Ontem

 

 

choveu hoje à tarde

pensei na sua pele sob o sol que arde

seu orgasmo descontrolado

te escondi do relógio

pra encostar a boca no seu cu

antes do fim do dia

o ácido compartilhado no beijo

justo eu que sem medo me entrego ao desejo

te chupei

me lambuzei de você

seu lado cativo

das mulheres que se entregam

e lambem seus dedos doces

desaparecem na memória

flores esquecidas

num pedaço de terra qualquer

onde brotam sementes de mulher

me perco em silêncio

no cheiro do seu sexo

suas manias desleixadas

de deixar suas roupas jogadas

de se jogar no meu colo

coisas de menina

que não teve baile de quinze anos

não dançou valsa

apareceu aqui descalça

loca de LSD

e foi embora meia hora antes de amanhecer.

 

 

 

 

 

 

Falecido Zé Feio

 

 

é que meus olhos de patife

estiveram de fogo esse fim de ano

como você já deve saber

noites longas, dias curtos

dos lamentos de samba de raiz

pensei em você

escutando Nelson Cavaquinho

não tive sobriedade pra te pedir desculpas

invernei no ácido

e transei com aquela amiga sua

numa tarde

pedi pra empregada guardar seu brinco

tava em baixo da cama

ontem fui tomar umas na biqueira que era do seu irmão

os trafica me disseram que

desde aquela briga ele sumiu

no meu desleixo

sinto sua falta

de deslizar versos na sua gargalhada

do seu corpo inteirinho marrom

de morder suas iscas

dos tragos que a gente dava na poltrona

até você resolver virar fumaça

e ir embora pela janela.

 

                                      Para Sabrina

 

 

 

 

 

 

Seu Alcides

 

 

sexo amanhecido em papel crepom

o horário de verão é doce

espetaculares bailarinas

dançam virgens sobre meu coração

o sol que estupra minha janela

outra caneca de café

versos nocivos

pra desonrar minha família

antes era os crimes, mulheres e a cocaína

descobri na poesia

um jeito mais sutil de agressão

no lirismo das armas brancas

desenhei um poema

pra uma morena chamada Dirce

e na facada que dei no seu pai...

 

 

 

 

 

 

Cesto de Palha, Febre Amarela e Uma Velha Crente e Surda

 

 

quando chove

o excesso se prolonga

minha loucura precisa de janelas abertas

contato visual permanente com o céu

pra poder xingar deus

cara a cara

e procurar estrelas perdidas

iguais a você

as cores descansadas naquele seu vestido

o tempo esquecido dentro de um compartimento secreto no fundo da sua bolsa

seu corpo de cheiros

e seu seio esquerdo é um pouquinho maior que o direito

mamadeira de afetos

despretensiosa mulher

misto de imaculada

com prostituta

que esconde o rosto e expõe o rabo

nas nossas fotos

pra se derreter quando passeio minha língua pelo seu clitóris

desfalecida de tesão

imagino o cosmos dentro da sua boceta.

 

 

 

 

 

 

Helena e os Caminhoneiros

 

 

adormeci de bruços no calor

amei o sol

enfeitei minha vida

tomando cerveja com minha mãe

disfarcei a dor

fiz preces incansáveis a Exu

trepei feito animal

amei o sol

com a cara enfiada na xoxota da Letícia

sofri menos do que merecia

transformei meus fetiches em vida real

sem analgésicos

sem novelas

sem fotos em frente o espelho

transei com a porra do sol

amei o sol

lambi o cu da Bia

até as cinco da tarde

não fiz firulas

farejei seu rabo como um cachorro

escutei muito samba

brinquei meu carnaval fora de hora

chapei num quadrado

festejei o sol

a quentura das coxas macias

sonhei debaixo do chuveiro

amanheço sempre de tarde

poxa

como eu amo

o sol.

 

 

 

 

 

 

Cinzeiro Amanhecido

 

 

essas avenidas sedentárias

de travestis, sinais amarelos piscando

abraços despedaçados e garotas bonitas

olha no retrovisor

não me chama de amor

seu decote cala minha boca

espero sua chama acender

e você me chamar

de pernas abertas

temperada no calor

das 2 da madruga

e amanhã hora que eu acordar

depois do almoço

vou querer te dar um cheiro

talvez eu derreta com seus chamegos de mulher

nas suas tetas morenas

abrace sua dor

e mastigue seu clitóris

até você gozar escandalosamente na minha língua

pra debochar depois

quando meu pau estiver mole

e inventar motivos pra me odiar

jurar pelos seus pais

nunca mais voltar.

 

 

 

 

 

 

Giovana Obesa

 

 

minha primavera tem o cheiro

das xoxotas das garotas

do Vetorazzo

pintam os olhos

e se raspam

nas tardes interrompidas

flertam adolescentes

enquanto o chão enfeitado

com calcinhas, blusinhas

e sutiãs

algumas descontroladas

gozam a juventude na minha boca

meninas precoces demais

maliciosas demais

experimentam o bom da vida

aqui na sala

ou no quarto

esquecem o controle remoto

buscam nos meus sambas de raiz

maneiras de se conformar com a dor

que causo

rebolam o absurdo

e eu deslizo minha cara torta

nos seus rabos abençoados

deus me fez promíscuo.

 

 

 

 

 

 

Lurdinha Desquitada

 

 

suas costas pra mim

meus castigos

suas histórias

de grana, vícios e sexo

minhas experiências

nas boêmias

prostitutas e cocaína no asfalto

não te pedi nada

pra fugir das tuas exigências

na tua xoxota morena

gozar meus riscos

meus perigos de ladrão

pra te ver enrolada

nas toalhas desgraçadas

canções tristes depois das ressacas de pó

quando sua tristeza

chocava meus olhos ateus

sem socorro

te vi pagar pelos seus pecados mundanos

me fez sofrer

de ciúmes pelo seu prazer

chupadora de paus

brilhando sua carne promíscua

dormir depois do meio-dia

pra inspirar outra poesia

sem nem ao menos

ter me amado.

 

 

 

 

 

 

Reginaldo e a Caixa de Fósforos

 

 

soltei a mão do santo

a maldição veio de escolta

sufocado pelo azar

no colo da devassa

mas eu lembro

da cor do isqueiro

das roupas no varal

do cheiro de puta no meu corpo

do gosto da cachaça

ensaiei minha morte

no ato falho

fracassei

não me desculpei

partilhei no N.A.

recaí pra confirmar

vislumbrei noites doces

bocas abertas pro céu escuro

briguei demais

abri meus pulsos pro universo entender

meus caprichos violentos

fantasio a dor

depois do terceiro copo

dispenso a calma das pessoas boas

e atropelo anjos hermafroditas enfeitados de boneca

cristo me fodeu

cristo me atrofiou

cristo enfiou o dedo no meu cu.

 

 

 

 

 

 

Dentro da TV

 

 

sua ferida inflamada

os segredos no seu decote

sonhei sua pele dourada

você sorriu dos meus blefes

amadureceu de quatro

aceitei o estrago

confundiu os copos

deduziu minhas segundas intenções

fez charme sem calcinha

e cheirou todo pó que eu tinha

já que amei em vão

a vida é só esculacho

a gente bebe cerveja

assiste novela

apostas dramáticas

com a cortina arreganhada

beijei seu cu

contrastes tropicais

sua carne ancorada na minha

pra te ver comemorar

o tempo que desliza do lado de fora

é seu.

 

 

 

 

 

 

Astrofagia. Palavra Que A Marina Loca de Pó Inventou

 

 

aproveita esse bocado de primavera

que ainda nos resta

das horas apagadas

dos relógios digitais

dramas contemporâneos

suicídios antiquados

o desespero é pontual

no vidro do meu banheiro

tem uma porção de domingos de sol

flores sobre meu lençol

eu não ligo pra essa transa de signos

esse seu jeito de me machucar

às vezes me agrada

é, você me jogou fora

derrubei um pouco de uísque com coca na cueca

hoje cedo vi um beija-flor

sorri da própria desgraça

você tinha que ver mi amor

como é bonito essa porra de beija-flor.

 

 

 

[imagem ©elena fabretti]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

André Rocha (São José do Rio Preto/SP, 1988). Depois de ser fichado inúmeras vezes pela polícia,  o autor entrega sua hostilidade para a literatura marginal e publica o seu primeiro livro de poemas, Suzana sem calcinha na calçada de paralelepípedos (Carrancas, 2015). Tem textos publicados no jornal Elefante de Menta, em Mallarmargens, escreve no blogue Mulheres e Outros Lances e escuta samba aos domingos.