DA POESIA MODERNA O poema da mente
no ato de encontrar O que satisfaz. Nem sempre foi
preciso Procurar: o palco estava pronto, bastava repetir O
roteiro.
Então o teatro transformou-se Em outra coisa. Seu passado era um
souvenir. Tem que estar vivo, aprender a falar do lugar. Tem que
encarar os homens desse tempo e buscar As mulheres desse tempo. Tem
que pensar na guerra E achar o que satisfaz. Tem que construir Um
palco novo. Tem que subir nesse palco E, como um ator insaciável,
lentamente e Com meditação, falar ao pé do ouvido, No mais sutil
ouvido da mente, repetir, Exatamente, o que ele quer ouvir, o
som Do qual uma platéia invisível escuta Não a peça, e sim ela
própria, expressa Numa emoção como de duas pessoas, duas Emoções
virando uma só. O ator É um metafísico no escuro, tangendo Um
instrumento, uma corda rija que gera Sons que trespassam súbitas
certezas, que contêm A mente toda, aquém da qual descer não
pode, Além da qual não quer
subir.
Tem que ser A descoberta da satisfação, talvez Um homem patinando,
uma mulher que dança ou Se penteia. O poema no ato da
mente.
MERAMENTE SER A palmeira no final
da mente, Além do pensamento último, se eleva Na brônzea
distância, Um pássaro de penas de ouro Canta na
palmeira, sem sentido humano Nem sentimento humano, um canto
estrangeiro. Então compreende-se que não é a razão Que
traz tristeza ou alegria. O pássaro canta. As penas
brilham. A palmeira paira no limiar do espaço. O vento
roça devagar seus galhos. As penas de fogo do pássaro pendem
frouxas.
OS POEMAS
DE NOSSO CLIMA I Água clara num jarro
brilhante, Cravos brancos e rosados. A luz Na sala é como ar de
neve, Refletindo neve caída ainda há pouco, Neve de fim de
inverno, quando já voltam as tardes. Cravos brancos e rosados — porém
se quer Mais, bem mais que isso. O próprio dia Simplificou-se: um
jarro branco E frio, de porcelana fria, arredondado e
baixo, Contendo cravos só, e nada
mais. II Mesmo que esta simplicidade
completa Pudesse afastar todo tormento, ocultar Esse composto
perverso vital, o eu, Fizesse dele coisa num mundo De água clara,
branco e nítido, Ainda assim seria preciso mais, muito mais, Mais
que um mundo de neve e cheiros
brancos. III Haveria ainda a consciência, essa
inquieta: Daí a vontade de fugir, de voltar Ao que há tanto tempo
foi composto. A imperfeição é nosso paraíso. E nesse travo amargo,
o prazer, Já que o imperfeito arde tanto em nós, Está na palavra
falha, obstinada.
Tradução de Paulo
Henriques Britto
(Do Livro Wallace
Stevens — Poemas. São Paulo: Cia. das Letras,
1987)
(imagens ©ana maria
mascarenhas)
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