©sguimas [com jair fonseca]

 

 

 

a reviravolta do poema

 

 

meu poema voltou

como um boi pastando

o arco-íris.

(com o rosto triste de um domingo à

tarde).

 

voltou com um humor

de morte.

 

de qualquer sorte,

eu o aceito eu o aceito.

 

que venha o poema.

 

vestido de céu, de lua,

de estrela desgarrada.

 

que venha do nada,

nu e cru

da sarjeta, da favela.

 

um poema antessala.

 

da mãe que perdeu

o leite porque o filho

morreu.

 

tentarei recriá-lo

ao meu jeito.

 

tal e qual menino,

meu poema raquítico

tosse muito

 

pelos cantos da sala.

 

suplico sua fala,

faço-lhe cócegas em estilo

ou forma, nada.

 

nem que eu lhe fale

de coremas, do açude,

dos rios, da minha infância descalça.

 

enfim, do meu amor por

fátima.

 

(o poema, imbativelmente

taciturno)

 

e eu

em meu silêncio de pai

dou-me por vencido

e durmo.

 

 

 

 

 

 

meus córregos

 

 

dos córregos recolhi meus

pés,

eles na infância eram meus

sapatos fiéis.

 

hoje, não os calço, trago-os

na memória

para curar meus calos.

 

corri nos córregos, não

dos córregos.

 

o tempo me fez

andar mais rápido.

 

os córregos são imagens

que me atravessam como

riachos.

 

 

 

 

 

 

invernos

 

 

dizem que chove

lá em coremas

 

também chove em mim

uma saudade imensa

 

o menino ia ver o rio

descer e também descia

com o rio

 

hoje

o homem é seco

de asfalto

 

um rio de atritos

 

 

 

 

 

 

diálogo de eulajose com deus

 

 

— se Deus quisesse, eu, Eulajose Dias

de Araújo, barbeiro e poeta,

há muito tempo aqui no céu,

seria o barbeiro de Deus.

 

na hora que Deus cochilasse,

cochicharia ao seu ouvido

alguns versos ateus.

 

Deus talvez

nem se importasse

se ouvisse os versos meus.

 

meus versos,

sem maldade alguma,

diriam que a poesia

é santa, é puta,

é Maria Madalena,

não sei das quantas.

 

— a poesia ainda que apedrejada,

sangrando os pecados do mundo,

depois ressuscita e dança.

 

se Deus lesse na minha

pasta os poemas de Augusto,

ia sentir na boca o gosto

de sangue puro.

 

jamais Deus ficaria

carrancudo.

 

Deus saberia ainda

que a poesia é carne,

é anca,

 

é a mulher

mais linda do mundo

que enfeitiçou Quintana.

 

então Deus

(do alto de sua divindade)

ficaria tão apaixonado

e embriagado,

que pediria minha pasta

de presente.

 

eu, Eulajose Dias de Araújo,

barbeiramente, poeticamente,

lhe daria de bom grado

a minha pasta

com tudo que ela tem dentro.

 

pra que literatura,

tesoura,

pente, navalha?

 

se eu, Eulajose Dias de Araújo,

barbeiro e poeta

há muito deixei a terra,

onde havia muita estrada

 

(consolo-me

com o firmamento

e os finalmentes da alma).

 

falta-me terra nos pés,

o milagre de metáforas,

a montanha de poemas

que tinha na minha pasta.

 

mas exercício de barbeiro,

eu exerço!

se Deus me pedir com zelo,

juro que lhe faço a barba.

 

e ainda: se Deus

me der como mágica

a cadeira de barbeiro,

a minha loção de barba,

 

Deus ficará tão cheiroso,

tão cheiroso,

que Deus todo-poderoso

me manda de volta pra casa

na roupa de outra alma.

 

 

 

 

 

 

corpo e alma

 

 

de corpo e alma

minha infância

tinha o açude

de mãe d'água.

 

nas ruas tortas

de coremas

a bêbada, paturi,

procissão de meninos

em sua volta

as manhãs jorrando chafariz.

 

o louco, jacinto,

um sobrado na alma

 

(a infância descalça).

 

de corpo e alma

minha infância

tinha o açude

de mãe d'água.

 

a praça redonda redonda

circo sem lona

 

o olhar severo

do meu pai

sorvete derretido em

minha alma

 

 

 

 

 

 

os amantes

 

 

as roupas dos amantes

debulhadas pela

casa

 

são roupas sem

inquilinos

dentro de outra

casa.

 

aí, os amantes viram

estrelas aladas.

 

 

 

 

 

 

previsão do tempo

 

 

Sem vista

 

Meu avô não

Via

Que o engenho partia

Para o chão.

 

Restou-lhe a bengala

A guiá-lo em contramão.

 

 

 

 

 

 

quase poética

 

 

ando triste com o poema

ultimamente me trata com dedo em riste

 

eu o trato bem,

com rios, mares, açudes

 

tudo que posso faço pelo poema

mas sempre vai embora

 

atrevido,

diz que não volta

meu coração bate alegre quando ele volta em silêncio

 

Sujo, embriagado, sujo de vômito.

 

eu devia ser seco com o poema,

como faz Joao Cabral

 

ao contrário,

dou tudo que o poema quer

 

leio Manoel de Barros, Quintana, Bandeira,

 

Mas o poema implicante exige que eu leia Baudelaire

 

bato a porta na sua cara

vou ler João Cabral.

 

 

 

 

 

 

novenas de maio

 

 

Abriam-se as cortinas do oratório.

 

Eu não sabia que eram

as primeiras imagens da minha

infância

 

(O filme

em preto e branco)

 

Minha avó Cristina dava voz

aos santos

 

Obviamente

minhas tias adoravam Santo

Antônio

 

Já eu queria ação

torcia por São Jorge

contra o dragão e por seu

cavalo branco

 

Me diziam, mas eu não

acreditava, que são Jorge

também estava na película

da Lua

 

De memória

lembro-me dos santos

não sei mais as orações

 

A pior parte do filme

eram os joelhos no chão.

 

 

 

 

 

 

bandoleiro

 

 

há dias que o poema saiu de casa.

não deu mais notícias, nao disse onde estava

 

tomou um chá de sumiço

ingrato, não sei seu estado de alma

 

se está em bar, embriagado

em alguma delegacia de polícia,

empenhado por dívidas. será?

 

ando muito preocupado com esse meu filho ingrato

 

Espero que o poema esteja no mar,

no pôr do sol ou no final da madrugada pra contentar a alma.

 

 

 

 

 

 

a partida

 

 

sai de coremas cedo

sei que é tarde para

voltar

 

o açude secou

os rios secaram

a praça não é mais

redonda

 

a saudade uma enorme

roda-gigante

 

e o rio que descia por trás

do muro

agora desce pelos olhos

 

a saudade é um inverno

rigoroso.

 

 

 

 

 

 

domingo à tarde

 

 

cai a tarde como

um rochedo nas

minhas costas.

 

não tenho dívidas,

nem rosas, nem jardins.

 

fito o trânsito

interminável a abater-me com suas

buzinas.

 

cai a tarde

e eu me despedaço

 

como aquele

morcego que vai

dormir.

 

                  

 

 

  


 

 

 

 


Chico Lino Filho é natural de Coremas, alto sertão da Paraíba, onde nasceu em 15 de junho de 1959, mas radicado em João Pessoa desde 1975. Publicou Paixão movediça, Abajur de Lua, Poemas de amor e silêncio, Inverno invisível (de poesia) e Itinerário do desamor (contos). Alguns dos seus poemas já foram musicados por compositores paraibanos, entre eles Adeildo Vieira, Artur Silva e Dario Júnior. O poeta, que em 2000 recebeu o título de cidadão pessoense, já teve poemas seus publicadas na revista da Biblioteca Nacional, Correio das Artes e em várias antologias poéticas.

 

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