Há duas linhas na poesia brasileira atual. Uma deriva do neobarroco hispânico e também de Galáxias, de Haroldo de Campos. É a linha de Wilson Bueno, com Mar paraguayo e Novelas marafas. A outra linha, que se difunde mais entre os poetas brasileiros atuais, deriva da poesia concreta do Grupo Noigandres nos anos cinquenta e sessenta, grupo integrado inclusive pelo próprio Haroldo. Francisco dos Santos é um representante notório desta linha. Esmiúça as palavras, elimina sua constrição sintática e desenha uma página de poesia. Torna as palavras objetos de uma construção visual. Vale dizer, um desenho plástico aproxima o poema à pintura. Mas a palavra não perde sua virtude; entre os segmentos organizados na página se filtra a emocionalidade do poeta, seu gosto pelo som e a comunicação linguística. O poema concreto expressa mostrando, e mostra significando. O livro O pássaro bebê tem um modo até infantil de ternura que denotam as palavras que ele escolhe. O poema é uma entidade na página; as sílabas se distribuem com elegância por esta sequência concreto/abstrata, um idioma privativo dos pássaros bebê, parece, que ressoa e se organiza, e mantém o deleite sonoro e brincalhão de um idioma novo. Narram-se histórias curtas, por exemplo: uma mancha se desloca pelo Oceano Pacífico até chegar ao próprio centro, onde nascem 'los niños', 'el Niño' e 'la Niña'.

 

Um insecto zumbe e

o homem o esmaga.

Às vezes, parece que

uma divindade faz o

mesmo com o homem.

 

No entanto, o divertido diante de tudo isso é escarafunchar as palavras jogando com o formato visual e a ressonância verbal. O poema, diríamos, foge ao significado. Se há significado este é relativamente simples. O que está em jogo é a arte de combinar letras de acordo com pautas visuais. Então, a página é ao mesmo tempo obra plástica e ressonância sonora. Porém, talvez, exagere. Uma história deliciosa do livro é narrada quase diretamente: o homem se apaixona pelo cavalo. O mais desfrutável para mim é o precioso haicai sobre o beija-flor.

 

[Tradução de Eclair Antonio Almeida Filho]

 

 

 

El pájaro bebé

 

 

Hay dos líneas en la poesía brasileña actual. Una deriva del neobarroco hispánico y también de Galaxias, de Haroldo de Campos. Es la línea de Wilson Bueno, con Mar paraguayo y Novelas marafas. La otra línea, que cunde más entre los poetas brasileños actuales, deriva de la poesía concreta del Grupo Noigandres en los años cincuenta y sesenta, grupo integrado asimismo por el propio Haroldo. Francisco dos Santos es un representante notorio de esta línea. Desmenuza las palabras, elimina su constricción sintáctica y diseña una página de poesía. Vuelve las palabras objetos de uma construcción visual. Vale decir, un diseño plástico aproxima el poema a la pintura. Pero la palabra no pierde su virtud; entre los segmentos organizados en página se filtra la emocionalidad del poeta, su gusto por el sonido y la comunicación lingüística. El poema concreto expresa mostrando, y muestra significando. El libro O pássaro bebé tiene un modo hasta infantil de ternura que denotan las palabras que elige. El poema es una entidad en la página; las sílabas se distribuyen con elegancia por esta secuencia concreto/abstracta, un idioma privativo de los pájaros bebé, parece, que resuena y se organiza, y mantiene el deleite sonoro y juguetón de un idioma nuevo. Se narran historias cortas, por ejemplo: una mancha se desplaza por el Océano Pacífico hasta llegar a su mismo centro, donde nacen los niños, el Niño y la Niña.

 

Um insecto zumbe e

o homem o esmaga.

Às vezes, parece que

uma divindade faz o

mesmo com o homem.

 

Pero lo divertido ante todo es agujerear las palabras jugando con el formato visual y la resonancia verbal. El poema, diríamos, huye del significado. Si hay significado éste es relativamente simple. Lo que está en juego es el arte de combinar letras de acuerdo a pautas visuales. Entonces, la página es a la vez obra plástica y ressonância sonora. Pero quizá exagero. Una historia deliciosa del libro está narrada casi directamente: el hombre se enamora del caballo. Lo más disfrutable para mí es el precioso haiku acerca del picaflor.

 

 

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O livro: Francisco dos Santos. O pássaro bebê.

São Paulo: Lumme Editor, 2025. 60 págs., R$ 48,10

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fevereiro, 2026

 

 

Roberto Echavarren é poeta, narrador, ensaísta e tradutor. Entre seus livros de poemas se destacam Centralasia (Premio Ministerio de Cultura de Uruguay, edições na Argentina e no México; edição bilíngue no Brasil), El expreso entre el sueño y la vigilia (Premio Fundación Nancy Bacelo; The espresso between sleep and wakefulness, bilingual edition); Ruido de fondo y el monte nativo (The Virgin Mountain, bilingual edition). Performance é um volume misto: antologia de poemas, entrevistas, resenhas críticas em torno de sua obra. Ensaios: El espacio de la verdad: Felisberto Hernández, arte andrógino (Premio Ministerio de Cultura de Uruguay), Fuera de género: Criaturas de la invención erótica, Michel Foucault: filosofía política de la historia, Margen de ficción: poéticas de la narrativa hispanoamericana. Seus romances: Ave rock (edições em espanhol e em português), El diablo en el pelo, Yo era una brasa, Archipiélago. Las noches rusas é uma crônica sobre a vida política e cultural da Rússia durante o século XX. A peça Natalia Petrovna foi premiada e publicada pelo Centro de España no Uruguai. A peça África, la muñeca de Felisberto Hernández, baseada em um caso real, foi publicada e apresentada em Montevidéu ao longo de 2012 e 2013. Dirige a editora La Flauta Mágica, especializada em edições críticas bilíngues de poesia em tradução e no resgate de obras poéticas imprescindíveis escritas em espanhol.

 

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