estava tão tampouco

que destampou e saiu

o oco

 

 

 

 

 

uma coisa que escrevi sobre você

ou poema cá entre nós

quando você cala comigo

faz riacho de som apertado

faz barulho de mar ao contrário

faz castigo de não bagunçar

quando você fala consente 

com sentimento consegue gritar

 

 

 

 

 

eterna

a menina do lado de lá do muro do cemitério cultiva almas em seu jardim

 

todo dia de sol ela as colhe e leva para o passeio

mal sabe ela que isto é a morte

mal sabem elas que isto é a vida

 

e tem mais,

o namorado da viúva roubou a alma de um negro-velho para lhe enfeitar a trança

:triste sina de negro escravo

 

seu finado marido, que fora um homem honrado, trazia, no dia do seu casamento, na sua lapela encravada, uma senhora que já fora da vida.

 

 

 

 

 

oãn em atsuc ratse odarre

elav ao odot o oceamocer

siop es a etrom é o otnemicsan

an arutile od avesso<<

 

 

 

 

amo-te como te amo
como te amo te como

 

 

 

 

quero enxergar o mundo
com outros olhos
alguém pode me emprestar
um par?

 

 

 

 

o som
não encontra
uma orelha
para se aninhar

 

 

 

 

Pode um vaso
Enfeitar uma flor? (logo,)
Você me estranhar
Não é estranho?
Às vezes o céu
Não é azul, nem cinza
É castanho

Enquanto você lava
O cabelo, eu me banho.
As ondas quebram na praia.

 

 

 

 

o silêncio

dos passarinhos

não ousa cruzar

o meu caminho

 

 

 

 

olhando pra caixa de sabão

rompo o lacre do paradigma da evolução

 

o (h)omo sapies insiste em pagar sempre o mesmo mico

o (h)omo macaquiens insiste em pagar sempre o mesmo sapo

 

trabalha trabalha trabalha seis da manhã ônibus lotado aperto sufoco suvaco aff graças a deus trabalho trabalho stress stress oh yeah stress fast food fast fode câncer trabalho stress stress oh yeah oito da noite ônibus lotado aperto sufoco suvaco aff graças a deus casa família fast foda ronc ronc zzzzzzz trabalho seis da manhã ônibus lotado aperto. todo santo dia. trabalha trabalha

 

sapiemos que somos homos. mas sapiemos se somos sapiens?

sapiemos que somos homos. mas sapiemos se somos sapiens?

 

(sapia que o sapiá sapia assupiá?)

 

 

 

 

carrego na cabeça,

além de palavras,

cabelos, que atentos

seguem a lógica do vento

 

carrego na cabeça,

além de palavras,

cabelos, que ao toque

seguem a lógica do choque

 

carrego, ao toque do vento,

palavras que não servem pra esta imundície

e cabelos mudos que seguem a lógica da calvície.

 

 

 

 

 

bang

tentando entender em vida

o que a morte lhe havia feito

escreveu uma caixa de sonetos

juntou pés e foi direto ao assunto

assinando seus versos concretos

com o dibao de um tiro no peito.

 

 

 

 

só tinha olhos

pra vanguarda,

então viu a rosa

 

 

 

 

tem um porquê

de mim. em todo

não que diz sim

 

 

 

 

sabe estas palavras

que você esparramou

sobre minha cama?

vou dormir sobre elas

como se nada tivesse

acontecido. só o amor.

 

depois escrevo um poema

 

sabe estas palavras

que você jogou

sobre meus braços?

deixa pra lá. um abraço.

 

depois te digo adeus

 

 

 

 

a bailarina fitava o palhaço

num céu de estrelas na lona

seria estrela um desvio no olhar

ou a bailarina que era caolha

 

 

 

 

 

chove maio

                ou menos

chove tudo

 

   não chove eu

                   mudo

 

 

 

 

borboletras são assim

enfeitam os céus

com as cores que roubam

de mim

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
(ilustrações ©Eveline Gomes)
 
 

Daniel Minchoni. Poeta, palhaço e diretor de arte. Fundou, junto com amigos, o grupo Poesia Esporte Clube (PEC). Em 2004, recebeu menção honrosa no Concurso de Poesia Luís Carlos Guimarães. É um dos membros fundadores do selo Jovens Escribas, pelo qual lançou em co-autoria com a ilustradora Eveline Gomes, o livro de poesia Escolha o título. Atualmente, trabalha nos seus próximos livros e em projetos paralelos de experimentação poética em outras mídias. Assina a coluna "Mal Bendito" no Diginet.