— Deixa que eu seguro pra você... — a voz de menina, insinuante, se sobrepôs, por rápidos segundos, ao burburinho das mesas, enquanto centenas de outras pessoas transitavam pelos corredores do shopping, ou entravam e saíam das lojas. — Eu seguro — insistiu, tocando com a mão nívea, na qual despontavam as unhas pintadas de vermelho, o castão da bengala, erguendo-a levemente e colocando-a, sorrindo, entre as pernas cruzadas sob a mesa.

O corpo da bengala, escuro e retorcido, deslizou pelas coxas, no estreito espaço que ela abrira ao erguer o joelho direito, flexionando-o para o lado. A música banal preenchia o ar iluminado pelas vitrines, roçando delicadamente os corpos que andavam sem parar, e abraçava, na forma de uma névoa diáfana e asséptica, as pessoas e os produtos, os gestos apontando as escolhas, a aparente humildade dos vendedores e os seguranças postados a cada alameda. E, num assomo de energia juvenil, um pouco forçado, é verdade, ela sustentou o sorriso no qual despontavam os dentes amarelados de nicotina, até acomodar o longo objeto no calor que, ele bem sabia, desprendia-se da parte interna de suas coxas.

Havia certa vulgaridade naquela perna pousada sobre o joelho esquerdo, com a saia azul-clara erguida, permitindo, ao observador colocado em um ângulo favorável, a visão de suas coxas claríssimas, redondas e fortes, abraçando a bengala envelhecida, esfregando-se no bastão de madeira e sugerindo a possibilidade de o objeto tocar sua calcinha.

Ele vira, naquela manhã de domingo, quando, ainda nua, após o café da manhã, Márcia se debruçara sobre a gaveta da cômoda, de costas para ele, demorando-se ali o tempo que ele gastaria para ler dez ou quinze páginas de um romance, até se decidir acerca do conjunto de lingerie. E durante os minutos em que, deitado na cama, observava as formas vigorosas se desenhando contra a madeira lustrosa — apoiadas ora em uma perna, ora na outra, e iluminadas pela janela sobre a cabeceira da cama — pensava também se a escolha não estaria sendo adiada de maneira proposital, a fim de instigá-lo logo cedo, provocando-o com o oferecimento de um prazer fácil e matreiro.

Agora, o conjunto o constrangia, pois, mantendo a bengala entre as coxas, ao pegar a xícara de café ela inclinara o tronco na direção da mesa, levando o rosto até a xícara, ao invés de erguê-la para perto de sua boca, o que ampliava o decote da blusa branca, dando aos seios um volume maior do que de fato possuíam, prontos a explodir sob o sutiã.

Incomodava-o aquele corpo dobrado sobre si mesmo, prometendo-lhe — e a todos os curiosos que não paravam de passar — o deleite sempre ansiado, oferecendo-se de maneira pública e tão evidente. Mas ela sorria com sua larga boca pintada de vinho, tendo deixado na xícara a marca do batom, escondendo sob as pálpebras, em movimentos calmos, os olhos castanhos cujas pupilas amanheciam aureoladas por um tênue círculo verde-escuro.

Ele também conhecia a sensação de delicado aperto que aquele modo de agir provocava na boca do seu estômago, migrando para as regiões mais escondidas da sua carne na forma de prolongadas e repetidas ondas de calor e insegurança, tornando-o refém da maquiagem exagerada, dos cabelos escuros e lisos que cobriam as escápulas cobertas de sardas, das mãos firmes que poderiam ser perfeitas se o dedo médio da mão direita não apresentasse um pequeno calo na lateral interna, próximo da base da unha; um montículo de carne endurecida, nascido pelo uso incorreto do lápis e da caneta, e que insistia em escamar permanentemente.

— Vamos... — ele sugeriu, empurrando o pires para o centro da mesa e estendendo a mão, a fim de recuperar a bengala.

— Mas, Jorge... eu queria mais uma xícara... — com o cotovelo apoiado à beirada da mesa, ela sorriu, mantendo os olhos cravados nos dele.

Recolheu a mão, hesitante, e ainda sem estar certo de sua decisão, acenou à garçonete, pedindo-lhe, com um gesto, antes que se aproximasse, outro café.

— Você não precisa sentar assim — a garçonete arrancava a folhinha do bloco de pedidos, e a voz dele nascia oprimida pelo temor de desagradá-la.

Márcia ergueu o tronco, encostando-se ao espaldar da cadeira, lançando os seios para frente e mantendo as pernas cruzadas, com o castão da bengala, na forma de uma cabeça de pássaro, surgindo, agressivo, entre suas coxas. Jorge não saberia dizer qual posição era pior. Observou-a, desolado, enquanto ela lhe retribuía a censura com um olhar desgostoso.

A segunda xícara de café parecia durar além do necessário, e ela a bebericava novamente inclinada, com os seios encostados à mesa. A demora, a lentidão dos gestos, o corpo que se expunha, a postura que o enchia de vergonha, tudo o impacientava. A tensão fluía das curvas carnudas sob o decote agressivo e três rapazes, apoiados no balcão, ao lado da máquina de café e do caixa, murmuravam entre si, rindo e lançando olhares famintos na direção de Márcia. O lento ritual do café se prolongava, e Jorge se dividia entre a boca que mal tocava a xícara e os machos à espreita. "Será que ela não percebe? Será que não vê o quanto me expõe ao ridículo? E por que demora tanto? Para se oferecer, sem dúvida, para se mostrar. Ela sabe que eles olham. Sabe, e finge não perceber. A quem ela pensa que engana?"

— Vamos, querido? — novamente a voz vinha seduzi-lo.

— Mas você não vai tomar tudo? — ele insistiu, apontando, com um movimento da cabeça, a xícara deixada pela metade.

— Ah... Não está bom... Enjoei... — as frases soltas brotavam semelhantes a muxoxos lançados na forma de interjeições ampliadas, dançando entre a desculpa fútil, o charme e a dissimulação.

    Quando Márcia descruzou as pernas para lhe entregar a bengala, por um momento considerou, ao olhar o movimento das coxas, se ela não as abrira de maneira exagerada, apenas para provocar ainda mais os rapazes que permaneciam atentos, grudados ao balcão. Mas sentindo o perfume e o calor que se desprendiam da madeira, e vendo-a levantar-se, ajeitar a saia, acender o cigarro e caminhar a sua frente na direção do caixa, gingando suavemente os quadris e elevando seu porte acima de todas as outras mulheres, esqueceu-se de qualquer reclamação.

Os corpos dos rapazes giraram para acompanhá-la. Defronte ao caixa, Jorge sentia os olhares cruzando seu corpo e indo colar-se às formas de Márcia, parada a seu lado, retirando da bolsa um estojo de ruge e admirando-se no pequeno espelho.

De mãos dadas, seguiram pelos corredores lotados, olhando, de vitrine em vitrine, os sapatos, as roupas, as jóias, as lingeries; Jorge em silêncio, ouvindo os comentários inócuos, mas deliciando-se por tê-la a seu lado, dois ou três dedos mais alta que ele, o corpo esguio e lascivo encostando-se sem pudor ao seu, transmitindo-lhe o calor cuja intensidade se aproximava da ardência de uma inflamação.

Diante de uma loja de enxovais, enquanto Márcia entrava para investigar a variedade de lençóis, parado frente à vitrine decorada por um espelho, Jorge descobriu a si próprio. O movimento das pessoas às suas costas formava um cenário buliçoso e multicolorido para a imagem iluminada pelas luzes que banhavam as mantas italianas e as toalhas de algodão egípcio. A luz impiedosa realçava a pele macilenta, as rugas, a papada flácida, a barba feita às pressas e o cabelo grisalho, cheio de falhas. Os cantos dos olhos decaiam sobre as bochechas frouxas e o olhar revelava cansaço e decepção.

A dura imagem paralisou-o de tal maneira que já não era possível observar os detalhes, mas vencido pela crueza do corpo exposto sem meios-tons, olhava para além do que se refletia no espelho, vislumbrando o passado que escapara de sua carne sem que sentisse, sem que percebesse o quão rápido decaíra.

— Achei um lençol lindo de mil fios que é uma loucura, Jorge! — Márcia, a seu lado, trazia-o para o presente. — Mas é tão caro...

— Não tem problema, meu amor — a mão, sentindo o volume da carteira guardada no bolso interno do blazer, garantia-lhe um súbito reavivar da juventude. – Vamos comprar.

À noite, com as caixas abertas no chão e na poltrona do quarto, vendo os lençóis adamascados espalhando-se com negligência entre os papéis de seda, Jorge recorda a imagem redescoberta há poucas horas, mas afasta-a com um gesto brusco, estendendo a mão para o criado-mudo, abrindo a gaveta e retirando de lá o vidro de comprimidos azuis. Tomou dois, sofregamente, com um copo de água. Em meia hora, quando Márcia saísse do banho, estaria pronto.

Ouve a mulher cantarolar, refestelada na banheira fumegante, e sua mente divaga, aguardando o efeito infalível das pílulas. Mas a figura envelhecida retorna, vem atormentá-lo com sua dose de verdade, da qual é impossível escapar. O desconforto assoma. A velhice chegara a passos largos. As dores, o corpo desobediente, as noites mal dormidas, os problemas gástricos, a via-sacra pelos consultórios médicos, as próteses dentárias, a coleção de bengalas, a pequena farmácia escondida em um dos armários do banheiro — não, não há como negar. Ficaram para trás as aventuras com os amigos, os esportes praticados até o centro do peito queimar, os excessos de bebida, e até mesmo a desenfreada paixão pelo viver, que se transformara em uma teimosia senil. A realidade já não é mais tão radiante quanto imaginava. E o respeito, na forma de uma comedida reverência, que alguns subalternos lhe dedicam, perde toda importância diante da morte que se aproxima. Restaram somente os poucos minutos de prazer noturno, concedidos pela carne viçosa, firme e cálida da mulher, comprados por um alto preço, maior do que as somas perdidas em perfumes, roupas, cabeleireiros e festas, mas que se resume à certeza de não ser amado.

Quando Márcia saiu do banho, Jorge afundara nos travesseiros, com a melancolia pesando como um animal morto sobre seu peito. Vinha nua, os cabelos molhados, a pele completamente depilada. Os olhos faiscavam gratidão, escondendo, por detrás das pupilas dilatadas, um novo pedido. Subiu pelos pés da cama, de gatinhas, os seios pendendo semelhantes a frutos maduros que ressumam doçura, o sorriso rasgando o rosto jovial. Ronronava como um felino que se alegra com o pulsar do próprio corpo, transbordando de ardor, e com a boca, delicadamente, passou a acordar cada centímetro da carne desmaiada que naufragava na tristeza, oferecendo a Jorge, em seus mínimos toques, a promessa de prazer e rejuvenescimento.

A mulher, excitada com a própria volúpia, mas principalmente pela imaginação que galopava muito longe do quarto, afundou a cabeça no ventre murcho do marido, despertando nele o resto de vigor. Desgosto algum conseguiria sobreviver, mas as cenas do passado relutavam em se desfazer sob o sangue que fervilhava. Então, soerguendo-se dos travesseiros, repleto de ódio pelo corpo efêmero, carregado de rancor contra a juventude de Márcia, agarrou os cabelos da mulher, puxando-a mais para baixo, ordenando que o engolisse, não para que tudo se consumasse rapidamente, mas com o intuito de humilhá-la e, subjugando-a,  tentar, ao menos por um escasso minuto, esquecer.

 

Rodrigo Gurgel é escritor e editor. Escreve resenhas críticas para o Rascunho e é cronista do jornal Bom Dia Jundiaí. Presta serviços de consultoria editorial, prepara originais e revisa provas para várias editoras. Foi um dos dez ganhadores do Concurso de Contos "450 Anos de São Paulo", promovido, em 2004, pelo Caderno 2 do jornal O Estado de S. Paulo. Edita o blogue Rodrigo Gurgel.
 
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