Não sou um super-herói,
mas isso não dói.
 
Não sou um Homem-Aranha
ou uma Mulher Maravilha,
não consigo saltar uma ilha
ou segurar um avião,
mas — urru! — tenho supervisão
de transformação.
 
Veja bem,
uma fenda na parede
não é só
uma fenda na parede.
 
Veja muito bem,
uma mancha no papel
não é apenas
uma mancha no papel.
 
Fendas e manchas
são também pessoas e bichos
secretos, mas espertos,
se você tiver superpoderes
de imaginação.
 
Meus olhos contentes
gostam de fuçar
todas as coisas vistosas
que brincam no mundo.
 
Meus ouvidos contentes
gostam de acariciar
todos os sons deliciosos
que vivem no mundo.
 
Meu nariz contente
gosta de conversar
com todos os cheiros tagarelas
que correm no mundo.
 
Minhas mãos contentes
gostam de fazer festinha
em todos os filhotes divertidos
que miam e latem no mundo.
 
Minha boca contente
e minha barriga mais contente ainda
gostam de brincar
com todos os gostos saborosos
que alegram o mundo.
 
Mundo, mundão!
É tão bom abrir os braços
e apertar com carinho
meus amigos do coração
ou um buquê de flores
de todas as cores.
 
Mas, que pena,
olhe só, meus braços
são tão curtos!
Minhas mãos são
tão pequenas!
 
Não consigo abraçar
apertadinho
um elefante inteiro
ou um baobá
de vinte metros de altura.
 
Ah, eu tento, tento tanto,
mas não consigo abraçar
o oceano Atlântico
ou o monte Fuji.
 
Tudo o que eu consigo abraçar
é um pedacinho
de um bocadinho
do vento e da chuva,
um pedacinho
de um bocadinho
do calor do sol e do frio da lua
que iluminam meu caminho.
 
Não consigo abraçar
as coisas grandes,
as nuvens e as baleias,
mas consigo abraçar
minha mãe e meu pai
e o Cachurro, meu cachorro,
e o Folgato, meu gato,
e a Milena, minha irmã pequena.
 
Não tenho braços compridos
mas — urru! — tenho supervisão
de transformação:
meus olhos contentes
admiram as coisas quietas
e elas ganham vida,
brincam comigo.
 
Atenção!
Todas as crianças nascem
com supervisão de transformação,
mas a maioria cresce
e esquece que tem.
 
Meus olhos contentes
vigiam os prédios da avenida,
que acordam e sorriem,
fazem careta,
mandam beijinhos.
 
Meus olhos contentes
tão cheios de céu
não deixam escapar
nem as fendas na parede
ou as manchas no papel.
 
Uma fenda na parede
verde
(será que a terra tremeu?)
não é somente
uma fenda na parede
verde.
 
Uma mancha no papel
amarelo
(será uma gota de mel?)
não é apenas
uma mancha no papel
amarelo.
 
A fenda na parede
é o contorno
de um tamanduá magro
de tamanco branco.
 
A mancha no papel
é um papagaio papudo
e meio rouco,
de óculos escuros.
 
O tamanduá fala pouco,
mas o papagaio é tagarela
e adora contar piada
de tamanduá
(nunca de papagaio).
 
Outra fenda é um músico
gentil e musculoso,
outra é uma jornalista
que já foi tenista.
 
Outra mancha é um peixe
com duas cabeças,
outra é uma caravela
com asas de borboleta.
 
O músico gentil e musculoso
conversa com
o tamanduá magro
de tamanco branco,
os dois sobem na caravela voadora
e chamam o papagaio papudo
e meio rouco,
que chama a jornalista
que já foi tenista.
 
O peixe com duas cabeças
cai num rio frio
de poesia e fantasia
e sai nadando bonito à beça.
 
Novas fendas
e manchas animadas
aparecem para alegrar
ainda mais
meus olhos tão contentes.
 
São bichos bicudos,
plantas barulhentas
e pessoas bem-humoradas,
com nariz de palhaço
e sapatos apressados.
 
Uns conversam, outros cantam
uma canção colorida
que alegra ainda mais
meus ouvidos tão contentes.
 
Flores e beija-flores
reluzentes e perfumados
alegram ainda mais
meu nariz tão contente.
 
Coisas fofas, folhas frágeis,
esponjas e balões macios
alegram ainda mais
minhas mãos tão contentes.
 
Frutinhas e frutonas
muito bem-vindas
alegram ainda mais
minha boca tão contente
e minha barriga mais contente ainda.
 
A caravela com asas
de borboleta passa
voando do meu lado,
o músico gentil e musculoso
(ele é o capitão)
estende a mão e eu subo a bordo.
 
"Vamos voar,
meu povo amado,
vamos voar pra lá e pra cá",
ordena o capitão
entusiasmado.
 
Eu vou junto, vou sim,
explorar o mundo sem-fim
com a tripulação de fendas
e manchas festeiras.
 
Dê sua mão,
venha com a gente!
Ative também tua supervisão
de transformação.
 
Nossa caravela voadora
pode ser o que você quiser:
uma bolha de sabão
ou uma folha
cheia de histórias.
 
Nesse passeio
a gente vai encontrar
mais de mil amigos secretos,
eu prometo.
 
Amigos de viagem,
lado a lado,
nas fendas no concreto,
nas manchas na paisagem
e até no desenho enrolado
das nuvens discretas
que ninguém olha.
 
As asas em brasa,
a caravela vai atravessar
a China e a Cochinchina,
vai contornar o mundão,
voltar pra casa e chamar
a mamãe e o papai,
o Cachurro, o Folgato e a Milena
para viajarem também.
 
E aí, você vem?
 
 
 
 
 
Valerio Oliveira nasceu no dia 21 de junho (solstício de inverno) de 1958, em Xanadu, capital de Grande Garabagne.  Durante toda a infância morou a cem metros do fabuloso palácio de verão de Kubla Khan. É poeta e vagabundo globalizado. Já viveu no subúrbio de Los Angeles, Buenos Aires, Praga, Madri, Milão, Lisboa, Cairo, Luanda, Cidade do Cabo, Nova Délhi e de outras dez capitais do Oriente. Gosta de orquídeas, Modigliani e Itamar Assumpção, de verdades noturnas e falsidades diurnas. Jamais foi passivo ou ativo, costuma ser apenas contemplativo. Ama a espiral congelada da fumaça do cachimbo. Não acredita em realismos ou surrealismos, somente no real e nas suas valiosas expansões. Não coleciona essências nem aparências naturais, prefere as artificiais. Só acredita em biografias imaginárias. E no poder transcendente do verso livre. Principais livros de poemas: O ser humano na era de sua reprodutibilidade tática (2016), Todos os presidentes (2008) e Teto no piso (2006).