©sguimas

 
 
 

 
 

(As coisas)

 

 

as coisas não surgem do mar

a não ser na bahia de todos os cantos

onde todos os afluentes

deságuam negrumes salgados

 

tambores em versos gregorianos

temperos no auriverde pendão do pelourinho

 

e caetano me falando de outros santos que não rezavam agonias

e das baianas com estranhas liturgias dentro das anáguas

 

oração na igreja do bonfim: as coisas só surgem se amar.

 

 

 

 

 

 

(Bica)

 

 

(para Vinícius Guedes)

 

 

jacarés

em silêncio

ruminando o bote na natureza humana

 

leões na jaula

presas da civilização

 

araras

em voo para o nada

: gaiolas de ilusão

 

macacos

em saltos graciosos

(bananas ao homem)

 

(no passeio, palmas para os acuados animais

que não assustam nem as criancinhas).

 

 

 

 

 

 

(Cabo Branco e outros mares)

 

 

trago medos da barreira de cabo branco

saudades de barracas e agueiros

meu pai beliscando uma agulha

o menino que corria nas areias do sol

 

trago memórias do sal de tambaú

e do imponente hotel, cartão postal da maresia

lembranças do mercado, dos bares, da lua

o menino lambendo os dedos afrodisíacos

 

trago a solidão escura de manaíra

e o descampado vazio de seu calçadão

cantigas do nada para os pescadores da vida

cantigas de espumas nos pescados dos pratos

 

trago outros mares que jogam suas ondas em minha lida:

 

bessa e seus bares da moda

a penha com seus hábitos populares

o seixas, onde o sol nasce primeiro

jacarapé, onde os corpos morrem primeiro

 

 

 

 

 

 

(A fala da fala do mar)

 

 

ouça, o mar fala conosco

sussurra lições do eclesiastes

 

brada aos ventos

 

(nada)

em moinhos quixotescos

 

o mar canta aritmética

implora a pitágoras

a perfeição, a perfeição de deus

 

o mar

fala a nós de camões

e do fraco rei que torna fraca a forte gente

 

o mar

estupida o irreal

o mar, sabemos,

sim é real

 

som sem melodia

 

ah, é música!

 

(vamos dançar, agora?).

 

trago alegrias do cabo branco da infância

e medos, do cabo branco amanhã

trago dores e os banhos de sargaços na alma

trago tatuagens, marcando minha pele necromante.

 

 

 

 

 

 

(A gata e o rato)

 

 

precisaria ter a sedução de Frajola

ou a esperteza de Tom

 

para pegar a gatinha no meio das pernas

e brincar com ela

 

como se fosse isca, meu queijo, meu reino

 

de longe, sinto o cheiro e como

: caí na armadilha da xaninha.

 

 

 

 

 

 

(Das negativas)

 

 

não, não me venha declarar a palavra amor

 

ela já vem viciada em sua origem

com seus planos que não saem do plano da carência

e da dolorida, mesquinha e previsível ausência

(que sempre se realiza)

 

não, deixa a palavra amor quieta

dormindo

embalada no berço do sorriso menino:

 

amar é morar longe, muito longe, do partir.

 

 

 

 

 

 

(Ladainha)

 

 

um oásis se constrói com desertos

 

perto

(ou)

longe

 

um oásis se constrói em desertos

 

perto

(e)

longe

 

um oásis se constrói

(e os desertos?).

 

 

 

 

 

 

(A cor do rio)

 

 

breu:

 

o cristo redentor finge não saber

de seus entornos

dos cochichos nos morros

de como se cochila

e morre

(nas encostas)

(nos encostos)

do que a mochila esconde

na floresta da tijuca

 

por trás do corcovado

flanando embaixo do bondinho

caminhando em copacabana

o pivete de chico ainda vende chiclete

mas já não faz salamalaque

: mastiga poemas drummondianos

e só se sossega ao ouvir o funk da fernanda abreu.

 

 

 

 

 

 

(A noite demora a cair em Buenos Aires)

 

 

a noite demora a cair em Buenos Aires

como um tango de gardel que quando se vê já dançou

e você ficou ali, na esquina do obelisco

falseando o castelhano

para entender o cigarro nervoso do hermano

que passeia as ruas centrais com seu vício

enquanto nosotros traduzimos livrarias

 

a noite demora a cair em Buenos Aires

porque o diálogo com cortázar

não é mais difícil do que torcer por maradona

jogos de amarelinha no caminito

jogos e paixão na bombonera

na ateneo, a sentença de borges

incapaz de imaginar um mundo sem livros

 

a noite demora a cair em Buenos Aires

(mas cai!)

e traz casais dançando numa praça qualquer da cidade

e o passeio por cafés, cafés e cafés

até ver o silêncio esnobar a madrugada

e você tirar o sol da algibeira

para que a noite possa subir em Buenos Aires.

 

 

 

 

 

 

(Quase vivos)

 

 

há, entre nós, as mesmas sepulturas:

elas foram cavadas para os negros

sacrificados como carneiros

em feiras livres, em sujas senzalas

 

nossos cadáveres fedem como todos os mortos

como os índios dizimados pelos portugueses

em aldeias que hoje são apenas vitrines

para turistas, para os mecenas do capital

 

nossos cadáveres morreram nas secas

nos flagelos, nos sertões deles

deles mesmos, os coronéis

eles que cortam os dedos e levam os anéis

 

nossos cadáveres tentaram atravessar

os anos 60 na paz, no amor

mas foram torturados nas prisões

no submundo da nossa política imunda

 

nossos cadáveres chegaram ao século vinte e um

recebendo golpe atrás de golpe de bastardos

vestidos de amarelos, de bastardos

furtando nosso amarelo, sendo patos em nossa chacina diária

 

nossos cadáveres existem porque foram criados por eles.

cabe apenas a nós enterrá-los.

 

 

 

 

 

 

(4 estações)

 

 

as estações mudam:

o que era primavera de chuva

torna-se inverno quente

 

ou vício sem verso

sem poesia

na hora em que as coisas se benzem na ausência de orações

 

as estações mudam:

o que era outono florido

torna-se verão frio

 

ou verso sem o vício

da poesia

debulhando rituais adormecidos na hora do ângelus.

 

 

 

 

 

 

(Espólio)

 

 

não tenho bens:

não deixarei apartamentos

nem dinheiro perdido em algum banco

 

levo minhas dúvidas,

mas deixo algumas poucas dívidas

e um carro velho com prestações vencidas

 

deixo minha poesia, sim

que é o que há de sobrar de mim

após o último suspiro da noite!

 

 

 

 

 

 

(Bússola)

 

 

meus instrumentos de navegação

estão em meus próprios pés

 

e ele navega como um pequeno barco

indo de um lado a outro de oceanos

 

sem enjoos, negando os eu te amos

indo para lá, indo para cá

 

ao sabor dos ventos, tempestades

ancoradas no fundo do lar

 

titanics que nunca, nunca afundam

mas ficam boiando no mar

 

meridiano magnético de corações

e dentes que só mastigam espinhas

 

imã de sensações que já já acontecerão

não se sabe em que porto

 

não se sabe em que seios, eu sei,

acontecerá o repouso do destino

 

terra à vista, dirão os piratas das cidades

mas onde (?), —  logo ela fica invisível

 

logo a terra marulha também

vira uma espécie de tsnunami no olhar

 

mas como na parábola do elefante

não consigo ver além da minha tromba

 

viro torrão de sal no mar, não na xícara

e nem os mapas me localizam

 

"para onde vou (?)"

— "responde, poesia, musa que não sabe das flores!".

 

 

[De Cabo Branco e outros lugares que não estão no mapa. Arribaçã, 2022]

 

 

dezembro, 2022

 

 

Linaldo Guedes é poeta e jornalista. Nasceu em Cajazeiras, alto sertão da Paraíba, em 1968, para onde retornou no final de 2017, após 38 anos em João Pessoa. Como jornalista atuou em praticamente todos os órgãos de imprensa da Paraíba. Como poeta, publicou os livros Os zumbis também escutam blues e outros poemas (1998), Intervalo lírico (2005), Metáforas para um duelo no sertão (2012) e Tara e outros otimismos (2016). Cabo Branco e outros lugares que não estão no mapa é seu quinto livro de poemas. Começou a ser construído em 2012, foi concluído dez anos depois e publicado pela Arribaçã Editora. Lançou, ainda, Receitas de como se tornar um bom escritor (2015) e participou de antologias e livros de outros autores. Em 2018, publicou O Nirvana do eu: os diálogos entre a poesia de Augusto dos Anjos e a doutrina budista, Padre Rolim em quadrinhos e Não temos wi-fi, este último em parceria com Lau Siqueira, Cyelle Carmem e Letícia Palmeira. Graduado em Letras, tem mestrado em Ciências da Religião. É membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras (ACAL), onde ocupa a cadeira 33, cujo patrono é Dom Moisés Coelho. É editor na Arribaçã Editora.

 

Mais Linaldo Guedes na Germina

> Poesia
::  revista  ::  uns  ::  outros   ::  poucos  ::  raros  ::  eróticos&pornográficos  ::  links  ::  blog  ::