No disco Caetano Veloso de 1968, a música Paisagem Útil traz uma surpresa —além da paródia da clássica canção Inútil Paisagem —, quando Caetano canta "Mas já se acende e flutua / No alto do céu uma lua..." , com a voz empostada. É Orlando Silva quem ele homenageia, e esse é apenas um exemplo da influência que o rapaz nascido em Engenho de Dentro, subúrbio do Rio de Janeiro, no ano de 1915, exerceu sobre gerações de cantores. Diferentemente do que muitos acreditam, a influência maior de João Gilberto não foi o cantor Mário Reis, mas Orlando Silva, de quem ele extraiu o lirismo, a suavidade e o canto dissimulado. Para conferir, basta ouvir a magistral gravação de Aos pés da santa cruz (Marino Pinto / Zé da Zilda) que João Gilberto recolheu do repertório de Orlando Silva.

 

 

Sucesso na vizinhança

 

José Celestino da Silva, pai de Orlando Silva, além de funcionário da Estrada de Ferro Central do Brasil, foi um exímio violonista. Engenho de Dentro era um reduto do choro e lá ele conviveu com Pixinguinha, que entre outros músicos de grande talento, freqüentava sua casa. Não chegou a fazer parte do Oito Batutas porque faleceu, vítima da gripe espanhola, antes da criação do conjunto, quando o filho tinha três anos. Desde pequeno Orlando Silva já era aplaudido pela vizinhança, cantando sempre que pediam o repertório que ouvia nas rádios. Menino de origem humilde, exerceu atividades como carregador de marmitas e aprendiz de sapateiro, entre outras. A canção Céu Moreno, de Uriel Lourival, gravada por ele, em 1935, mostra o preconceito e a condição do menino suburbano que Orlando foi: "Deus fizeste só então / nevados serafins de olhares tão azuis / Deus, perdão meu Deus, mas esqueceste / não fizeste um anjinho moreninho de áurea luz. Em 1932, um fato triste alterou sua vida: ao tentar pegar um bonde em movimento na Praça da República, escorregou no estribo e perdeu parte do pé. No hospital, foram amputados quatro dedos. Acidentes eram comuns no subúrbio, até pela proximidade com o cais, onde muitos realizavam trabalhos perigosos. Depois do disso, Orlando Silva arranjou emprego como cobrador de ônibus, função na qual poderia trabalhar sentado. O motorista chamava-se Conceição, era boêmio e deixava Orlando cantar depois do expediente, como descrito por Rui Ribeiro no livro Orlando Silva: cantor número um das multidões.

 

 

Testes nas rádios

 

As rádios eram o caminho natural para os cantores iniciantes. Donas de uma influência avassaladora, constituíam a principal diversão da época. Era impossível fazer sucesso sem bater na porta delas. A Rádio Nacional dava-se ao luxo de ter várias orquestras fixas e diretores musicais. Depois de várias tentativas frustradas de ser ouvido, Orlando Silva encontra o compositor Bororó, que se dispõe a escutá-lo e apresentá-lo ao Francisco Alves, "o rei da voz", um dos principais cartazes da época e ídolo do cantor. Um fato pitoresco marcou esse primeiro encontro: na falta de lugar mais apropriado, Francisco Alves pede que Orlando vá ao banco traseiro de seu Pontiac preto e grená e cante. Impressionado com a voz do garoto, manda chamar amigos no Café Nice, reduto boêmio frequentado por artistas. A partir desse momento, sua sorte está mudada. Por intermédio de Francisco Alves, Orlando estreia na pequena Rádio Cajuti (anagrama de Tijuca), em junho de 1934, acompanhado pelo violão de Pereira Filho, recebe 50 mil réis, e sua voz é confundida com a de Silvio Caldas, "o cabloquinho querido" célebre seresteiro da época. Os motivos que levaram Francisco Alves a ajudá-lo são controversos. Para alguns, apenas um ato generoso e altruísta; para outros, um modo de combater seu concorrente Silvio Caldas, que rivalizava em prestígio com ele.

 

 

Mudança no estilo de canto

 

Vicente Celestino era um dos principais cantores da época, tenor de voz potente, cantava de maneira empostada e era obrigado se afastar do microfone, porque temiam que seu canto poderia danificar a aparelhagem. De uma geração anterior a Orlando Silva, já cantava na época do chifre de boi, quando era preciso ter pulmão de aço. Esse estilo derivado da ópera era comum nos teatros musicados: afetação e potência em detrimento do espontâneo. Apesar de cantores mais espontâneos como Mário Reis e Noel Rosa se afastarem dessa maneira de cantar, ainda era o que predominava. Orlando Silva, além da voz privilegiada e de larga extensão, dosava sentimento e técnica com menos pedantismo e, com as dicas de Francisco Alves, aprendeu a usar o microfone com suavidade e máximo de impacto. Segundo Ruy Castro, no livro A onda que se ergueu no mar, o microfone não foi inventado para dar voz a quem nãotinha, mas para realçar o timbre, a afinação, o domínio rítmico, o tratamento da letra e o carisma de quem tinha voz e sabia cantar.

 

 

O estouro nas rádios

 

Depois do sucesso ao cantar na Cajuti, Orlando Silva recebeu um convite do compositor Kid Pepe para gravar, em novembro de 1934, duas composições suas na gravadora Columbia: Ondas Curtas (Kid Pepe e Zeca Ivo) e Olha a Baiana (Kid Pepe e G. A. Coelho). O italiano José Gelsomino, conhecido como Kid Pepe, exerceu diversas atividades quando chegou ao Brasil. Foi vendedor de loteria, engraxate e garçom, depois virou boxeador, quando ganhou o apelido de Kid Pepe. Apesar de ser desafinado e do português ruim foi autor de diversas composições em parceria com nomes como Noel Rosa, frequentava os redutos boêmios e era temido pelos músicos, porque tinha a fama de ameaçar quem se recusasse a gravar suas músicas. Temendo a reação de Francisco Alves, que era da gravadoraRCA, Orlando Silvanão mencionou as gravações feitas na Columbia. Orlando Silva estreou na RCA, em janeiro de 1935, com uma marcha (jingle) de Ary Barroso e Bastos Tigre, para uma popular cervejaria. Em julho de 1935, grava um compacto com o samba-canção No Kilometro 2 (J. Aymberê) no lado A e o samba Para Deus somos iguais (J. Cascata e J .Barcellos)no lado B. Em setembro de 1935, sai o disco com duas composições de Cândido das Neves, o Índio, A última estrofe e Lágrimas. Cândido das Neves foi um dos compositores mais conceituados da época, rivalizando com Catulo da Paixão Cearense. Em maio de 1937, Orlando Silva grava dois clássicos absolutos de nosso cancioneiro: Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro: "Meu coração não sei por que / bate feliz quando te vê / E os meus olhos ficam sorrindo / E pelas ruas vão te seguindo" e Rosa, de Pixinguinha e do mecânico e poeta temporão Otávio de Sousa: "Tu és divina e graciosa / Estátua majestosa / No amor! / Por Deus esculturada / E formada com ardor". A maior vendagem da carreira veio com a marchinha Jardineira,de Benedito Lacerda e Humberto Porto, no disco lançado em dezembro de 1938. Ela participou de um concurso de marchinhas e ficou em segundo lugar, atrás de Florisbela, cantada por Silvio Caldas. Em janeiro de 1940, ele protagoniza um feito histórico, ao cantar na sacada da Rádio Cruzeiro do Sul, atraindo uma multidão que ocupa o Viaduto do Chá, estendendo-se para a Rua Ramos de Azevedo, no centro de São Paulo. O locutor Oduvaldo Cozzi testemunha a façanha de Orlando Silva e o apelida de "O Cantor das Multidões".

 

 

O Drama da Voz

 

No documentário Orlando Silva, o cantor das multidões, de Oswaldo Caldeira, Orlando Silva conta que em uma conversa com o famoso tenor italiano Tito Schipa, de quem era fã, ouviu elogios rasgados à sua voz, mas a advertência de que ela mudaria aos 30 anos, quando ao tentar atingir uma nota já não teria a mesma facilidade de antes. A ironia desse fato é que é consenso entre seus fãs e críticos que a fase áurea de Orlando foi na RCA, de 1935 até 1942. No final de 1942, com 27 anos, ele muda-se para a Odeon e sua voz não é a mesma. O motivo não seria somente a alteração da voz, natural da idade. Entre outras razões, uma doença na gengiva, que o acometeu e fez com que implantasse uma prótese, e o uso de morfina, que tem como uma das consequências afrouxar as cordas vocais. Mesmo assim, ele continua um cantor de sucesso na Odeon, ampliando o número de fãs em belas gravações como a versão que Haroldo Barbosa fez de Beguin the Beguin, de Cole Porter.

 

 

O Rei do Rádio

 

Contratado da Rádio Nacional desde a inauguração, em 1936, Orlando Silva deixa a rádio em 1945, devido a problemas pessoais, retornando em 1951 com o apoio de Francisco Alves. Em 1954, conquista o titulo de Rei do Rádio. Fica na Rádio Nacional até meados dos anos 60, quando a emissora já perdia audiência e a televisão começava a dar as cartas. A longa carreira de Orlando Silva perpassou várias fases da música popular brasileira, desde o tempo heróico das 78 rotações, no qual cantores gravavam vários discos num ano e com mínimos recursos técnicos até os LPs de 33 rotações. Em 1959, regrava antigos sucessos na RCA, reconquistando parte do antigo sucesso. Atualizado com os novos rumos da música, em 1973, grava seu último disco com músicas de novos compositores que despontavam: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Antônio Carlos e Jocafi, Taiguara, entre outros. Neste disco, também grava a belíssima Chuvas de Verão, do pai de Edu Lobo, Fernando Lobo: "Amores do passado, no presente / Repetem velhos temas tão banais / Ressentimentos passam com o vento / São coisas de momento / São chuvas de verão". No dia 7 de agosto de 1978, Orlando Silva morre, vítima de uma isquemia cerebral. A música brasileira perde um cantor ímpar, considerado por críticos e inúmeros fãs o maior cantor brasileiro de todos os tempos.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

RIBEIRO, Rui. Orlando Silva: cantor número um das multidões. São Paulo: Cruzeiro do Sul, 1984.

AGUIAR, Jorge. Nada além — a vida de Orlando Silva. Rio de Janeiro: Globo, 1995.

VIEIRA, Jonas. Orlando Silva — o cantor das multidões. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.

CASTRO, Ruy. A onda que se ergueu no mar. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

CALDEIRA, Oswaldo. Orlando Silva, o cantor das multidões. Documentário média-metragem, 1969.

 

 

setembro, 2016

 

 

Diniz Gonçalves Júnior (Diniz Antônio Gonçalves Bala Júnior), São Paulo/SP, 1971. Autor dos livros de poesia Decalques e Concha Acústica.

 

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