©thomas barbey

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

tresvarios

 

 

Os leitores sabem que há alguns perigos na escrita, armadilhas literárias armadas na narrativa, ideologias de época forjadas pelos cânones como modismos, a promoção de certas obras que têm o mesmo (salvo) conduto. Opções eleitas a priori que tentam desmantelar a criação que não reza o mesmo credo dos grupos privilegiados pela média. Nenhum autor, crítico ou acadêmico pode impingir regras pré-estabelecidas para autores, críticos ou acadêmicos. Bukowski encontrou mais estilo em cães, presos e sanduíches do que em estilistas convencionais. Uma época literária se descobre no que seus autores têm de diferente uns dos outros, não no que conforma padrão de conduta para todos.

Se um livro para ser bom tiver que repetir outro produzido na mesma época, é preferível nem ser escrito. E quem decide se um livro é bom, inteligível, guardável na memória e na estante, é somente o leitor. Por isso há péssimos livros considerados obras-primas com base em vendas, como há livros encalhados demandantes de serem descobertos em sebos com honesta proficiência crítica. E essa afirmação traz mais dúvida: quando um livro é um horror de ruim e faz sucesso, o leitor também é horrível? Ou, segundo a teoria, tudo é relativo?

Escrever para minorias pode ser uma opção ou uma desculpa. Escritor algum tem um leitor-alvo, predefinido para ser seu leitor. A menos que ele autorize livro especializado cientificamente, a exemplo de medicina, mecatrônica, engenharia nuclear, nanotecnologia. Um determinado escritor pode optar por livrar-se do livro convencional com alternativas de leitura para leitores comuns. Desde que ele tenha pleno conhecimento do que seja um leitor comum, não o discrimine como um "hipócrita leitor", tampouco seja discriminado pela cômoda alcunha de ser um concessionário da pobreza intelectual. Como pode escolher escriturar, considerando a posta restante na literatura: restos, cacos, raspas, resíduos, ruínas, notas de leituras, anotações bissextas, diários, cartas, enfim, coisas literárias ou não, culturais, históricas, sociais.

Cada época tem seus conceitos usais, seus fantasmas semânticos e linguísticos, suas formas de poder, o que cabe, em nível de provocação, dentro da palavra etecetera: a diversidade, o plus, a dissimulação, a diferença, ainda que para nada.

Alguns (poucos) livros teriam seu escólio ou making-off a ver com a "dignidade do silêncio", com a "plenitude que está vazia", com a certeza de que "o que é novo nada renova", com o "correr o risco da ausência de tempo", a "abertura opaca e vazia sobre o que é quando não há mais ninguém, quando ainda não há ninguém"; quando se tem mesmo a intenção de registrar a "potência do negativo", o "turbilhão de hilaridade e de horror" (M. Blanchot) decorrente da própria situação-livro ante a convicção de "grande morte que cada um carrega em si" [que é] o fruto em torno do qual tudo muda! (Rilke).

Tem razão Pierre Janet ao afirmar que "um livro que se lê fica sujo"? Isto porque, segundo Cortázar, "uma prosa pode apodrecer como um filé de lombo"? O que torna um livro infeliz? A petulância erudita de um autor que escreve como quem masturba lendo enciclopédia? A vaidade de quem escreve porque se julga imortal em pleno anonimato? A certeza daquele que escreve ser o seu próprio melhor leitor? Pior: em voz alta numa casa de praia, ou num apartamento de um quarto em área "nobre" de cidade grande? Se Hegel tem razão ao afirmar que o homem é o que ele faz, o que faz um autor para merecer uma obra? E uma obra, conforme René Char, é mesmo "valor que não se avalia"? Então se questiona: tudo quer se aprendeu como sendo exemplo, referência, cânone, de repente deixa de fazer sentido, porque outra leitura mostrou um foco diferente na mesma obra que por si já era exemplo antes? Não teria a crítica criado um fordismo literário? Como ficaria, nesse imbroglio teórico, a reflexão de Paul Ricoeur, quando afirma haver um risco na conversão de um "fazer-parecer" em um "fazer-crer"? O livro estica seu teor na corda bamba entre o imaginário e o fascismo? Por que o conceito povo apavora tanto os intelectuais livrescos que conhecem tudo da teoria, mas quase nada da vida ao vivo, na rua, nos espaços urbanos onde ela se manifesta mais com dores e lágrimas do que com teses que não mudam nada? A propósito: um livro é escrito para mudar alguma coisa? Que coisa? O leitor? O povo que não o lê? A mídia que o ignora por falta de marketing? O país que desidrata o orçamento da cultura em primeiro lugar ante qualquer suposta crise? O nível de criação? O decorum ao qual alude Compagnon, é garantir um "leitor suficiente" para um autor suficiente, ou vice-versa? Será que esse "leitor suficiente" vai perceber no livro que "o texto dialoga igualmente com sua própria história"? O leitor entenderia que todos os teóricos citados em um livro são também personagens? E que por isso Philippe Hamon dixit que um livro pode ser também um "purgatório crítico" 1º) de si mesmo, 2º) da literatura, 3º)do contexto em que ele move suas tópicas às vezes insolucionáveis?

Que o leitor observe a "briga" entre as personagens-teoria, através das citações, que põem em contradição, analogia ou antítese, seja o realismo das situações do mundo, quando a narrativa é a linguagem, ou o "conflito dinâmico" das formas correntes que criam a "ilusão referencial" e possibilita a transtextualidade. Em um ou outro caso, segundo Barthes, "a linguagem é uma legislação, a língua o seu código. Não percebemos o poder que há na língua, porque nos esquecemos que toda língua é uma classificação, e que toda classificação é opressiva. Discorrer não é comunicar, como se afirma tão frequentemente, é sujeitar." No jogo literário, quem se sujeita a quê? O livro ao leitor? O leitor ao livro? O autor ao livro? Autor e livro ao leitor? Barthes disse que "o livro é um mundo". Há livros que são um mundo que cabe nos sentidos e na consciência dos leitores. Como há autores que não escondem terem uma preocupação quase didática com a recepção. O leitor é a resposta ao livro. É no leitor que se cria uma expectativa, sua implicitude. Seu doar-se em acuidade de leitura, sua reação. A pior recepção que um autor pode criar no leitor é não lhe ceder a chave do estranhamento. É permitir que o labirinto vença. É iludir com palavra. Por isso autor há que concorde com Barthes quando este afirma que a leitura se apresenta "como uma resolução de enigmas". Que fique, no entanto, muito bem esclarecido: não se trata de facilitar para a ululante mediocridade babar de raiva ou de júbilos livrescos, tampouco fazer uma obra aberta como sexo de puta.

 

O SILÊNCIO ALHEIO

 

Com este título, Jacqueline Aisenman publica livro em que há lirismo vital e prosa existencial. "Coisa que o coração bateou". Capacidade de inventar tramas para histórias rápidas. Perplexidades domésticas. Afetos cotidianos. Lupa sobre pessoas-ninguém e todo-mundo. Desfechos comoventes. A força expressiva do mais no menos: "pedaços espalhados pela vida". Surpresas contidas no "simples assim". A riqueza dramática das pessoas comuns. O reflexo da "ciência das coisas". Poeticidade em prosa. "Aparências sem cortinas". Vale repetir o clichê: um pequeno grande livro.

 

 

leituras

 

 

 

"Ler não é verbo desgarrado. Nem questão de quantidade. Ler é uma questão de qualidade. Não interessa que o sujeito leia muito. Interessa que ele leia o que vale a pena. Más leituras em más cabeças costumam ter efeitos trágicos. A observação de Walter Benjamin é singela: a biblioteca de um homem é a sua mais fiel autobiografia" (João Pereira Coutinho).

 

"Não seja professor. Gostaria de aproveitar o espaço e pedir a meus alunos que não sejam professores, não cometam esse equívoco. Esta 'pátria educadora' não merece ter professores. Seu salário será 51% daqueles que terão a mesma formação, pois o salário do professor brasileiro aparece em penúltimo lugar numa lista de 35 países. Sua escola provavelmente não terá biblioteca, como é o caso de 72% das escolas públicas brasileiras. Se você tiver a péssima ideia de se manifestar contra o descalabro e a precarização, caso você more no Paraná, o governo o tratará à base de bomba de gás lacrimogêneo, cachorro e bala de borracha" (Vladimir Safatle).

 

"Até vazio preenche o coração". "Fulano teve medo da perfeição". "Em princípio o amor é capaz de tudo. E, por fim, também". "Você não se decepciona com pessoas que não aprendeu a amar". "Nenhuma lembrança é calada. Ninguém morre em silêncio". "Algumas ideias, assim como alguns sentimentos, precisam de lágrimas para amadurecer". "Sou como a pedra: inexpressiva até você sentir o meu peso" (Jacqueline Aisenman).

 

"Não sei se a vida é curta ou longa demais para nós. Mas sei que nada do que fazemos tem sentido, se não tocarmos o coração das pessoas" (Cora Coralina).

 

"O cheiro de bolo no forno enchia a casa de festa, enquanto os dois, sentados no chão da sala, divertiam-se com todas as brincadeiras que uma televisão desligada permitia inventar" (Luciana Lorens Braga).

 

"Os supermercados franceses são tão atenciosos que oferecem máscaras antigas para quem vai à seção de queijos". "O cinismo de nossos governantes é igual a suas contas na Suíça: não tem limite" (Casseta & Planeta).

 

"Há muita gente vivendo nas nuvens, por isso tenho medo que um dia chova idiotas". "Envelhecer é inevitável, ficar velho é opcional" (da internet).

 

"As pessoas só se dirigem a Deus para obter o impossível. Para o possível, os homens bastam" (Chestov). "A honestidade não precisa de regras" (Camus). "Quem não despreza, não pode nem mesmo apreciar" (Giorgio Agamben).

 

"Para construir um mundo novo é preciso que todos estejam com vontade de viver num mundo melhor" (Marina du Bois). "Viver exige referências" (Pedro du Bois).

 

"Um cínico é um homem que, quando cheira uma flor, olha ao redor procurando o caixão do defunto" (H. L. Menken). "Quem vive num labirinto tem fome de caminhos" (Mia Couto). "A hora e a vez do povo já chegou" (J. Moreira de Souza). "A derrota de um gigante repercute mais do que a vitória de um medíocre" (no blogue de Leonardo Luz). "Só existe uma maneira de evitar as críticas: não fazer nada, não dizer nada e não ser nada" (Aristóteles). "Quando um escritor escreve, todo o mundo escreve com ele" (Wu Ming). "Mestre é aquele que, de repente, aprende" (Guimarães Rosa). "Se o povo acredita em político, fica fácil acreditar em qualquer coisa". "A literatura ajudou a nos constituir como seres que desconfiam, porque não há mais como dialogar com o mundo sem desconfiança, tampouco ter a pretensão da imparcialidade; em meio ao emaranhado de discursos, somos levados a optar pelos que nos convêm e a arcar com a responsabilidade da escolha" (Dalcastagne). "Saber consiste apenas em soerguer um véu" (Georg Lukács). "O que cura o corpo é unicamente a alma" (Huberto Rhoden). "Até o mel mais doce azeda num recipiente sujo" (Pitágoras). "O amor é uma forma de conversação em que as palavras agem em vez de serem faladas" (D.H. Lawrence). "Nada de grande se faz sem paixão" (Hegel). "A consciência de Deus é a consciência que o homem tem de si mesmo" (Feuerbach).

 

 

o homem no futuro: escravo da máquina? a própria máquina?

 

 

O ser humano tem dependência da máquina. São no mínimo 23 as máquinas que sustentam a vida doméstica do homem contemporâneo: geladeira, fogão, lava-louças, ferro de passar, micro-ondas, computador, impressora, rádio, celular, chuveiro, som, automóvel, aspirador, relógio, aparador de grama, televisão, liquidificador, máquina de lavar, ventilador, sanduicheira, máquina de costura, secador de cabelo. (Há casos em que são menos ou mais máquinas).

Sem esse equipamento a vida já não seria mais possível. A máquina tornou-se, na esteira de Marshall McLuhan, uma extensão do corpo. O ápice vai se dar quando for uma extensão da alma. A conquista da Lua foi uma extensão do olho, assim como a do infinito será a ousadia da extensão do sonho. Tudo é questão de tempo. As soluções existem para ser conquistadas. O funcionamento de uma casa hoje depende do diálogo das ciências. Anaxágoras escreveu que "o homem pensa porque tem mãos". E no bojo desse aforisma está o desafio permanente de o homem se superar. O próximo passo será sempre mais eficiente porque precisa superar os riscos do retrocesso, do erro, de tudo o que escraviza o tempo, uma vez que somos, como humanos, limitados pela finitude. E pelo fato de a vida não dar duas safras. Dependemos da máquina porque ela identifica o sentido da nossa evolução. E da nossa estupidez. Ela expande o nosso limite. E cria uma perspectiva de eternidade como a criação do universo por Deus, de quem somos imagem e semelhança.

A nova eletrônica traz em si a possibilidade de não haver carência nem excesso de produtos, com melhoria na qualidade de vida e na produtividade, congregando uma surpreendente diminuição do esforço humano. Engenharia mecânica, engenharia elétrica, física e computação estão hoje unidas nas grandes instituições de ensino, de pesquisa e de produção em série para descobrir e produzir equipamentos funcionais que garantam ao homem ganhar tempo e satisfazer-se com os benefícios do multiuso, contribuindo para a economia doméstica. A quantidade de máquinas usadas dentro de casa dispensa a contratação de empregada. Nesse sentido de praticidade, no futuro próximo robôs domésticos substituirão a maioria das máquinas atualmente em uso e levarão o homem a pensar, como o fez Joseph Coates, que "a morte é uma doença a ser curada".

É o caso de se pensar na Rose, a famosa faxineira androide da família Jetson da série de TV, que além dos seus afazeres domésticos é capaz de ser vigia, guia turística ou de exposições, companhia para idosos e crianças e até enfermeira. É o caso de se pensar também no GPS (global position system), já muito utilizado, e em breve o cyber-motorista. Ou em robôs-bombeiros, latas de lixo "inteligentes" e computadores-cérebros que serão tão comuns quanto microcomputadores e telefones celulares.

A partir dos parâmetros sempre imediatistas da pós-modernidade, baseados no mundo capitalista, industrial e globalizado, da comunicação instantânea e da irrefreável consequência do aparato da robótica — a demanda de concretização dos caprichos domésticos em projeções ultra utilitaristas tenderão a superar ou no mínimo igualar às invenções da ficção científica. Isso porque a robótica está começando a entrar nos lares das pessoas comuns. Robôs prestadores de serviços domésticos cada vez mais eficientes e por preços razoáveis já podem ser adquiridos em grandes lojas. Além das vantagens provenientes de sua "natureza" tecnológica (o termo "tecnológica" englobando aqui todas as evoluções em função do bem estar humano), os produtos domésticos hodiernos estão ao alcance de qualquer pessoa por custos e facilidades relativamente módicos para todos. Têm desempenho com máxima rapidez, precisão dos movimentos, robustez dos componentes pneumáticos, tornando-se imunes a vibrações e golpes, com multiplicidade de ações industriais, pois são projetados para atender à ampla demanda de serviços domésticos e em ambientes comerciais como restaurantes, lojas, escritórios, entre outros. Já existe até o AIBO, um robô japonês utilizado para substituir os cães de verdade, dotado de uma "personalidade" única. Os "produtos" atuais têm fácil manutenção, resistência a ambientes hostis, como poeira, atmosfera corrosiva, oscilações de temperatura, umidade, submersão em líquidos, quando projetados para essas finalidades. Isso sem falar no avanço fabuloso da rede neural como um processador para armazenar conhecimento experimental e torná-lo disponível para uso doméstico. E, para não se tornar escravo de suas próprias invenções, deve o homem considerar aonde vão chegar os benefícios dos equipamentos oriundos da eletrônica digital e da inteligência artificial.

 

 

influência dos sinos no trabalho e na vida social

 

 

Aprende-se muito sobre a sociedade com a leitura de livro como Para um novo conceito de Idade Média — tempo, trabalho e cultura no Ocidente, de Jacques Le Goff, Editorial Estampa. Em nível de antropologia histórica essa publicação presta-se a informar sobre a influência da Igreja e da monarquia, de como se estrutura o Baixo Império Romano até a Revolução Industrial dos séculos XVIII e XIX, e de entender como o imaginário é responsável pela evolução dos homens.

Sob influência marxista — a Idade Média marcada pela problemática da chamada "longa duração" e pela etnologia como diálogo fecundo entre as várias ciências sociais —, Le Goff, especialista no assunto, dá ao leitor as chaves de nossas origens: as realidades com que se enriqueceu a nossa mitologia, a fome, a floresta, a vagabundagem, as profissões lícitas e ilícitas, a pobreza, a mendicidade, a lepra, a peste, o pecado, o domínio dos poderosos e dos ricos sobre os mais fracos e os pobres, a que aliam-se as criações com que sempre vivemos: a cidade, a nação, o Estado, a universidade, o moinho, a máquina, a hora e o relógio, o livro, o garfo, o vestuário, a pessoa, a consciência e, finalmente, a revolução. O livro trata, com erudição mas em linguagem acessível para leitores exigentes, sobre o tempo da Igreja, o tempo do mercador, o tempo do trabalho. É uma Idade Média que projeta no tempo e no espaço as ciências que vão se contraporem na Idade Moderna. Após analisar a Idade Média de Michelet, "triste, obscurantista, petrificada e estéril", deste autor de uma coleção sobre o assunto, influente na História, Le Goff põe em foco como os sinos das igrejas "são a grande revolução do movimento comunal", marcando, historicamente, o tempo clerical através da passagem de uma divisão eclesiástica do tempo para uma divisão laica do tempo. É muito interessante, por isso, conhecer que no Ocidente medieval a condição metrológica estabelece ou impõe mesmo o diário da terra compreendido nos acontecimentos entre o levantar, o pôr do sol e a hora canônica.

Os sinos é que faziam a demarcação das ocupações e tinham profunda influência na vida comunitária, quando então eram multiplicados em torres erguidas pela Igreja e pelos patrões, "fornecedores de trabalho." Os sinos eram assim o coração da vida medieval, o relógio de ponto, o fiscal do trabalho, o controle de qualidade, a referência para distinguir classes na categoria social. Em 1361, por exemplo, todo tecelão que trabalhasse depois do sino da manhã ter tocado seria multado em "cinco soldos parisienses", tendo surgido, também naquele século, a duração do dia de trabalho como motivo das lutas operárias contra a tirania patronal no domínio da burguesia. Havia então o "sino de patrulha", o "sino do conselho", o "sino da campana comunitária", cada um exercendo uma função na vida feudal monástica e pela Igreja, definindo em seus parâmetros o que era certo e o que era errado na Idade Média.

Era tamanha essa influência que Pierre Auriol, estudioso medievalista, questionou: "Tem o tempo existência fora do espírito?" Em 1335, na Europa, foi muito comum a instalação de sinos comunitários especiais para "fazer uma ordem" pela qual os trabalhadores se regulassem no trabalho, à hora de comer, do ócio e de deixar a obra. Fosse o trabalhador "mester de tecelagem", um pisoeiro (o que encorpava os tecidos com uma espécie de máquina de origem holandesa de nome pisão), ou um homem rural (laboratores); os que rezassem uma oração (oratores), ou os que se preparavam para mais uma guerra (bellatores). Fosse na peleja do labor a definir o progresso econômico monástico, fosse na definição canônica da pedagogia espiritual, o fato é que os sinos tiveram tudo a ver com as definições temporais da Idade Média e, por conseguinte, das épocas sucedâneas. Ao repicar, o sino tangia no emprego do tempo a função humana e sua dignidade.

Foi somente em 1370 que Carlos V ordenou que todos os sinos de Paris se regulassem pelo relógio do Palácio Real, que batia as horas com auxílio dos sinos, como ainda sói acontecer até hoje. Donde Horácio ter imortalizado a expressão latina carpe diem (aproveita o dia) para designar a importância da vida humana muito rica em experiências enobrecedoras que fazem aprender e distinguir valores e que têm como limite a finitude.

 

 

os tentáculos da mediocridade

 

 

A pressa hodierna corrói a verticalidade do pensamento. E faz predominar a superficialidade, que é o resultado da alienação e do excesso do "mantenha-se à distância" nas redes sociais. Os argumentos tornam-se frágeis, transigentes, efêmeros e fáceis. Quanto mais rápido for o pensar, maior a influência entre formadores de opinião. Tudo fica à tona vindo de lugar algum. Isso não é apenas característica do ser humano contemporâneo: é pressão da sociedade de consumo, da sociedade líquida, que expõe a fragilidade no que toca as relações humanas. Não há contatos sólidos, incapazes que são, como a água, de manter a forma, num mundo em que as pessoas se esforçam para parecer humanas. E da sociedade de reivindicação permanente de direitos humanos cooptados por políticas de grupelhos de decisão na falácia do regime democrático.  

Pensar profundo é um atributo para a marginalização. Poucos se arriscam. O fácil é a regra da ignomínia. Não há interesse em pensar profundo. Não há interesse em pelo menos pensar.  O máximo é o mínimo com nada. Vai-se ao pensamento como se vai a um produto de consumo. Pela escolha imediatista que nada acrescenta a nada. Consome-se o pensar. Ninguém cuida mais de aprofundar o que pensa. Quando pensa. A informação rasa é a base da cultura. Culto, hoje, é quem transige mais em nível de Facebook, smartphone e quejandos da hora. Quanto mais diluída a informação maiores os parâmetros da mediocridade. E da aceitação social. O medíocre confia que Deus vai salvar a sua vida. Por quê? Se Deus não é medíocre!

Importante é o que choca o senso comum. O que detona a tradição. O que contradiz a doxa. O que enerva a força triunfante da fazeção de média. O que só agrada por ser medíocre. O que esvazia por dar ibope. O que apela para fazer sentido. O que alimenta o ego com o esvaziamento do caráter. O que se compraz com a vaidade. O que garante competir com o apelo à tecnologia, mas nunca com o conhecimento. O que desdenha a lucidez dos sábios. O que confronta redundâncias, mesquinharias, rasuras, nivelamentos por baixo. Fazer pensar é como fazer sofrer. Há um sofrimento mórbido em fazer o cérebro pensar. E o cérebro que não pensa dita a moda, o cânone, a regra, o que faz bem, o antídoto contra o tédio, o remédio contra a autodestruição.   

O pensar atual anula o pensar por contra própria: o que existe é um ponto de vista mais o resto da internet. O que existe é um palpite raso mais o conteúdo do Wikipédia e do Google.  Pensar profundamente é um acinte. O que sobrepõe-se à mesmice é quase uma agressão. Pensar agride a "inteligência" da mediocridade. Ler livros é uma agressão. Discutir polêmicas é uma agressão. Só se pode transigir e pensar igual: toda diferença é digna de condenação, de inquisição, de DOI-CODI, de indiferença. Ai de quem pensa por si mesmo! Estará sujeito a ser marginalizado, a ser considerado "careta", "off", a não estar com nada, sob suspeita de opor-se ao establishment, ao alcance ridículo da maioria, ao estado natural das coisas no reino da mediocridade. O que interessa às pessoas é dar opinião sobre tudo, mas não ter paciência para ouvir o outro, num processo de liberalidade rasante e quase non sense, numa relação desenraizadora, fluida, de liquidez quase imediata, por isso sem importância.

Pensar dói. E ninguém quer doer para solucionar nada. A estratégia de sobrevivência é aceitar passivamente o que condena, o que agride, o que sacaneia, o que isola pelo mérito, o que faz a diferença. É praticar a ética dos cínicos. Pensar é um ato de anulação ante a massificação. Tudo pode estar errado e prejudicial, mas se for de encontro aos grupos "pensantes" que "mudam" o mundo com a inércia, então está tudo ok, tudo certo, tudo resolvido. Tudo na paz de um deus Baal instalado na Babel. 

Tudo, porém, que é capaz de mudar a mesmice é uma afronta. Nunca se viveu um tempo tão medíocre. Nunca se escreveu tanto para nada. Aquele que sabe nada é muito maior que o sábio que duvida de si mesmo. A ignorância é o saber do século XXI. Seus maiores inimigos são a livraria, a biblioteca, a pesquisa, a filosofia, o olho no olho.  O  desdém pelo saber é o ato "inteligente" para fazer sobreviver a ignorância. Quanto mais fools, quanto mais bobos, mais se acham donos da verdade e do mundo. E se a salvação do mundo estiver nas mãos dessa gente?

 

 

antologia UBE

 

 

 

Meu caro Aricy Curvello, bom dia.

 

A Antologia UBE, com a organização de Joaquim Maria Botelho, presta-se a consolidar cada vez mais a importância da UBE no cenário nacional e no exterior, porquanto os 75 textos são quase por unanimidade representativos da produção literária brasileira.

Ela atende mesmo os objetivos de "promover o gosto pela leitura e auxiliar na consolidação do que Antônio Cândido concebeu como sistema literário", baseado na tríade autor/obra/leitor.

Além de "ampliar o escopo de oportunidades para escritores brasileiros terem maior visibilidade". Com isso, a Antologia "inspira vocações, acalenta imaginários, prepara o espírito e agiganta almas".

A seleção de textos, 25 em cada gênero constitui um acervo de ampla e diversificada temática para nortear a discussão cultural em torno da criatividade literária brasileira. É assim, como declarou Botelho, uma "iniciativa cultural de tradição", projetando a UBE com qualidade editorial.

Na leitura, foi particularmente prazeroso re/ler você, Anderson Braga Horta, Claúdio Willer, Luís Avelima, Péricles Prade, Renata Pallotini, Caio Porfírio Carneiro, Lygia Fagundes Telles, Deonísio da Silva, Fábio Lucas, Ricardo Ramos, Celso Lafer, Fernando Jorge, Moacyr Japiassu, Enéas Athanázio, autores — quase todos — com quem já mantive contato epistolar, conhecendo pessoalmente a maioria, cujas obras engrandecem muito a Literatura do país.

Corroboro sua afirmação de que a Antologia já tem um peso considerável dentre aas publicações brasileiras, e, com certeza, será um marco antológico.

Agradeço-lhe pelo envio do exemplar. Abraço fraternal,

Márcio Almeida

 

 

junho, 2015

 

 

CORRESPONDÊNCIA PARA ESTA SEÇÃO

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35540-000 – Oliveira/MG