A literatura é uma arte oral. A contação de histórias caiu no gosto do ser humano muito antes de a escrita ser inventada. Pais e filhos, desde a antiguidade, se conectam, aprendem e ensinam uns com os outros por meio da criação de personagens, de situações fantásticas e de enredos que ativam a curiosidade infantil.

A literatura é uma arte visual. Os enredos são encadeados por parágrafos impressos, mas os parágrafos escondem imagens e cores, que vão surgindo na mente do leitor e do ouvinte para se cristalizar ao mesmo tempo em que a criança pede: "Conta a história de novo!".

A literatura tem cores, sons, cheiros e gostos. E suas histórias são palpáveis, pelas pálpebras da mão, que vira as páginas, que vira as noites, que viram sonhos, que viram verdade. A ficção infantil é a realização do amanhã adulto. E é com cheiro de um amanhã mais gostoso, que saudamos a chegada às livrarias da estreia literária da escritora Lica Ayres e seu doce e mineral livro O coelho Chocolate e a pedrinha Preciosa (Flamingo Edições, 2019).

Em poucas palavras, o livro trata de uma busca. Uma busca que toda criança realiza: a busca da identidade infantil, daquilo que é único nela, criança, e que a distingue das outras crianças e dos adultos. Entender-se e aceitar-se é uma atitude fundamental para que a garotada possa explorar suas potencialidades, suas sensações e seus gostos, sem muito desgosto.

Lica Ayres escreve uma receita de bolo que se come nas férias na casa da vovó. Mas o bolo gostoso, se não for tirado do forno no momento certo, pode queimar. O coelho Chocolate e a pedrinha Preciosa é um livro que mostra que cada criança tem seu ponto de assamento, sua receitinha única, cujos ingredientes e modo de preparo também podem ser chamados de crescimento.

O livro narra a história do coelho Chocolate, que vive na Cidade dos Coelhos, "onde todos os coelhinhos possuem um colar com uma pedra preciosa exclusiva, que os fazem especiais". Porém, Chocolate, no lugar em que deveria ter uma pedra, tem um colar com um vazio, o que o deixa triste. Para preencher o vazio, Chocolate precisa encontrar a sua pedrinha preciosa. A busca de nossos objetivos, o livro ensina, se dá pelo olhar cuidadoso do ambiente que está próximo de nós, palpável, e não no distante e no abstrato. O próximo e o distante brincam com o espaço que habitamos.

O ambiente é, à primeira vista, urbano, a tal Cidade dos Coelhos. No entanto, a busca do protagonista é por uma pedra preciosa, uma espécie de garimpo psicológico que, ironicamente, se desenvolve em uma horta de… cenouras. Uma cidade de hortas é uma piscadela para os adultos, que também precisam encontrar a pedra preciosa que falta no pescoço do Planeta Terra.

A pedra preciosa é o símbolo da individualidade (ainda que coletiva), uma metáfora para a construção da personalidade da criança. É um convite para que os pequenos encarem as frustrações da vida com uma atitude ativa e edificante. O coelho Chocolate e a pedrinha Preciosa, portanto, tem uma finalidade didática, construída na ordem frustração-perseverança-recompensa. Parágrafos se sucedem e terminam com a repetição do mesmo período frustrante na busca de Chocolate, página após página: "Não era a sua pedrinha preciosa".

A edição é bilíngue, o que dá novas cores para o "Conta a história de novo", pois é possível amplificar as estratégias de leitura lendo a história do começo ao fim em uma língua, depois lê-la novamente no outro idioma, ou lendo a história simultaneamente em português e em inglês. Será que a criança escuta o mesmo enredo quando o ouve em dois idiomas diferentes? Ler a mesma história em duas línguas diferentes é brincar com as línguas e com a poesia que cada idioma carrega ao desenhar as palavras. No entanto, as ricas aliterações presentes na versão em português ("Pedrinhas preciosas para ele"; "Desesperançoso, Desencorajado, Decepcionado") desaparecem na versão em inglês. Nesse sentido, a versão em uma língua nem sempre se traduz na sonoridade da outra.

Isso não tira o mérito da escolha das palavras, que recheiam as páginas com descrições sinestésicas ricas em adjetivos, que são muito bem traduzidos por ilustrações cuidadosas feitas por Olga Neves. Em outra piscadela para os adultos, o debute de Lica Ayres conversa com a ideia de nascimento presente na Páscoa (coelho e chocolate não são uma coincidência aqui) e com a densidade psicológica que o coelhinho de Alice no País das Maravilhas sugere no Chocolate branco.

Oral, visual, sensorial. Um livro é escrito para ser lido do avesso, de cima para baixo, de dentro para fora, em inglês ou em português. De novo, de novo. O coelho Chocolate e a pedrinha Preciosa é um ovo cuja doçura reside no fato de ter sido botado por um orelhudo mamífero chamado Coelho. Vale a pena ouvir o som dessas pedrinhas.

 

_______________________________________

 

O livro: Lica Ayres. O coelho Chocolate e a pedrinha Preciosa.

Lisboa/São Paulo: Flamingo Edições, 2019, 38 págs.

Clique aqui para comprar.

________________________________________________

 

 

 

 

dezembro, 2019