Ninguém notava

 

os ruídos da rua
eram notas de música
para o andarilho
com dó de si

não havia palavras;
a penas, só, uma pena
cravada no peito
e emudecida

 

 

 

 

 

 

Autoquiromancia

 

na palma da minha mão
consigo ler um coração
cheio de calos

um papagaio voando
insistindo em me dar linha
a plenos pulmões

e um poema inacabado
atravessando a boca do tempo
que me dou de presente

 

 

 

 

 

 

Louca

 

 

lua louca em fatias
hoje partilhando
nosso beijo
ontem meu peito
partias

 

 

 

 

 

 

Sonho de Dante

 

sentia-se no quinto
dos infernos

em seu sonho
de quarta dimensão

chorava a última
lágrima de sangue

acordava então
seu sexto sentido

seu paraíso interno
seu primeiro sorriso

 

 

 

 

 

 

*

 

 

Te esperei aqui
uma lua inteira,
branca de saudade.
metade partida
a outra ida.

 

 

 

 

 

 

Ondas curtas

 

e fiquei ali
numa onda de silêncio
na frequência de menino
sem saber pra onde ir.

o mar com seus piratas
e os navios-fantasmas
já podiam me ouvir.

 

 

 

 

 

 

Das pradarias

 

os campos verdes
são o teu pão
teu sonho

teu chão
às pampas

te encontra
também
no mundo
de fora

o de dentro
te alimenta
mas não
kansas

 

 

 

 

 

 

Viola

 

viola chegou
me puxou das tumbas
com boca de fantasia
colossal me tragava
opulenta e curvilínea
era monumental!

sorriu de tamborim
só pra mim!
curveou de pandeiro
de nada demorou
fez muita zabumba
nesse meu peito
de agogô

cheia de repinique
ensaiou meu carnaval
ahhh, foi ela sim
na noite ligeira
samba de primeira
meu pique-nique farto
instrumental!

viola agora foi embora
levando com ela
a banda da alegria
— eu ali, de cuícas,
na marcha do bumbo

ela deixou no ar
um reco-reco sufocado
quase inaudível
um baixo de dois lamentos
no alto, as três marias
— agora triângulo
das bermudas —
e uma dispensa
sem eira nem beira
quase vazia
se não fosse o coração
[estes dois chocalhos
enxovalhados]
na prateleira

saí assim pela rua
seguindo Sem Ela
minha nova banda
na desritimia implacável
dos séculos de minutos
com meu cansaço surdo
a alma batida, esquecida
intragável, na garganta
esmorecida no bolso
e a lua violada
no saco

 

 

 

 

 

 

Epitáfio

 

farfalhei leve entre as flores
e levando a lembrança
de todos os meus amores,
vou sem pesar.

 

 

 

 

 

 

Arboral

 

a noite
de quebra-galho
cria nela raízes
— até então
dormentes —
folheia conceitos
descansa a pele
do ranço do dia
salva de pernoite
dança anseios
(seus namorados
desarvorados)
inspira ar busto
recria o corpo nu
celeste nas mãos
terreno nos pés
e sem custo
a replanta

 

 

 

 

 

 

Pele de orvalho

é teu o orvalho
que te tange
que te verdi
que te cabe
o decanto

é teu o orvalho
que te interfere
toca [de]ferido
sem expatriar
teu pranto

é teu o orvalho
que te deságua
te redescobre
e dá nova pele
ao manto

 

 

 

 

 

 

Argila

olhar para o pé da letra da poesia
é como ver o barro.

ver a poesia é como tocar a cerâmica
sentir formas, nuances, cores
vibrar sons, formar novas imagens
realizar todas as viagens
inimagináveis, infinitas

banhar-se no mar em terra
e dar um pé no ar...

[de olhos vendados]

 

 

 

 

[imagens ©lotus carroll]
 
 
 

Chris Herrmann [Christina Magalhães Herrmann] é musicista, editora e poeta natural do Rio de Janeiro, residente na Alemanha, há 19 anos. Estudou literatura na UFRJ; música e piano, no CBM-RJ e Webdesign, na Uni Carioca. É pós-graduada em Musikgeragogik (educação musical & musicoterapia para idosos, pessoas especiais e pacientes de Alzheimer) pela Universidade de Münster, Alemanha. Participou de diversas publicações de poesia impressas e digitais no Brasil, Espanha e Estados Unidos. Criou as capas, organizou e lançou, em parceria com o Congresso Brasileiro de Poesia em 2006 e 2007, cinco antologias de poemas de suas comunidades virtuais. Publicou a coletânea de 178 haicais Voos de Borboleta, prefaciado por Leila Míccolis, em 2009, pela editora Protexto, com segunda edição digital pelo TUBAP, em 2015. Criou a capa, prefaciou, participou como poeta e foi uma das organizadoras do livro digital Sobre Lagartas e Borboletas, TUBAP, 2015. Lançou também em 2015 o livro Na Rota do Hai y Kai, uma coletânea de 50 haicais, com traduções para o espanhol e ilustrações do artista chileno Leo Lobos. Criou o selo TUBAP, em parceria com Adriana Aneli. É uma das editoras de Tempestade Urbana e editora-fundadora de Boca a Penas.