Carnes inéditas

 

Foi no meio da praça, sob o sol escaldante da uma hora da tarde. Melinda levou a mão canhota à bochecha direita de Emílio fazendo soar o tapa sinfônico do verão. A mão ardeu em brasa, como vinha acontecendo entre as pernas desde que conhecera Emílio.

        

O rosto do rapaz guardou os quatro pequenos dedos da moça, que em prantos pedia a explicação de uma traição sem sentido. Emílio era adepto das traições sem sentido, gostava de paquerar as moças da Vila Madalena, tinha Melinda para se assegurar na vida, fazer jus ao culhão, criar os filhos e vez ou outra escapar pra um motel barato e comer carnes inéditas.

        

Ela chorava e fazia questão de derramar seu momento líquido sobre o vestido azul de hibiscos, formando pequenos pontos escuros como gotas de chuva. Melinda chovia por dentro há muito, mas não percebia. Antes mesmo de sentir a carne molhada, secava-se nos braços do namorado malandro e o sol fazia calor entre a pupila e córnea escarlate.

        

Emílio olhou-a com raiva, ela podia ver sua jugular em alto relevo sob e pele queimada de sol. A jugular dançava sexualmente, ela tinha palpitações quando prestava atenção aos detalhes entranháveis do namorado e isso ardia seus poros, queimava sua inocência de ex-puta da Avenida Paulista.

        

Melinda olhou para os lados e aspirou todo o ar dos transeuntes a sua volta. Amava aquele moço dos cabelos louros e os óculos vagabundos de feira, mas tinha que dar-se um momento sozinha, tinha que pensar se aquilo era mais importante que a família que morava entre pedaços de papelão perto do Tietê.

        

— À noite a gente conversa.

        

E saiu.

        

Emílio não queria conversa, noite de sexta-feira era noite de sexo. Sem essa história morna de conversa. Ele sabia emudecer em cima, e umedecer embaixo, e quando o fazia, Melinda esquecia dos problemas e se entregava ao inferno fátuo que ele proporcionava. Era tiro, e logo em seguida uma queda gostosa de suores sobre o lençol amarelado do velho enxoval.

        

Melinda subiu a praça, contornando uma esquina que abraçava uma grande banca de jornal, e foi ter com as árvores de um parque próximo. Gostava da essência verde das árvores, da alma esmeralda que refulgia entre o sol e o chão, como naquele dia quente.

        

Sentou-se sob uma das árvores e chorou mais. Os pequenos cristais líquidos caíam entre os seios, no decote do vestido, escorriam até o umbigo e paravam cansados, salgados. Faziam culinária corporal com o suor que vinha dos genitais.

        

Ela olhou em volta e viu alguns casais namorando. Precisava deixar de ser trouxa, teria que viver sua vida confortável com aquele homem mesmo, aquele que não amava, mas que a satisfazia entre as quatro pequenas paredes construídas com tanto trabalho. As pessoas se amavam, se ela amava Emílio daria sua nova vida inteira a ele, sem pensar em trocas. Ele poderia fazer o que quiser, ela precisava de um homem, não de um anjo da guarda.

        

Levantou-se decidida, desejando a textura e os volumes daquele homem que era sua comida e casa de todo dia, e fluiu mentalmente um adeus às arvores que a vigiavam.

        

Foi atravessar a avenida que antecedia o parque, mas não viu o sinal verde. Enquanto o verde morria em amarelo, o vermelho do semáforo escorreu pelo cano de ferro, espalhando a carne estraçalhada sobre o asfalto.
 

 

 
 
 

Noite de pizza

 

Contraiu o abdômen e fechou os olhos. Em seguida soltou o ar que guardava nos pulmões de cristal rachado e abriu-se novamente para o mundo. Desligou o ventilador a fim de ouvir a chuva que encharcava o quintal da frente.

        

Seu quarto virou silêncio chuvoso, estranho, ar molhado de coisa inexistente. As letras escarlates no papel a sua frente estavam fechadas, virgens, brancas. Elas esperavam pelo ato do sexo, prontas pelo orgasmo poético que incandesceria o início de noite.

        

O céu não estava roxo, como a marca do joelho. Já era mais que negro, já estava opaco como sombra de profundo. Fundo. Bem fundo, tocando interiores alheios.

        

Havia um calor estranho por debaixo da nuca, e uma ardência gostosa na testa. A dor nas costas era amenizada por um movimento repetido dos ombros. Era o osso transando com a carne. O tutano engolindo a medula, fodendo-se.

        

Igual. A chuva era igual em cada gota. Poderia chover uma única gota, o som seria o mesmo, desde que continuasse batendo sobre a lata velha parada em frente à garagem do vizinho. Não era do vizinho, mas estava em frente a sua casa e buzinava incomodadamente. Chamava por alguém que não gostava de chuva e se sentia entediado de sair aquele horário para comer pizza.

        

Esse alguém era ele, ali. Sentado com a ardência na testa e o sexo pungente lhe incomodando na calça apertada.

        

Abriu a janela e fez um gesto com a mão para que esperasse. Não queria comer pizza, sua comida era a carne que estava no carro. Imaginou um ser humano enrolado numa fatia de mussarela e balançou a cabeça.

        

Levantou-se com o cheiro da pizza dentro da boca. Comeria o que pudesse e quanto agüentasse. O sexo, estourando por detrás do zíper, tinha o mesmo pensamento.

        

E que ela não reclamasse, senão pediria a sobremesa.

 
 
 
 
 

 
 
 

O morango sobre a mesa

 

O que o gato fazia sobre a cadeira de palha enquanto observava a mesa central da cozinha era um mistério. Talvez não existisse tal mistério, e quem sabe o gato estivesse apenas querendo perder tempo. Era um típico gato cinza, destes que se camuflam no sofá e são confundidos a toda hora, não se sabendo se é sofá ou gato, ou felino ou tecido aveludado.

        

Eu mal havia colocado o primeiro pé na cozinha quando o vi, Rofo. Um gato negligente, quase fora de regra e qualquer questão ética. Pouco comum prum gato ficar assim na cozinha, a não ser quando usa as bandejas de carne e sardinha como programa televisivo.

        

Rofo era o típico gato que nunca iria com a minha cara, porque eu era mais alto e eu comia sardinhas. Ele ganhava uma ou outra quando todos comiam, quando eu o fazia, preferia comê-las no meu quarto ao som de um jazz. Rofo odeia jazz. Todas as vezes que ligo meu rádio com este som, ou encontro Rofo sobre o telhado do vizinho ou no porão da casa.

        

O pé com o qual eu havia entrado na cozinha era o esquerdo. Mau começo, eu sabia. Disputar aquele território com Rofo era de praxe, quase que como uma regra, imposição desde o meu nascimento. Eu já havia perdido a conta de quantos anos aquele gato empoeirado tinha, talvez mais que a minha avó, afinal bicho é instigante, ultrapassa qualquer entendimento humano e temporal.

        

Ele desviou o olhar para mim. A mesa havia deixado de ser o centro das atenções. Agora seria eu. E ele. E a cozinha como cúmplice de um crime que eu já temia. O gato iria me expulsar dali, com suas unhas afiadas. Aprendi cedo que os gatos sabem usar unhas e dentes, por isso levava comigo uma cicatriz na testa em forma de J. J de jumento.

        

Deixei de olhar para ele. Não merecia esta atenção toda que eu parecia dar. Aí eu vi. Um reluzente e suculento morango estava jogado sobre a mesa da cozinha. Um único morango, avermelhado, quase em sangria desejosa. E eu imaginei cada gota daquele suco contido na fruta sendo levado pelo meu organismo. E meus dentes partindo aquela pele perfumada.

 

Mas Rofo também queria o morango. E parecia querer disputá-lo comigo. Não queria saber de peixes, mimos, cozinha, Erla (a gata da madame ao lado), cama, água, nada disso. Queria o morango. O único morango que eu vira em dias. Desde quando gato se interessa tanto por morango? Ou por uma única fruta jogada sobre a única mesa que mede mais de dez gatos empilhados? Achei que estava ultrapassando a linha inimiga. Aquele gato já fazia suas experiências psicológicas, eu já podia senti-lo mexendo com meu cérebro, afinal quem imaginaria aquela cozinha como um campo de batalhas, um território minado na Tchecoslováquia? Eu.

        

Percebi que o morango parecia ser melhor do que o imaginável. Rofo se esquivou para outra cadeira, ainda mais perto da mesa. Agora parecia querer controlar a situação toda. E a mim também, pois eu já estava a três passos da mesa. Sabia que pegar aquele morango me custaria caro, talvez apenas guardasse mais lembranças cravadas no rosto, talvez um C de covarde ou de corajoso, até demais.

        

Dei outro passo. Se esticasse minha mão estaria muito perto de um paraíso gastronômico. Um morango grande e gordo, vermelho e simpático — todas as características de tia Frida. Engraçado como algumas frutas se parecem com nossas tias.

        

De repente um miado alto entrou pela janela da cozinha. Rofo ergueu os bigodes cor de chuva e saiu pela porta que dava para os fundos. E então eu peguei. O morango estava em mãos, devido a um miado vindo dos céus. Pensei que fosse Erla parindo, mas quando Rofo voltou parecia estar contente. Então Erla não havia parido.

        

Olhei para ele com meu maior sorriso de satisfação. O sorriso do triunfo, da vitória. Imaginei aquele morango numa redoma de cristal, dentro de uma taça de ouro, envolta pelos meus braços e milhões de morangos contentes correndo atrás de mim. Um pomar andante.

        

Rofo parou insatisfeito ao lado da porta e lá ficou. Por um momento pensei que sorria, como que para debochar do inexistente. Então mordi o morango com gosto. O suco explodiu entre os dentes e foi resvalando pela língua até desaparecer.

        

Abri meus olhos e vi a vitória brilhando nos olhos do gato. Dentro do morango havia uma grande mancha preta. Preta de podre.

        

Então senti. O morango tinha gosto de graxa, cor de fruta putrefata e aspecto de defunto. Grande vitória de Rofo.

        

Nem sempre as tias são tão simpáticas.

 

(imagem ©nrgie)

 

 
 
 

Poético enlaço

 

Traz de mim o abraço

Num beijo, aparte
Derrama escarlate
Os corpos no espaço

 

Venta assim, que eu faço
Poesia em tua arte
Num oceano, amar-te

Versificar teu passo

 

Rasgue o papel almaço

Deixe que a lua enfarte

Espargindo em nosso baluarte

A beleza ornada num laço

 

Entorna teu verbo d'aço

Na minha frase de encarte

E assim conseguir encantar-te

Com meu poético enlaço.

 

 

 

 

 

 

Patriotismo

 

na rua, racha-se o sol
e a chuva degola os espasmos
o sangue ressoa ácido
— num berro

o menino suspira
seus últimos sonhos
abandonando o corpo 
— perfume de ferro

mordendo a língua
choro em verde e vermelho
e puxo a morte
— aflição gentil

meu corpo explode
em retalhos de carne
— pátria amada Brasil!

 

 

 

 

 

 

Você menina

 

você menina, do cabelo d'ouro
ventania flórea das belezas
arranca-te todas as tristezas
que deixarem os vindouros

você menina, do sorriso prata
que assim macia, a poesia dilata
fugaz, inebria a noite que tisna
os teus profundos olhos de prisma

você menina, d'alma preciosa
refulgente canto das estrelas
sonha flores de amor em prosa
com a certeza de vê-las

você menina, de amores clandestinos
que explode livre em desatinos
aquece melíflua o olhar que irradia
qualquer instante de calmaria

 

 

 

 

 

 

Soneto

 

Sobre minh'alma atenua-se o mundo

Em pálido sonhar me morro em ti

E se o brilho que te engrandece ali

Fosse surgir do teu sono profundo

 

Sobre minh'alma a primavera canta

Cria asas, poesia para o bem-te-vi

Sou a dor que de tão rasa não sofri

E sangro a minha latescência santa

 

De tão mudo teu corpo grita um canto

E estremecemos assim no verso brando

Nascimento enfim brilhoso de nós

 

De tão cego teu sorriso que encanto

Floresce os canteiros que vão rimando

A poesia ardente dos lençóis

 

 

 

 

 

 

Um pingo de noite

 

um pingo de noite

rompe-se

escorchando 

a pudicícia celulósica

que enfarta

sob o ponto

 

final

 

a mão

pressiona

os dedos

letárgicos

que

encarniçados

gozam

exsudação lunar

 

 

 

 

 

 

Se

 

se por entre as pernas o dia escorre
e a noite lamacenta parteja a luz
é na sombra escura que o corpo morre
agonizando desejos presos em cruz

se na lâmina fria teu sangue verseja
vontades ocultas de um sexo lunar
perfuro tua pele em vermelho-cereja
gritando e tingindo teu verbo amar

se na tua carne espalmo saliva perolada
palavras líquidas em fragmentação
vem agora morder minha madrugada
que lateja ébria de tanta paixão

 

 

 

 

 

 

Último soneto

 

No meu leito adormece alguma noite
Num triste canto em que se apaga a vela
É de todo cheiro que se revela
No sangue fervente do meu açoite
 

Num suspiro infindo sinto morrer
Gorjeando aos altos pálido fim
Sentindo abrir asas de um querubim
Que entre sombras cinzas vai me absorver

 

Quebra-se a noite entre os servos espaços
Do corpo mefítico que inebria
Meu etéreo piscar suicidei

 

E rasga-se vermelho o sol em laços
Destruindo minh'alma em agonia
Toda vida branda que deslindei

 

 

 

 

 

 

Platonismo

 

Na ilusão destas vontades tu me afagas
E mesmo em vácuo sinto a brisa triste
Sorumbático, grita um não que existe
E agora vês estes olhos que alagas

Na solidão inócua que aclimata minh'alma
Há um triste choro que derrete estrelas
Sem teus olhos como poderei vê-las
Enquanto cega, minha essência se espalma

Na amargura do lustro que me escorre
Tu congelas o instante que devora
Toda vida que eternamente se demora
Num suspiro que impulsivamente morre.

 

 
 
 
 
 
 
Alex Sens Fuziy (Florianópolis-SC, 1988). Seu ópio é a escrita. Tem trabalhos publicados em sites de literatura e um poema na antologia Corpo e Alma em Verso e Prosa. Tem um livro de contos ainda inédito, escreve um romance a ser lançado até o fim do ano de 2007 e no blogue Coisas que Ninguém Deveria Ler. Vive no sul das Gerais.