CANÇÃO DA MOÇA DE DEZEMBRO
A moça dança comigo
nessa noite de dezembro.
Na sala onde giramos,
se alguém mais há não me lembro.
O ondear da moça ondeia
uma melodia ainda
mais doce que a da vitrola
— e uma alegria vinda
dessa doçura me envolve.
Cabe bem no meu abraço
esse perfume com que
vou girando e em que me abraso
em meus quinze anos (a moça
terá, talvez, dezessete
ou dezoito). Como a valsa,
a vida o melhor promete.
E já oferta: esse corpo
a cada instante mais perto.
Ao qual responde meu corpo,
como nunca antes desperto.
E a moça vai-me queimando
em seu hálito, afogando-me
nos cabelos, e nos olhos
luminosos siderando-me!
E eis que, dançando, saímos
além da sala e do tempo.
E dançando prosseguimos,
sempre que sopra dezembro,
nos mesmos giros suaves,
nos mesmos ledos enganos:
eu, o antigo rapaz,
e a moça, morta há treze anos.
CANÇÃO DE DEPOIS DE TANTO
a Roniwalter Jatobá
Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras do Ido e do Incerto.
Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.
Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.
Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.
ELEGIA DE AGOSTO
"... procura tua filha, beija-a e fecha-a para sempre
em teu coração".
Carlos Drummond de Andrade: "Desaparecimento de Luísa Porto".
Ali estava, cintilando
na dor
da morte de sua própria
carne,
morte
de sua própria mais preciosa carne,
aquela
de rosto
(como ele escreveria no diário)
lindo, puro, sem rugas, juvenil.
Ali, assim.
Nas velas rotas da alma não mais recolhe
o vento de Minas. Já não acolhe
o rei de Sião,
nem o menino chorando na noite,
nem Fulana
(embora tanto houvesse amado deitar-se à sombra
das moças em flor),
nem o operário,
nem
o leiteiro sutil da madrugada,
nem Clara passeando no jardim
com as crianças,
nem os heróis que cantara na construção de um mundo
que não chegara a ser: o Mundo,
o país de todo homem.
Apenas arde, agora,
a derrota incomparável.
Mãos se estendem,
abraços o envolvem,
entre cálidos sussurros compassivos.
Mas
nenhum ali é Mário,
nem Manuel,
nem Pedro,
nenhum é alguém
para essa terrível rutilância
(talvez a única companhia seja o filho
nascido sessenta anos antes
e morto instantes depois).
Ali estava. Em tempo algum
assim,
tão vácuo,
nem mesmo restavam as casas
de silêncio,
as roças
de cinzas,
a memória do Halley no céu
da infância
(cuja história fora mais bonita que a de Robinson Crusoé).
Nada restava.
Nem um botão.
Nem um rato.
Nunca antes
assim,
sob um céu vazio,
avaliando o que perdera,
e eis que tudo perdera,
e o que ainda havia
só
era uma dor circulando
sobre a ruína,
sobre
o que já não era vida,
sobre
o que era,
na morta e no fatal seu lado esquerdo,
apenas
barro sem esperança de escultura.
ANTIELEGIA DE AGOSTO
(1902-1987)
"... a mensagem
que ensinava a esperar, a combater,
a calar, desprezar e ter amor".
Carlos Drummond de Andrade: "Mas Viveremos"
As estações do coração cessaram
há dez anos em ti. Em nós, no entanto,
ainda se abrem com a luz do encanto
dos teus primeiros versos que pousaram
em nossa mocidade, uma oferenda
sutil, porém espessa, e nossa vida
dela embebeu-se até (hoje vivida)
a madureza, essa terrível prenda.
A nossa vida, que se fez segundo
tuas palavras. Só nos embalavam
teus versos graves, que em nós pulsavam
como um coração maior que o mundo
— ou menor, que importava? Um coração
nos corações, cantando-nos toadas
amorosas, desejos, saqueadas
montanhas, desencantos, solidão
(que — tu o disseste — é também palavra
de amor), ternuras, sonhos, ironia,
humor, em sopro vasto de poesia
que circulava em nós e ainda lavra
em nossos dias. Tua voz soava
em nossa voz. E nada se fazia
sem ela a ritmar a alegria
ou a tristeza. Tudo se cantava
segundo o Poeta, o irmão maior: assim
no bar como no baile; assim na rua
como no mangue, ao vento, ao sol, à lua;
assim na escola como no jardim
onde giravam Dulces, Beatrizes,
Rosas, Leonoras, Cármens... (e ainda estão
girando, e vão e vêm, e vêm e vão
em névoa anterior às cicatrizes
e outras memórias). Exigiam rumbas,
algumas; outras, valsas; outras, ambas
— e ainda havia as que dançavam sambas
bravos, violentos, sobre as nossas tumbas.
Ah, nunca é fácil essa dança... O amor
é isso que você está vendo: hoje
beija, amanhã não beija, depois foge
e ficamos coçando a nossa dor
de cotovelo. E então, contigo, íamos
a outras danças: em Berlim, fraternos,
entrávamos com o russo; os infernos
da guerra se evolavam; e o que ouvíamos
era uma voz falar de um tempo novo,
sem igrejas, quartéis, ouro, bandeiras,
país de todo homem, sem fronteiras:
voz da tua canção, rosa do povo.
O mundo não pesava mais que mão
de criança em nossos ombros. E as almas
eram confiantes e fitavam, calmas,
o horizonte futuro: amplidão
de esperanças. O sonho se cumpria.
Era só caminhar na claridade
e semear a terra e ter vontade
de amanhecer no azul que amanhecia.
Se assim não foi, se agora a incerteza
se alastra, pouco importa. Em nós se esconde,
e queima, um fogo — e a um grito ainda responde
outro grito, outro homem, outra certeza.
Teu coração repousa. Mas a lavra
de tua voz persiste. Em nós, ainda,
traça seu sulco fértil, que não finda
essa rosa, esse canto, essa palavra.