Publicado pela primeira vez em 1936, Os Pássaros, do britânico Frank Baker, só alcançou o sucesso editorial após o filme homônimo de Hitchcock, em 1963. Lançamento de 2016 da editora DarkSide, a edição traz o texto em sua versão final, revisada pelo autor, cujas modificações acrescentaram dinamismo ao enredo. Possui também prefácio de Ken Mogg (editor do jornal digital The MacGuffin) e uma nota introdutória escrita por Baker para a edição de 1964, pela editora Panther.

O romance narra o cotidiano de um jovem tão crítico quanto inconformado a partir do momento em que a cidade de Londres é invadida por milhares de estranhas aves:

 

Eram pássaros enormes, quase tão grandes quanto gralhas, resplandecendo verde e azul (...). Quase a mesma expressão estampava-se em suas feições distintas, os mesmos pequenos olhos brilhantes. Porém, havia alguma coisa a mais; algo cruel e perspicaz (p. 128).

 

Enquanto testemunha o caos que a presença das aves provoca nos mais variados setores da cidade, o narrador reflete acerca das estruturas sociais vigentes, os costumes estabelecidos, e se a rotina tumultuada e mecânica nas grandes metrópoles seria mesmo o melhor modelo organizacional para se viver. A trama de suspense e horror em torno dos pássaros serve, portanto, para levantar discussões muito pertinentes sobre o estilo de vida moderno.

Tal imbricamento é conduzido com suavidade pela narrativa, ora apresentando um protagonista absorto em questionamentos que duram várias páginas, ora descrevendo os estragos causados pelas aves. Ao longo dessa alternância, nenhuma divagação é vã. Todas as reflexões e acontecimentos nos quais o protagonista se envolve serão devidamente retomados conforme o desenrolar da trama.

No prefácio do livro, Ken Mogg aponta que Frank Baker previu a Segunda Guerra Mundial ao escrever no contexto de uma Europa ainda se recuperando das feridas deixadas pelo mais recente conflito entre nações (afora os confrontos nas colônias africanas) e, ao mesmo tempo, tão apática e isolada em si mesma que, apesar dos sinais, não considerava a possibilidade de que outra grande guerra irrompesse.

O romance começa com um prefácio da personagem Anna. Ela conta que irá transcrever as falas do pai acerca do período em que os pássaros invadiram sua antiga cidade, Londres.

Terminado o prefácio, inicia-se a trama.  O romance é narrado pelo protagonista da história, o pai de Anna (cujo nome o leitor não conhece), enquanto rememora sua juventude e os desdobramentos trazidos pela chegada das aves.

Passado o estranhamento inicial, o protagonista parece ser o único realmente incomodado com elas. Tanto que isso o irrita. No mesmo dia em que testemunha sua chegada, pergunta à mãe o que ela faria "se o céu escurecesse de repente por causa de um grande aglomerado de pássaros estranhos como nunca visto antes" (p. 62).

A cena continua:

 

Minha mãe então perguntou o que me fazia falar de pássaros e aviões, por que eu parecia tão angustiado e por que não a havia beijado como sempre fazia? Então eu a beijei e mostrei-lhe o jornal da tarde. Nesse instante, eu estava profundamente envolvido com a descrição do evento daquele dia, contando tudo a ela, desde a minha primeira visão dos pássaros sobre o Tâmisa até a retirada da velha mulher [primeira vítima das aves] da cabine telefônica.

"Estive pensando", acrescentei ao final, "sobre o que vai acontecer com Londres quando todos esses pássaros começarem a lançar suas cargas sobre nós".

Minha mãe declarou que era bom que eles não fossem vacas, e então ouviu-se uma estridente risada de Annie, que havia parado na entrada da porta e nos ouvia durante toda a nossa conversa (p. 63).

 

Aborrecido pelo descaso da mãe, o protagonista sai para passear nas redondezas. Ela o encontra pouco depois, e ambos voltam para casa. Mas a angústia do rapaz não diminuiu:

 

Embora eu tenha ido para a cama antes dela, não consegui dormir. Fiquei nu, com meio lençol a me cobrir, ouvindo o relógio bater as horas e tentando atribuir sentido a uma centena de imagens confusas que corriam e se contorciam em minha mente atordoada (p. 69).

 

Apesar da indiferença geral, que o próprio narrador tenta incorporar, ele sabe que os pássaros retornarão, que serão mais constantes: "Deitado em minha cama, insone por tantas horas, eu sabia que os pássaros viriam. Embora eu não admitisse esse fato nem para mim mesmo" (p. 69).

O protagonista é constantemente atormentado pelo sentimento de que algo estava para mudar, algo iria acontecer. Tem essa sensação desde o primeiro instante em que se depara com os pássaros, como mostra o trecho a seguir:

 

Conforme nos distanciávamos do homem, identifiquei sua música faminta como uma mensagem, uma profecia, um alerta, embora não soubesse do quê. Durante o resto da jornada de volta para casa, não consegui sentir nada além de um peso sobre o meu espírito, apesar de que a expectativa de contar à minha mãe a história dos pássaros encheu-me de emoção.

Eu estava oprimido, oprimido por algo inominável. Até mesmo o profundo azul do céu daquela noite, onde uma meia-lua se estendia como uma nuvem cortada, me parecia sem vida, com uma apreensão passiva de mudança (p. 62).   

 

Seria essa sensação comum entre alguns indivíduos durante o pós-guerra, entre eles o próprio Baker? Será que esse incômodo vinha aliado ao pensamento de que algumas coisas precisavam ser alteradas, repensadas?

Ao longo do romance, acompanhamos o jovem protagonista em sua busca por uma existência mais completa e verdadeira, conectada à satisfação pessoal e à plenitude espiritual — almejos esses que são constantemente barrados pela rígida configuração da sociedade londrina dos anos 30. De certo modo, talvez ele encarnasse a inquietação de algumas pessoas da mesma época, como pode ser visto no seguinte trecho, retirado da nota introdutória do autor para a edição de 1964:

 

Eu não iria, talvez, destruir a civilização tão prontamente como fiz em 1935, quando, jovem e implacável, escrevi este livro. Pois há muito neste mesmo mundo de hoje que amo; e se os pássaros têm que vir (quem sabe?), espero que o flagelo deles deixe uma terra mais limpa em seu rastro.

 

É possível que tal abordagem — menos incisiva — tivesse produzido alterações no modo como o autor desenvolveu o comportamento das aves. Elas punem severamente aqueles que, a princípio, possuem condutas ou encarnam valores que poderiam ser considerados passíveis de condenação.

Sua primeira vítima é uma suposta cafetina. Se, por um lado, o ataque à mulher pode representar um repúdio tanto a uma cultura exploratória da qual certas pessoas tiram proveito quanto ao falso moralismo da época, por outro não se sabe ao certo se a vítima era de fato uma cafetina e, mesmo sendo, foi a única na multidão que tentou alimentar os pássaros, penalizada por achar que estivessem famintos. Temos, assim, a execução sumária de alguém que talvez tivesse vários motivos para praticar o que fazia, e que não necessariamente era uma pessoa ruim.

Por outro lado, a própria tentativa da mulher de alimentar as aves pode ser lida como uma intenção de estabelecer aliança entre as forças e os valores vigentes e as novas forças e valores que irrompiam com os pássaros. Mas eles não estão interessados em nada que se relacione com a tradicional maneira de habitar o mundo.

Entretanto, essas são apenas suposições iniciais, tecidas pelo leitor que começa a ficar intrigado.

De vítimas anônimas — a suposta cafetina, mendigos da Trafalgar Square —, os pássaros passam a atacar e atormentar figuras mais ilustres: os melhores atiradores do país (mas não seus cães de caça), o exército designado por um nobre coronel e até o rei da Inglaterra. Nem mesmo um certo "homem detestável que surgia com grande proeminência na Alemanha" (p. 89) escapou de sua perseguição. "Em todas as partes do mundo, como ouvimos mais tarde, situações similares estavam acontecendo" (p. 80), lembra o narrador.

O cenário apocalíptico construído pelos pássaros serve como pano de fundo para que o protagonista critique e reflita acerca de muitas práticas e valores vigentes na metrópole.

Esse caráter provocativo do romance é evidenciado pela nota introdutória do autor à edição de 1964:

É a Londres de 1935 que se observa nessas páginas — o mundo anterior à chegada dos pássaros; um mundo que não tinha televisão, aviões a jato ou bombas atômicas. Ainda assim, é um mundo que difere pouco do atual, exceto que agora há muito mais pessoas e a correria cotidiana é mais veloz. Mas os pássaros também estão mais ligeiros. Se eles viessem hoje em dia, estariam ainda mais atentos aos horrores que infernizam a sociedade contemporânea.

 

O romance toca em alguns pontos bastante inovadores para a década em que foi publicado. Conforme a trama se desenrola, acompanhamos a descrição debochada da cultura londrina, da economia capitalista e da necessidade de controle inerente à vida urbana feitas por um narrador já mais velho que, mesmo na juventude, via aquele universo como antiquado e limitador.

Uma das temáticas mais intrigantes a serem abordadas é a questão da sexualidade. O protagonista sente-se atraído tanto por homens quanto por mulheres, e acredita que a sociedade é extremamente repressiva quanto à expressão dos desejos sexuais dos indivíduos — mesmo que, em sua visão, certas estruturas como as escolas exclusivas para meninos ou meninas estimulassem a ocorrência daquilo que era considerado imoral e desonroso à época. Mais especificamente, as relações homoafetivas.

Em várias ocasiões, ele precisou se afastar dos rapazes de quem gostava apenas para não sofrer as consequências do que era tomado como "paixões pervertidas" (até o final da década de 60, a homossexualidade era considerada crime na Inglaterra). O narrador ressalta o quanto a criação moral e religiosa que recebiam colocava o sexo como algo sujo, proibido, errado. Assim, os jovens cresciam tanto reprimindo seus impulsos quanto procurando atividades nas quais pudessem descarregar um pouco da curiosidade e da tensão sexual que sentiam.

Dialogando com premissas do que seria chamado décadas mais tarde de teoria queer, o narrador procura não se prender a rótulos para falar de sua sexualidade. Ele a sente tal qual como é, atrai-se por indivíduos que por algum motivo acha sedutores, sem definir-se como alguma coisa a partir disso. O interessante é que, no mundo pós-pássaros, essa questão deixa de ser um problema. Tanto que os termos "homossexualidade" e "homossexual" nele não fazem sentido. Nessa nova sociedade, homens e mulheres são livres para se envolver com quem desejarem, como revela o narrador: "(...) aqui parece natural permitir que o amor floresça de qualquer forma — seja entre jovens, entre moças ou entre jovens e moças" (p. 97).  

E essa não é a única mudança causada pelos pássaros. Ao destruírem os centros urbanos, obrigam as pessoas a viverem novamente da terra, voltarem-se com mais generosidade para a natureza, desprenderem-se da vida em multidão para integrar a vivência colaborativa.

Mas o modo como impelem essas modificações está longe de ser agradável. Violentos e obstinados, deixam de andar em grupos para perseguir as pessoas individualmente. A maioria dos londrinos passa a conviver com uma dessas estranhas aves planando sobre a cabeça. Não se pode matá-las, nem feri-las. Muitos sucumbem ao desespero e tiram a própria vida antes que os pássaros o façam. É nesse período em que o protagonista percebe que também está sendo acompanhado por uma ave solitária, e passa a oscilar entre o pânico e a negação: "Daquela noite em diante, senti-me oprimido e assustado pela imagem de um pássaro que parecia ter o poder de, a qualquer momento, se materializar no céu em volta de mim" (p. 184).

 A essa altura, o jovem começa a se relacionar com Olga, moça russa que veio como refugiada para Londres em busca de uma "vida mais doce". Perspicaz e aberta, Olga possui uma integridade em relação a si mesma que surpreende o protagonista. Em certo ponto, a moça revela como conseguiu se livrar de seu perseguidor alado, e lhe ensina a fazer o mesmo: "Ah... por que você não vê? Tudo o que você tem que fazer é deixá-lo vir até você, encará-lo de frente e aceitá-lo como uma parte sua". Ao que o rapaz reage: "Encará-lo de frente... não, como posso fazer isso?", perguntei. "Como vou saber que criatura horrível eu verei?" (p. 219).

Diante desse novo desenrolar, o primeiro ataque dos pássaros — contra a suposta cafetina que tenta alimentá-los — pode ser visto como generoso. Sua intenção era, talvez, fazê-la olhar para si e enfrentar seu lado mais obscuro. Como não foi capaz de entender essa tentativa, terminou, como tantos outros, morta.

Ao ver a recusa do protagonista em seguir sua orientação, Olga se afasta, dizendo que o único que pode salvá-lo é ele mesmo. Envolto em dilemas, o jovem tem enfim a chance de alcançar sua tão sonhada plenitude espiritual, mesmo que o preço a pagar seja alto.

O romance prossegue com novas reviravoltas, moldando um protagonista que, mais do que nunca, é capaz de enxergar o universo ao qual pertence com suas virtudes e incoerências, seus avanços e mazelas.

Apesar da ambientação soturna e apocalíptica, Os Pássaros é um convite para olhar ao redor e, logo em seguida e mais importante, para dentro de si mesmo. Só assim ganhamos clareza para entender nossas atitudes. Só assim podemos mudar aquilo que nos incomoda fora de nós.

 

 

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O livro: Frank Baker. Os Pássaros.

Rio de Janeiro: Darkside, 2016, RS$ 31,90

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maio, 2017

 

 

Ana Luiza de Figueiredo Souza. Graduada em Publicidade e Propaganda pela UFRJ, é mestranda no Programa de Pós-Graduação em Comunicação (PPGCOM) da UFF. Atua como produtora de conteúdo, revisora e redatora publicitária. Possui material publicado em sites, revistas e periódicos acadêmicos. Premiada em diferentes concursos literários, participa de nove antologias. É autora do livro infantil O Mirabolante Doutor Rocambole, finalista no Prêmio Off Flip de Literatura. Também foi finalista no Concurso de Contos Paulo Leminski e Menção Honrosa no Concurso Literário Felippe D'Oliveira.