Uma locomotiva parece se precipitar, de dentro da noite, por sobre nós, e no interior do livro em cuja capa ela avança, vinhetas fotográficas de detalhes da vida ferroviária extraídos do Museu Ferroviário de Juiz de Fora.

O livro é Um dia, o trem, de Fernando Fiorese, e traz a poesia dos trens para que eu de novo medite sobre perdas inevitáveis e coisas que só restam como aspiração lírica. Os pragmáticos nos têm em baixa conta e nem é melhor dizer o que querem significar quando nos chamam de "poetas". "Vocês são dispensáveis. Façam o favor de sair do caminho, que o mundo foi feito para que tudo seja substituído e nenhum amor possa ser duradouro — e ainda mais o amor por coisas. Tudo pode ser transformado, e não para melhor, mas a transformação em si é uma deusa máxima, tudo justifica. Nós somos o dinamismo, e nossa cegueira é júbilo ininterrupto. Vocês são a impotência que só sabe lamuriar e travar o caminho".

Nas três cidades de minha vida — Poços de Caldas, Brotas, Novo Horizonte — as estações ferroviárias são quase santuários para nostálgicos.  Ainda em Poços, como em outras cidades, a da Fepasa, que abrigava o trem Poços-Águas da Prata, tornou-se um espaço cultural e de atividades festivas, ao menos não foi demolida. A estação de Brotas ainda está lá para receber um expresso exclusivamente de carga e a de Novo Horizonte, bem, a de Novo Horizonte foi muito cedo — eu mal era um jovem — desativada, tornando-se depósito de guardados da Prefeitura Municipal. E não é incomum que se aviste, pelas estradas do estado de São Paulo, ruínas de estações isoladas em paisagens com alguns curtos vestígios de trilhos e dormentes que oferecem aquele encanto pictórico que o cinismo de um apreciador meramente estético consegue dissociar da profunda melancolia de eras perdidas. Fica valendo para fotografias que suspiram pelo fim das ferrovias no facebook. Preciosos souvenires para estender a sensação de perda indefinidamente.

Mas, quanto ao livro de Fiorese, só falta ouvir o clássico apito para que a gente se precipite na viagem dos versos, que têm mesmo um ritmo ferroviário — é possível ouvir ferragens e trepidações, divisar paisagens pelas janelas e ir penetrando em lonjuras, com os versos de rimas belas e difíceis. A viagem que ele fez, pela palavra, ele nos oferece para nossa viagem. Com todos os nós melancólicos de sua "infância ferroviária", com a morte, o pai e o ritmo do tempo. Que também são nossos, ora.

Quanto a meu encantamento, talvez possa ser explicado pelo fato de que nunca viajei de trem, apenas sonhei com isso. Na minha cidade natal (Novo Horizonte, SP), havia um trem da Douradense que povoou minha infância como um mamute de ferro desmedido que fazia um ruído tremendo toda manhã, seguindo, com sua carga e passageiros, para lugares como São Carlos e Araraquara talvez, que me pareciam ainda míticos.

O Douradense parecia cumprir um trajeto circular por toda a extensão da pequena cidade, por seus lados ainda chacareiros ou rurais, e circundava minha imaginação das manhãs com cheiro de fumaça, lenha ardente, cafezais e orvalho. Era como um sinal da existência do Mundo, que acordava, mas não nos acordava com violência — havia uma espécie de meiguice naquele apito prolongado e na precipitação do ferro ativo sobre os trilhos. Era menos uma intimidação que um convite para viagens extraordinárias.

Nunca viajei nele, mas minha imaginação sim. Gostava particularmente da estação ferroviária que havia lá, a muitos quarteirões de minha casa, que me parecia uma espécie de templo. Todos aqueles ofícios, ferros se entrechocando, aquela algazarra, os passageiros com suas malas, a promessa das distâncias, o vigor animado dos princípios de viagem, tudo, tudo parecia me envolver. E nunca tive dinheiro, ou minha família não era mesmo dada a viajar e, quando o fazia, não era de trem. De modo que o transporte tornou-se uma coisa encantada, nunca realmente desmitificada, para mim, e assim permaneceu. Creio que, se não fiz viagens posteriormente, quando eram possíveis, foi até para não quebrar o encanto daquele imaginário de menino. Imaginário que resiste ao luto em que se mergulhou a lembrança coletiva dos trens, num país que foi abolindo-os em favor das rodovias. Porque talvez, como a própria poesia, trem tenha se tornado um anacronismo para muita gente — anacronismo discutível, dada a necessidade tanto de boas ferrovias quanto de boa poesia que o país, assolado por uma ideia demasiado bronca de progresso com carrões matadores e livros em prosa que demandam esforço intelectual nenhum e oferecem emoções escassas, vem desenvolvendo. Os que se perguntam pela utilidade da poesia devem ser os mesmos que decidiram pela inutilidade dos trens. E assim, carregamos todos, Fiorese em sua Juiz de Fora, eu em Brotas, trens encantados só na memória.

                                                 

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Para um cinéfilo, porém, a quantidade de viagens de trens que o Cinema oferece já é uma enorme compensação simbólica. Há algo de trem na própria estrutura narrativa dos filmes, e Hitchcock cita isso literalmente em Hitchock/Truffaut: Entrevistas. Basta lembrar A dama oculta e Intriga internacional, em que os trens são — com perdão do clichê, aí corroborado — verdadeiros personagens. Em Intriga internacional, o encontro entre o falso espião em fuga vivido por Cary Grant com a dúbia mulher-fatal vivida por Eve-Marie Saint se dá ao movimento de um trem, as tomadas das paisagens passando às janelas, musicadas com grande beleza por Bernard Hermann, e o desejo que anima os dois, celebrado no fim com a penetração nada sutil ou metafórica do trem num túnel, é particularmente memorável.

Mas há outros trens que nunca me saíram da memória de cinéfilo — aquele imenso, imponente, escuro e dramático em que se passa uma boa parte da ação de Doutor Jivago e outro, em Passagem para Índia, quando as duas personagens femininas inglesas que comandam o filme atravessam a noite de maneira arrepiante, o trem varando os azuis, mergulhando numa sensação de Oriente misterioso de verdade que culmina quando Adela Quested, a infeliz inglesa sexualmente reprimida do filme, sente o cheiro da flor chamada "frangipani" dentro da noite, o vento nas cortinas e a música de Maurice Jarre.

O diretor dos dois filmes, David Lean tinha mania de trens, realmente, porque em outro filme seu, Quando o coração floresce, impossível esquecer Katharine Hepburn chegando e saindo de Veneza por via ferroviária, tendo que abrir mão de Rossano Brazzi e de um sonho um pouco belo demais para seu pragmatismo de americana passada da idade. E ainda em outro de Lean, anterior, Desencanto, o casal Celia Johnson e Trevor Howard se conhece num trem suburbano e se ama da maneira mais contida possível (uma castidade angustiante) em contraponto a um concerto de piano de Rachmaninoff que é o próprio romantismo desatado. E é claro que vou sonhar sempre, como caronista (infelizmente, não de trens) que fui nos anos 70, com o vagabundo lírico vivido por William Holden em Pic-nic — Férias de amor, de Joshua Logan. Holden chega a uma cidadezinha americana acanhada e careta depois de viajar clandestinamente num trem e, sempre sem camisa, desafiando a censura e o desejo reprimido das americanas dos anos 50, topa qualquer coisa como trabalho (até queimar lixo), mas acaba conhecendo Kim Novak, merecedora de qualquer sacrifício. No final desse filme, como um crítico observou, duas formas de transporte praticamente fazem amor: o ônibus de Novak e o trem de Holden. De modo que o trem, no Cinema, é uma metáfora também erótica até óbvia até um pouco vulgar.

No livro de Fiorese, há um empenho lírico que fetichiza o objeto trem e sua função mágica de suprimir distâncias e dar ao corpo a concretização de seus sonhos de mobilidade absoluta, mas de maneira nada inocente. Fiorese dialoga com o objeto estético que lhe interessa com distanciamento, empreendendo aquela tarefa que se torna, ela própria, paradoxo e poesia: dar forma, ritmo, métrica a uma coisa impensável, "adestrar a desmesura", como ele próprio diz. O movimento se faz de presente a passado e vice-versa, e o sonho de tudo é "estacar no livro-gare", "passar o menino a limpo e a luto".

Um dia, o trem é um projeto contraditório, que a um só tempo se anuncia e se desfaz, apoteose e elegia, mas este é o próprio ritmo da vida do poeta, na qual "estacar no livro-gare" é, na verdade, menos parar que continuar em frente, à espera de outros trens. E outros livros.

Não pude deixar de pensar em outra gare, aquela de Fernando Pessoa: "Porque na grande gare onde Deus manda/grandes acolhimentos se darão/para cada prolixo coração/que com seu próprio ser vive em demanda". Era o otimismo místico que às vezes possuía Pessoa e que, como todo misticismo, é sempre mais fruto de desejos do que de realidades prováveis. Mas que nos consola também, já que esses "grandes acolhimentos… para cada prolixo coração" parecem nada mais que uma reivindicação justa de reparação metafísica. Que nos juntaria aos trens infinitos. Em Minas e no resto do mundo possível.

 

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O livro: Fernando Fiorese. Um dia, o trem

São Paulo/Juiz de Fora: Nankin Editorial/Funalfa, 2008, 48 págs., R$ 20,oo

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maio, 2017