Estranhos conhecidos

 

Depois de quarenta anos

virar para o lado direito da cama

e ver uma outra pessoa

que não aquela conhecida.

Caminhar até o espelho

e reconhecer um outro rosto.

E não há mais nada a fazer

a não ser sorrir.

Todos serão sempre outros

sendo os mesmos.

E isso talvez seja o mais interessante

— tolerar estranhos conhecidos.

 

 

 

 

 

 

Sobre os livros

 

Não quero ser eterno pela beleza ou

feracidade dos meus rabiscos.

Quero a lembrança pela felicidade

que tinha para com as páginas e

pelos beijos nas namoradas.

 

É mais fácil ser eterno quando

as lembranças se parecem com relâmpagos.

 

 

 

 

 

 

Suicídio literário

 

Debruçados sobre o papel

muitos dizem morrer a cada linha.

Uma dor de parto e angústia que só

em títulos como A Ilíada encontramos.

Suicidam-se com o peso

da criação e atravessam

páginas como liturgias.

 

Debruçado sobre o papel

pelo contrário

eu vivo.

 

 

 

 

 

 

Eu queria muito

 

Eu queria muito

muito ser Deus

para poder me moldar

à canção do tempo.

 

 

 

 

 

 

Fim dos tempos

 

Nunca se sabe o peso de uma vida inteira.

Cultivo nuvens para uma velhice

cheia de sol.

 

 

 

 

 

 

O medo dos sobreviventes

 

Dizem que a morte é terrível:

o lado escuro do toque

o silêncio das horas

os amantes que jamais se verão.

Dizem.

Acreditar nisso é um enorme engano.

A morte sempre me pareceu tão viva

em seu lado escuro e tão presente

dentro dos filmes americanos que

nada tem de temerosa.

Solidão de quem ama.

Viver é que é o medo

o medo dos sobreviventes.

 

 

 

 

 

 

Espanto frente à aula

 

Quando a professora disse

que a água do mar

assim como o céu

não era azul

fez brotar o espanto na classe.

Tudo é luz que ilumina a vida e cria ilusões —.

Tudo é negro, escuro, dentro de suas almas

e a cor é dada pelo reflexo luminoso.

Seria então a vida, os automóveis e os homens

uma eterna ilusão criada pela incisão da luz

em nossos olhos que a morte, trevas, apagará?

 

 

 

 

 

 

Humanização

 

A mesa do quarto

a cadeira da sala

o sofá estragado

o poste

a luminária

as pedras.

Todos os objetos também sonham

o sonho dos humanos

porque neles depositamos nossas simpatias.

 

Na inanimação do mundo

sempre existirá um amigo que partiu ficando.

 

 

 

 

 

 

Se você me pedir para falar de amor

 

A única língua que falo

é a do silêncio.

O amor não cobra metáforas para ser.

 

 

 

 

 

 

Minha vida não foi uma aventura

 

Minha vida não foi uma aventura

não caberá nas histórias inventadas para os netos.

Nenhum conto de piratas adaptado.

Todo tesouro foi enterrado

nas páginas brancas que cortam noites

e são saqueadas por ladrões de momentos.

Fui uma criança quieta, tímida, à espera

dos livros e gibis que chegavam

junto com o pai na volta do trabalho.

Aprendi a ler pelo tato e pela ânsia do retorno.

Os abraços eram minhas maiores proezas.

Sequer exagerei nas meninices.

Portanto, para aqueles que ficarem,

não esperem feitos heróicos ou navios tombados.

A estrada seca é mais virtuosa que o combate lacrimoso.

Não recuperarei meu tempo e também não o quero.

Outros virão e o prazer é sempre o mesmo.

Eu sempre serei um pirata em busca

do ouro perdido.

 

 

 

 

 

 

Ciranda antiga

 

Descobri que nós éramos felizes

nos tempos da ciranda antiga

quando o cinema era mudo e falava-se pouco

Chaplin sorria e um poema bastava

para qualquer menininha se apaixonar.

Era tudo simples.

Hoje, por mais incrível que pareça

as buzinas tornaram-se altas e a vida

ah, a vida

tornou-se muito mais complicada

do que escrever um poema.

 

 

 

 

 

 

Homenagem a Pixinguinha

 

Pois é no choro

no chorinho aguado da vitrola antiga

que a minha alma lava

os seus esquecimentos.

 

 

 

[imagem ©pedro reis]

 

 

 

Angel Cabeza (Rio de Janeiro). Poeta, escritor, jornalista e autor dos livros Vidro de guardados (poemas) e A beleza do feio (crônicas). Prefaciou o livro Novas histórias da velha Lapa (MRB, 2009) do cineasta, maestro, professor e compositor de Daniela Mercury, Dudu Fagundes, e escreveu as orelhas do livro de fotografia Poesia visual (Alta Books, 2010). Faz parte da 10ª antologia Painel brasileiro de novos talentos, pela editora CBJE. Possui poemas, crônicas, entrevistas, críticas e resenhas publicadas em mídias impressas e digitais, no Brasil e na Espanha. Entre estas, revista Bula, Famigerado, Capitu, PO&SIARTE, Verso Distierro, Ariadna, Palabras Diversas, Cuarto Própio, Molino de Versos, Literatura em Foco, etc. É colunista do jornal carioca Objetiva em Foco e publica regularmente textos no seu blogue pessoal [ www.angelcabezza.blogspot.com ].