©sguimas

 
 
 

 
 

Contre tous

 

 

Igual ao seu já vi centenas

e ao mesmo tempo nenhum

o que muda é essa qualidade

comum a todos: sua natureza

dolorosamente ambígua

e se o (in)utiliza como servo

dominado culpando-o por seus

erros e outros pequenos pecados

em nossa sociedade brasileira

e em quase qualquer sociedade

 

se não fizer isso é homem

e se fizer isso ainda será

embora eu o questione:

quem é você? imaginário de poder?

de grana de gastos de grandeza

de excessos extremos excedentes

um patético apoplético impotente

que vive em função do máximo de tudo

topo do mundo da cadeira do chefe

à presidência — por que não?

 

mas no fim é só um homem

existência vaga de constante moleza

e breves horas épicas e ébrias

de onde nasceu a sua sina?

do berço da igreja da mídia

da mesa da sala ou do balcão

do bar da esquina? das escolas

das rodas de punheta dos puteiros

onde se obrigam meninos a se

deitarem com mulheres cínicas?

 

esqueça os filmes de sexo:

com eles você só aprendeu

a ser monstro máquina ou martelo

e ao invés de erguer construção

destruir durante horas

e sem nenhum alívio

para consolo de segundos

ferramenta de um submundo

de humilhação e de estupro

patrocinado pela pfizer

 

esqueça os filmes de ação:

com eles você só aprendeu

a ser sozinho contra todos

herói sem nome com carro blindado

sem ajuda nem companhia

exceto a pistola ou a espada

tiro porrada e bomba

nas musas siliconadas

a depender da produção milionária

que lucra com o seu fracasso

 

esqueça enfim o que te disseram

esqueça tudo exceto: seja homem

não foi isso que você ouviu a vida toda?

hoje mesmo e sempre seja

sem faltar nenhuma parte

cabeça coração corpo

e até falo — quando bem colocado

seja amoroso e honrado

seja imperfeito

seja fraco.

 

 

 

 

 

 

Falácia

 

 

ele diz que pode

meter como se arrombasse uma porta

 

ele diz que dura

quarenta minutos ininterruptos de foda

 

ele diz que goza

um copo de porra pela sua pica grossa

 

ele diz que é grande

conforme os padrões da cultura misógina

 

pergunto se ele falha           (ele cala)

pergunto se ele sente          (não entende)

pergunto se ele ama            — só na cama

 

 

 

 

 

 

Sexo forte

 

 

transforme

sua espada

em pena

e escreva

um poema

de amor

 

 

 

 

 

 

4/5

 

 

no seu corpo

4 membros escuros

um quinto escuso

 

no seu corpo

4 membros certos

um quinto curto

 

no seu corpo

4 membros retos

um quinto ereto

 

no seu corpo

4 membros frouxos

um quinto roxo

 

esse 1/5 que busca

com ímpeto brusco

um corpo materno

 

 

 

 

 

 

Selvagem

 

 

o pênis

é bom por natureza

o homem

é que o corrompe

 

 

 

 

 

 

marginal

 

 

um homem sem tirar nem pôr

mais tirando que pondo

mais amoroso que tirano

 

um que não me deixe na mão

me guie pela mão na calçada

moça distraída, ensimesmada

alheia aos carros rasgando a avenida

 

um homem que faça nas coxas

de vez em quando por pura preguiça

e para me poupar das estocadas

 

um que não me deixe na mão

me guie pela mão na calça

para sua ereção em plena praça

só para me ver corada, um pouco brava

 

um homem que não sai de cima

lambe como gato acostumado

ao fluido nem doce nem salgado

 

um que não me deixe na mão

me dê a mão e os membros todos

seu dedo do meio, curto e grosso

à meia-luz de uma quitinete alugada

 

um homem com a boca suja

para eu ouvir a putaria abreviada

não censurada pela norma culta

 

um que não me deixe na mão

porque sabe como a mão pode tocar

desde a punheta mais vulgar

até meu sexo sensível após o gozo

 

 

 

 

 

 

Encanto

 

 

em cada forma eu o encontro

e nele encontro todas as formas

 

 

 

 

 

 

No bosque do colégio de freiras

 

 

Em toda forma fálica

existe algo de ruína:

a sina

de todo falo é tornar

a ser botão de flor.

 

Em toda menina resiste

a inconformidade com a

ausência;

nega Freud em silêncio

ao provar pétalas e folhas.

 

 

 

 

 

 

Estereótipo

 

 

"Mulher não gosta de pênis,

mulher gosta é de dinheiro"

 

Dinheiro eu tenho

nem pouco nem muito

o suficiente

 

Então para que eu

vou querer algo

vulgar sujo comum

e que todo mundo tem

uns de mais outros de menos?

 

Se for assim prefiro algo

comum sujo vulgar

que muitos têm de normais

uns de menos outros de mais

algo até mesmo banal

que eu nunca vou ter

 

 

 

 

 

 

Documento

 

 

Muitos homens que conheço

perguntam se eu me importo

com o tamanho do documento

 

penso que o mais importante

além do porte do mesmo

nesse país onde vivemos

cheio de operários pobres

e analfabetismos afetivos

 

é saber ler seu documento

protegê-lo em plástico fino

não exibi-lo grosseiramente

mas ofertar com desapego

o documento que recebeu

seja da sorte ou de deus

a depender da sua crença

 

porém como não sou nada

além de humilde iletrada

mera leitora autodidata

do masculino moderno

prefiro não responder

 

e esconder a opinião

tão pequena que nem

a vejo sem espelho

 

no lugar dela

 

 

 

 

 

 

paraíso liberto

 

 

I

um corpo vazio

apesar de corpo

ainda que possa

ser preenchido

por cor e forma

 

II

não escolhi esse

copo constante mente

meio cheio

meio vazio

penava pensando

nessa questão

eterno meio

sempre meio

embora partido

mas nunca cheio

e me embebedava

sozinha mesmo

do meu cheiro

como se sorvesse

algum esperma

 

III

infeliz corpo silente

triste esfera

de pensamento (vão)

abria as pernas

e me abria a tudo:

a todos que amava

menos a mim mesma

nessa ida filosofia

ideal da matéria

teresa? maria? vadia? santa?

 

IV

a única verdade

é que desde o dia

que caí no mundo

fruto do útero moderno

só me encheram

os ouvidos os orifícios

com mentiras com barulhos

me calaram até o fundo

com desgostos com esporros

sobretudo na boca

 

V

hoje me fecho

não escuto

me sei e me sinto

despossuída

mais astuta

mais esperta

escolhida

a escolher:

colho

os frutos

(todos

quaisquer

ou nenhum)

que fortalecem

que me apetecem

 

VI

e jamais

me encolho

escolhi ser cheia

buscar inteira

o fruto que resta

saber a fome

saciar a sede

que me interessa

me entregar toda

feliz e completa

ao fruto que pende

somente inteiro

semente dispersa

dura jornada

redescoberta!

 

VII

esse fruto divino

dividido entre

sangue e lágrima

urina e esperma

enfio na boca

enfio na carne

minha serpente

o pomo de Adão

que me faz Eva

em nome do pai

 

VIII

porque eu quero

quebrar o copo

encher o corpo

de afirmação

até que me torne

até que retorne

ao estado primal

de fêmea pura

atrás do macho

original

 

IX

que esse macho

saiba se dar

e não tirar nada

além disso:

me recoloque

no meu sagrado

feminino

e se desfaça

raiz do ser

masculino!

 

X

seja soberana

seja sobre tudo

o que me faz fruta

maçã da árvore

plena e nua

 

 

[Poemas do livro eu falo. Laranja Original, 2022]

 

 

dezembro, 2022

 

 

Alice Queiroz nasceu em São Paulo. Livreira, bacharela em Letras pela USP, publicou nas revistas virtuais mallarmargens, RevistaRia, Ruído Manifesto, entre outras. Participa das antologias poéticas Clausura (Lobo Azul), Gato brigando é tigre (Lobo Azul) e quantos players hoje – poemas do árcade ao console (Patuá). Em 2022, foi selecionada para cursar o Clipe Poesia oferecido pela Casa das Rosas/Centro de Apoio ao Escritor e publicou eu falo (Laranja Original).

 

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