o beija-flor,
Nem a flor mais pediria
Um beijo ao beija-flor.
Nem o amor venceria,
Nem o amor ouviria,
Fora vencido o amor.
A aurora ainda viria
Mas, não acordaria a vida
Que também fora vencida.
A lua ascenderia
Descendo seu prateado
Nos corpos dos namorados
Que também já não amavam
Mas, estavam abraçados.
Na solidão do mundo sentei,
No silêncio da vida chorei,
Olhei para o alto e orei.
Mas, ainda haveria Deus?
O sinal estava verde, pra nada.
O vermelho parara tudo,
Crentes, dementes, ateus.
Só uma barata atravessava a rua.
O trânsito, parado e mudo.
O mar fugira no horizonte.
No horizonte havia um monte
De ossos partidos,
De ferros distorcidos,
De verdade nua e crua,
De justiça social.
Enfim todos eram iguais,
Estavam nivelados no nada.
O nada então era tudo.
Pacifistas, ecologistas,
Políticos, poetas, o bem, o mal,
Enfim todos eram iguais.
Não se ouviam protestos mais.
Apenas eu tinha ouvido
Um derradeiro gemido
Mas, não a última notícia.
"Atenção, atenção..."
E não havia mais plantão
E nem havia notícia.
Perplexa e intrigada
A barata me encarava.
Eu era um resto de nada,
Ela, um saldo de tudo.
Pensei: "A História, a Ciência, a Cultura,
Tudo, tudo agora perdura
Na poderosa barata".
E perplexa ela me olhava
Enquanto eu expirava
Junto com a paz fictícia.
Foi aí que eu percebi
Que para a barata eu era:
"A última notícia".
MAGIA
No alto da duna branca
A vida pousa e descansa,
Meu pensamento na escuna
Velejando em lembranças.
O vento que vai passando
Me chama para o momento
E vejo o sol bocejando,
Discreto, se escondendo,
Sem pressa, suave, bem lento.
As cores vão desbotando
Apagando mais um dia,
A noite vai se espalhando
Trazendo de volta a magia.
O poeta acende as estrelas
E enfeita o palco noturno,
Alegres duendes vêm vê-las
Até um pigmeu soturno.
O sorriso da lua cheia,
Que alceia, ilumina o mar
Com as fadas a espreitar.
No ar há murmúrios de preces
De crentes, doentes, amantes,
Que os anjos, seres mutantes,
Vão entregá-las aos santos.
Lágrimas, sorrisos, espantos,
O encanto dos narcisos,
O medo dos desencantos,
A ciranda dos indecisos,
A profecia dos insanos,
A calçada dos excluídos,
A injúria dos profanos,
A angústia dos oprimidos,
A vergonha dos desonrados,
A vigília dos perseguidos,
O riso dos dissimulados,
O desprezo dos abjetos,
A fé que não desanima,
A mão que esqueceu o afeto,
O verso que perdeu a rima.
A voz da noite confia
Muitos segredos ao vento
Enquanto mil pensamentos
Planejam na fantasia.
Nas trevas o silêncio vigia,
A morte se confunde ao sono,
O mistério se refugia,
A vida acorda pro sonho.