Antirubriografia

 

{ao Gavine Rubro}

 

sou tão biografável como uma ervilha violeta.

uma espécie de legume do qual existem mais de

seiscentos conjuntos verdes.

de mim o que há a dizer é que sirvo para tanto

como um garfo

que sou tão grande como um círculo

e que existo nas gotas de chuva.

sou tão biografável como uma peúga

porque sou uma peça de roupa com pele que vai

para lavar todos os dias

que estriça e minga

e mesmo assim prefiro andar descalço: já há aqui

algo meu, descaí-me.

andar descalço pelo alcatrão sujo das noites

ver nas pestanas a industrialização do

assentimento

e dentro dos meus ouvidos

vive um elefante-bebé.

tão biografável quanto uma folha

estática elástica e plástica para o chão

tão biografável quanto um coral

e um fósforo aceso até ao preto da madeira.

potável como o vermelho

estátua como um comboio

independente como um peixe

isto nada e tudo isto:

tão etéreo e vivo

como um poema.

 

 

 

 

 

 

O poema que não este

 

 

{à Sandra}

 

 

dir-te-ei um poema que saiba o deus inteiro nos teus olhos. para que te saboreies contigo, também assim, em mim. penso nas horas esplendentes abraçadas presentes, invisiveis, a empurrar o medo da morte, que sempre existe, num relógio ou na cremação. penso no circuito simples que faço nos sorrisos quando chegas e é sempre cedo. um sol quente-cedo. um sol rente-primeiro-brinquedo. penso-te. e sinto-te. e galáxias de sede e cio florescem extintas. em silêncio. a procriar amoras sentidas e imaginadas, no teu regaço, para onde te trazes, asa, amor, cílio, casa, vapor livre de anjo e constelação sem invasão de caspa obcecada. dir-te-ei esta verdade mil vezes repetida: as safiras invejam, loucamente, as suas duas irmãs móveis, vivas, que sentem olham dormem e sonham, nos teus olhos. e no lado esquerdo do teu peito. dir-te-ei esse poema que caiba, pelo menos, no sorriso prolongado das tuas pálpebras. aprenderei — gota a frota; devoto e potro silvestre — esse poema. aprenderei. aprenderei sempre. os versos pulsados na maior leveza que conjugamos entre os astros, quando os nossos olhos e corpos se tocam e olham, a ver-se, nos ancestrais lugares inefáveis — o amor — a voar na coisa amada. praticar-te-ei O Poema, que não este, que não simples linhas que não existem, mas todos os dias. e a medula do éter a que chamo espírito encher-se-á em si mesma de horizontes humanos, só por te sentir assim, perto, perto, certo por perto. só por saber que amanhã escrever-me-às novamente o segredo morno e fermentado nas palavras sem palavras — o amor, o amor com um barco de terra com tulipas de todos os ventos no brando mar futuro dos olhos da paixão. derradeiros poemas bebidos pela concha do corpo-entre-corpo, suportado, por uma só mão. dia e noite — a nudez à pureza alinhada

no prazer de não querer imaginar

mais nada.

 

 

 

 

 

 

15

 

 

ao domingo

como quem passeia o cão

eu passeio a consciência

pelos jardins

 

(sem trelas)

 

e não sabemos

ambos

quem passeia quem.

 

 

 

 

 

 

duas asas e um cabide

 

 

quando sais de casa

deixas as tuas brancas asas no cabide.

 

e sobre a fogueira da sorte

aqueces os dedos

na esperança que a tua luz

faça alguém acolher-te

nas náufragas ilhas

suspensas na incompreensão.

 

a lua devora-te a bússola

o sol engole-te a paisagem

a direcção é-te só aragem

e o coração

uma só pérola.

 

e és um ser cigano

sempre foste

positivamente cigano das emoções

e nas feiras onde cantaste a vida

apreenderam-te sempre a voz

por não teres pedido autorização

aos fiscais dos ouvidos

 

e hoje continuas

inquilino da razão

e a renda

ultrapassa-te os gestos.

 

deixas as tuas brancas asas no cabide

quando sais de casa

porque os anjos

só nus

podem voar

 

 

 

 

 

 

colos, uma exaltação

 

 

o coração nos dedos a boiar numa sensação

esquecida de espinhos.

 

um ritmo crescente invicto às decrescências da

memória.

 

um sulco de espelho desvendado pelo rosto enfim

desperto.

 

não sei o que significam estas linhas

tudo morre, quando penso...

 

a voz do aeroporto circunscreve-se à música dos

ecos colectivos do silêncio.

 

uma pequena criança arde nos olhos de outra

quando chega.

 

o coração nos dedos

vários pequenos corações-amora na ponta dos

dedos do presente

 

tudo a luzir em pequenas polpas de esquecimento

apenas o vento e um longo momento aberto na

cara

sem respostas escravizadas por perguntas apenas

físicas.

 

as perguntas da alma dançam descalças seduzindo um novo poema

e eu levantando-me

quando dispo a memória do escuro.

 

a vida inteira descortinada numa plateia sempre

defronte de outra plateia

e eu a sonhar o levantar das cadeiras num só

palco de gente nua

 

pessoas nuas sem conceitos de lama económica

pessoas nuas fazendo amor de olhos fechados

no grande palco ocular onde deus observa

num regozijo profundo

o alastrar dos relógios ao amor inequívoco das

galáxias

 

depois de fazerem amor

as pessoas repousam as suas cabeças nos galhos

nos ombros

das outras pessoas amadas

e pequenos pássaros dourados de distância enfim

destruída

pequenos pássaros dourados cantando sobre a

longa pele omnívora da vida:

o silêncio —

o paladar da respiração entre os poros dos medos

desfeitos,

a profunda pele tenra, terna e omnívora da vida.

 

alados sonhos enfim despertos

na alavanca da conjugação lúcida

na omnipotência dos colos.

 

os colos

eu brindo e rezo

aberto

a longa vida aos colos.

 

¿quando é que foi a última vez que recebeste colo

de alguém?

 

¿quando é que foi a última vez que deste colo a

alguém?

 

¿porque não repetirmos esse primeiro gesto   

celeste feito à porta dos úteros?

 

¿quando é que fizeste tu o amor referencial no

colo mais automático do amor?

 

¿quando é que deste tu de provar os teus corações

divididos como fruta fulva numa outra boca sem

perguntas?

 

¿essa boca soube depois à árvore, não soube?

 

e tudo porque amaste

 

e tudo porque amaste

 

e tudo porque amaste.

 

 

 

 

 

 

vestes que levitas

 

 

desligo o som

faço a hetero-combustão

a ponta da faca sangra

e oiço o medicamento que é a palavra.

a roupa cai,

desejava levitar para lá dos músculos.

no alvorecer da confissão

acorrento-me à cor da ferida

com a poção viscosa antidelírio.

há tinta a mais na tela

e lençóis a menos na cama dela.

 

 

 

 

 

 

*

{à Sandra}

 

 

no quadro vivo desta ideia viva com o sonho vivo do [teu nome ao centro

há uma criança a dançar space rock com luvas de [fogão nos pés

e um pulmão de sol ventilado por árvores

e um beijo terno na testa das cobras

e óculos com hastes de rosas e lentes de fruta

e um baloiço de esponja sentado

por um cérebro que sorri enxaguado

brilhante e empurrado

por dedos de ninho

de um deus-cantado;

isto e

como disse, ao centro

um Lázaro gestual das memórias mais felizes

a abrir o fogão dourado nos relógios das raízes

prestes a servir novo banquete de infância

para a criança que dança, porque dança

num espaço em branco, teu por direito de quanto

e teu por dever de espanto e balança

para que o reconstruas com o corrimão

do teu próprio entretanto de quadro

no interno milagre de esquadro nas pontes do amor

para testemunho das fortunas

de flora fauna e faúlhas

em galáxia de celebração

nos raros arquipélagos

da solidão.

 

 

 

 

 

 

marginália (inextinguível na palma do coração)

 

 

as mãos abertas marcam um grande destino

e as vertiginosas flores certas

atiçam um grande incêndio.

 

quero a construção nova das árvores altas

árvores trepadas unicamente

pelos fortes membros calejados da paciência.

 

e em cada lugar

um leito

 

em cada movimento

um mapa

reescrito ao sangue nos sonhos

os mais vincados

os sonhos da lúcida loucura depurada na

turbulência

 

os sonhos nítidos

de que nem a violência conseguirá a morte.

 

o silêncio entrelaçado no coração alastrado das   palavras.

 

as asas afagadas na ternura da ausência às

cidades.

 

as trevas a troar na terra no enigma do eco cantado nas nuvens.

 

e o tempo

o tempo a ferir os pássaros que permanecem tempo demais.

 

debruço-me à janela e danço nu na inalação primária da noite

 

a beleza do céu a render-me a corrosão das

máscaras.

 

os olhos plantados nas paisagens

colhem a serenidade vigilante entre o resgate nas pausas de tudo.

 

mergulho o rosto febril no milagre da superação

         afectiva dos medos.

 

e todo o fogo aceso revela-me os caminhos do mar.

 

o oceano

um incêndio arcaico

que aprendeu a temperatura certa

para ser o sustento de um planeta.

 

eu tornei-me pérola na funda evolução dos corais

de dentro.

 

há em mim espírito além da carne

carne além da roupa.

 

o meu rosto pernoita a língua das manhãs

e a galáxia que crio permanece em vida na sua linguagem

onde até as flores murchas e limpas

cheiram a água

 

é

nada pode murchar entre nós.

 

nada murcha

verdadeiramente.

 

só há o que nasce

o que cresce

e o que morre.

 

nada murcha

só murcha a fraqueza na ilusão das imagens.

 

tenho um ventre na boca a oferecer princípios.

 

as minhas veias descoagulam o sangue fértil das coisas

 

a minha língua contém as artes fervidas da infância.

 

e as minhas palavras são as janelas da respiração

do sonho imprescindível

palavras janelas equilibristas entre a gravidade da  

dor de tempo

e ausência

palavras janelas arejando a fermentação lúcida

do amor.

o amor em estado líquido

 

o sangue quer-se líquido

o mar quer-se líquido

 

o amor

amor feito de mar e sangue

com pouca espuma

amor tinta seiva e fruto

em todas as mãos abertas que marcam um grande                           

destino

 

as mãos que precedem a escrita

as mãos nos poemas

as mãos nos poemas funcionais em cada franco segundo

sempre fraco-forte

da própria vida

 

a própria vida

      a marcar

nessas mãos

o vasto destino

da descendência.

 

 

 

 

 

 

brinde visual sobre a reconstrução da obra

 

 

a poesia

tem uma colher de trolha na mão

a espalhar sangue

para emparedar

uma protecção necessária

à beleza e ao amor.

 

reparem

reparem no homem das obras

a atirar cimento da sua colher

para a reconstrução

das paredes todas

sempre desgastadas.

 

tenho um grande respeito

pelos homens das obras.

 

as casas morreriam

sem o suor inventor

desses homens de luta

e furor pela luta.

 

reparem

a parede é mais alta que o homem das obras

ele atira o cimento com a sua colher

para alcançar o retoque das alturas

onde antes os seus limites não chegavam.

 

se o homem tocasse em tudo,

o homem estragava tudo.

 

por isso o homem das obras pratica a distância

                                   entre o instrumento e a obra.

 

é a obra que interessa.

¡é a obra que interessa!

 

o homem não é mais que uma simples peça

um movimento que arremessa

para a filantropia e alegria

dos lugares.

 

quando o homem das obras abandona uma parede

cimentada

tem as duas mãos fundidas em suor cimento e

cansaço.

 

quando eu abandono um poema

no seu sangramento espiritual

(numa doação ou numa ferida)

tenho os dois olhos mais limpos

tenho a tinta sanguínea

esborratada por entre os dedos,

tenho alguns medos

finalmente mortos

e um coração um coração um coração um coração

um coração

enfim

mais batível

 

todos os dias somos rodeados por paredes

restauradas

e ninguém há a agradecer

os abrigos

aos homens das obras.

 

todos os dias

somos rodeados por poesia

e ninguém há

a agradecer

o amor.

 

 

 

 

 

 

bzzzzzz

 

 

a incompreensão

é uma colmeia

que vive repartida

entre ver roubado o seu doce

e a saúde

da sua abelha-rainha.

 

 

 

 

 

 

páissaro

 

 

¿Pai,

de que servirá tentar fazer com palavras

a cura para distanciar o choro destas raízes?

 

o teu olhar quase sempre rebobinou apenas as coisas

e quase nunca sorriste amar o sol das minhas costas.

 

de que servirá?

de que servirá, pai?

ambos cairemos

em igual paradisíaco abismo — a morte

todos os dias, ou no fim

pois só no esquecimento

se completa a redenção.

 

¿então

porque é que, entretanto,

não danças ousas cantas

tu também, a vida

ela inteira, nas suas pequenas ofertas

essa palpitação rara, de presenças

a vida, pura & impura — nua

porque não a querida eloquência

de esmerares, lúcido

a tua própria loucura?

 

 

' — retire o seu cartão.

 — retire o seu dinheiro.

 — retire o seu cartão.

 — retire o seu dinheiro.

 — o seu saldo é... '

 

feito através destas correntes repetidas

invisíveis

com que pausas sempre

a velocidade das tuas travessias

sem legendas.

sem legendas, pai.

 

¿que silêncio é esse,

treva pendida

repetida, acumulada

de dentro para dentro

sem centro externo — ajuda

nem abraço interno, para uma emoção falada?

 

meu pai

jesus cristo de um filho

e eu

nunca sendo ou querendo ser

o seu deus.

 

contra qualquer poema ou previsão

deus, o teu deus

é um lugar mal situado na coragem

e a origem das religiões inteiras

é família

família, pai

família tinta

sem tesouras na garganta.

 

meu pai

jesus cristo

auto-crucificado por um só homem, dizes

e eu

Eterna criança

à espera da ressurreição

do teu pássaro claro, bissexto:

 

 

— Tu

a dançar às gargalhadas

de copo numa mão

e nudez na outra

a ritmar o timbre dos grilos lá fora

cá dentro:

 

' Gri gri

 Gri gri

 Ri    ri

 Ri    ri '

 

Ri, pai,

Ri.

 

 

 

 

 

 

*

 

 

se dedilho, delicado

os meus dedos no teu corpo

é porque a música dos teus poros

faz-me regressar

ao que sempre fui:

nadador, devagar, no sabor

do amor

a preencher dilatado

a herança do espaço dourado

da alma que falta

dentro dos olhos.

 

e a tua pauta

de céu, arde

um incêndio calmo

sempre maior

que os abecedários terrestres.

 

e esse jeito vivo de esperança viva

com que transformas o timbre do silêncio

em harpas pianos e coreografias instintivas inteiras

no pedal ritmado de cada sorriso dos teus

contra todas e quaisquer barreiras:

cada suspiro, cada espreguiçar,

cada levantar de pálpebra, sobrancelha

cada expressão multicolor

nessa essencialidade transparente,

cada beijo,

a língua nos lábios e nossas entre-bocas

no paraíso dos primeiros deuses.

 

— e se também te aperto,

assim

em viçosa força

todos os teus contornos

é por ser tão tenro, acento, terno,

elemento, amor casa & amor alterno

com o nosso espaço secreto

longe da gravidade

onde há magnos sinos

a ressoar, a ressoar, a cantar

loucas pétalas mornas

no mel da toca secreta da boca dos segundos

nos momentos fecundos

entre nós

que de tão raros

dão fresco barro

a ferver

para os futuros

e sempre

contra as despedidas. 

 

bendita é a natureza do teu espírito

que desintegra a primeira e a última cruz.

bendita sois vós

entre as mulheres

flor-da-pele mais bela da luz;

bendito é o estatuto d'anjo

na tua identidade

— sem capuz

 

vós

bendita,

bendita: vós

bendita sois vós

entre todas as mulheres

agora e na hora deste grande miolo de força e sorte:

um dueto de luas solares para esta nossa aliança

— colheres de nuvem e suporte

para alimentar a infância

 

sinto assim

deuses afagados na viva beleza

a sorrirem-nos em atentas vigias

porque fui comunicado

por todas as coisas, palavras, gestos, energias

que a dança que completa a felicidade

[das noites e dos dias

longe da ideia do corte

tem o tempo dos teus pés

simetricamente alinhado

ao terreno e ao transporte

do tempo dos meus.

 

e quero

neste poema

o porte interno dos céus ancestrais

com que te sinto:

borboletas vivas

de patas dadas

de todas as cores

a coroarem-te

a existência.

 

                  

 

 

 

 

 

 

 

 


Diogo Costa Leal (Porto, Portugal) partilha poemas com misturas audiovisuais em soundcloud.com/diogocostaleal e no youtube no canal "Estes poemas que guardo"; foi coautor dos programas de rádio sobre poesia, "Ecléctico Azul" (RUA FM, 2011–2012) e "Vadiação Poética" (Rádio Manobras, 2013-2015). Coautor do grupo de performance e improviso de música e poesia "Poemó'copo" (desde 2014). Ama unir a escrita com a oralidade das palavras e a arte da performance, onde participa e realiza, individual e colectivamente, projetos nesse sentido, desde 2010. Mantém, desde 2015, uma revista online com poetas: "um poeta para con-versar": umpoetaparaconversar.wordpress.com.