SCHERZO

 

Ontem à noite, eu e você,

em plena cumplicidade

em vez de fechar as janelas

como todo mundo faz

deixamos as nossas abertas

só pra ver o que ia dar.

 

Deu nisso:

varreu as ruas um vento

saído de nossas janelas,

de dentro de nossas gavetas

onde nós há tanto tempo

guardávamos tempestades

pra algum dia especial

(que acabou sendo ontem).

O vento levou pedaços

de céu que atravancavam

nossos sóbrios conjugados;

enormes nuvens incômodas

rolaram janela afora

feito lerdos paquidermes

e se esparramaram a valer.

O ar fresco inesperado

de nossos apartamentos

causou transtornos na rua:

os transeuntes, coitados,

tossiam intoxicados

por excesso de oxigênio;

cambaleavam às tontas

pelas calçadas vazias.

 

Fui eu o primeiro a jogar

em baldes pela janela

a água clara que jorrava

de fontes desconhecidas

em áreas inexploradas

sob a cama e atrás do armário,

mas foi você quem soltou

do alto do oitavo andar

as primeiras plantas aquáticas,

os peixes, répteis e aves;

eu, porém, instituí

o pêlo e o viviparismo

dos mamíferos essenciais.

 

E como as ruas já estavam

inteiramente povoadas,

e como já os postes da Light

todos tinham evoluído

em árvores colossais,

e como ainda não eram

nem três horas da manhã

e já estava terminado

o grosso da Criação,

descemos até a rua

em busca de um bar aberto.

No primeiro que encontramos

nossos milagres caseiros

eram o assunto geral;

e nós, sedentos e incógnitos,

pedimos duas cervejas

e ficamos contemplando

sem espanto nem orgulho

a grama tenra e miúda

que brotava a nossos pés.

 

 

 

 

 

 

ESPIRAL

 

A noite é um morcego manso

sobrevoando uma cidade quase adormecida,

tomando cada rua, cada casa,

 

como um cheiro adocicado de fruta

quase apodrecida que penetrasse uma casa,

ganhasse cada quarto, cada sala,

 

como cheiro morno de coisa morta

ainda há pouco se espalhando

por uma cidade quase entorpecida,

 

como uma noite que descesse sobre casas

mortas, como uma peste, como se

nunca houvesse havido dia.

 

A noite é um morcego morto.

 

 

 

 

 

 

DOS RIOS

 

os rios foram feitos pra fugir

cada um de sua própria condição

de ser líquido e linear; perene

e ao mesmo tempo efêmero; lírico

e econômico — pois que recurso natural —

único e múltiplo; imóvel, mas fluente;

ou, simplesmente, fluvial —

 

mas por isso e felizmente

tão-somente por isso

os rios foram feitos pra fugir,

fluir, não para analisar

— nunca pra analisar!

— para fugir.

 

 

(de Liturgia da matéria, 1982)

 

 


 
 

 

MANTRA

 

Tudo era muito grande e longe.

 

O tempo era uma lagarta enorme

sem patas. Era sempre agora.

 

As coisas surgiam e sumiam

assim. As coisas eram gozadas.

 

Cada coisa tinha um nome.

O nome explicava tudo.

Ter nome era o mundo.

 

E quando a luz se apagava

e o olho grande e cego

das coisas se abria sobre mim,

 

eu rezava o nome da coisa,

o nome, o nome, o nome,

até que ficasse vazio.

 

E a coisa mais que depressa

fechava o olho e dormia.

 

 

 

 

 

 

MINIMA POETICA

 

 

IV

 

Dizer não tudo, que isso não se faz,

nem nada, o que seria impossível;

dizer apenas tudo que é demais

pra se calar e menos que indizível.

Dizer apenas o que não dizer

seria uma espécie de mentira:

falar, não por falar, mas pra viver,

falar (ou escrever) como quem respira.

Dizer apenas o que não repita

a textura do mundo esvaziado:

escrever, sim, mas escrever com tinta;

pintar, mas não como aquele que pinta

de branco o muro que já foi caiado;

escrever, sim, mas como quem grafita.

 

 

(de Mínima lírica, 1989)

 

 

 

 

 

 

VILEGIATURA

 

Munidos de maçãs, lápis e fósforos,

conquistaremos Nínive amanhã,

se não der praia e a noite for de sono.

Porque afinal os dias são dourados

e tudo é matinal nessa estação

de água fresca, madrigais e cópulas.

 

São tantas mãos e bocas, tantas cópulas,

tantas razões de se riscar um fósforo,

é tão horizontal essa estação,

que é puro engodo a idéia do amanhã.

E por que não beber o sol dourado

enquanto não nos sobrevém o sono?

 

Idéias sussurradas pelo sono,

pela sofreguidão de muitas cópulas.

Enquanto isso, Nínive dourada

aguarda a combustão de nossos fósforos

ao primeiro suspiro da manhã.

Rechacemos o torpor da estação

 

(e como é modorrenta essa estação,

tempo de bandolins, maçãs e sono!)

e vamos nus, na bruma da manhã,

buscar a glória, traduzida em cópulas,

claustros, tributos, castiçais e fósforos,

caixas de música e ídolos dourados.

 

Tomaremos a cidade dourada

na hora derradeira da estação,

quando já não restar nem mais um fósforo,

uma gota de sol, de céu, de sono.

A entrada triunfal será uma cópula

na imensidão da última manhã.

 

Quando acordarmos, já será amanhã,

os olhos turvos de sonhos dourados,

as peles mornas recendendo a cópulas,

bagagens esquecidas na estação,

jornais, explicações, ressaca e sono,

um alvoroço de café e fósforos.

 

Os fósforos primeiros da manhã

riscam o sono e o sonho do Eldorado.

Dessa estação só vão restar as cópulas.

 

 

 

 

 

 

IDÍLIO

 

Um sonho, musculoso e maternal,

um sonho quer pacificar o mundo.

 

Desejo de formas claras e puras,

de nitidezes simples, minerais,

certezas retilíneas como agulhas.

 

Nada de nebuloso, frouxo ou úmido

há de turvar o brilho do cristal

de uma razão sem jaça e sem nervuras,

sem óleos malcheirosos e carnais.

 

O sonho, sorridente e diurnal,

espargirá sobre um túmulo de dúvidas

flores estritamente artificiais,

 

entre diagonais e ângulos agudos.

O sonho quer estrangular o mundo.

 

 

 

 

 

 

MEMENTO MORI

 

I

 

Nenhum sinal da solidão se vê

lá onde o amor corrói a carne a fundo.

Dentro da pele, no entanto, você

é só você contra o mundo.

 

Esta felicidade que abastece

seu organismo, feito um combustível,

é volátil. Tudo que sobe desce.

Tudo que dói é possível.

 

 

II

 

Luz frágil que brota no breu

e num rápido relance dá forma

e cor e corpo às coisas todas,

 

luz que se apega o pouco que pode

às aparências, acredita piamente

no sonho de substância que secretam,

 

luta com todas as parcas forças

contra o conforto de apagar-se enfim

por trás de duas implacáveis pálpebras.

 

 

(de Trovar claro, 1997)

 
 
 

 

 

 
 

 

SETE SONETOS SIMÉTRICOS

 

 

II

 

Tão limitado, estar aqui e agora,

dentro de si, sem poder ir embora,

 

dentro de um espaço mínimo que mal

se consegue explorar, esse minúsculo

império sem território, Macau

 

sempre à mercê do latejar de um músculo.

Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar

por falta de opção (a outra é o asco).

Que além das suas bordas há um mar

 

infenso a toda nau exploratória,

imune mesmo ao mais ousado Vasco.

Porque nenhum descobridor na história

 

(e algum tentou?) jamais se desprendeu

do cais úmido e ínfimo do eu.

 

 

 

 

 

 

VÉSPERA

 

No trivial do sanduíche a morte aguarda.

Na esquiva escuridão da geladeira

dorme a sono solto, imersa em mostarda.

 

A hora é lerda. A casa sonha. A noite inteira

algo cricrila sem parar — insetos?

O abacaxi impera na fruteira,

 

recende esplêndido, desperdiçando espetos.

A lua bate o ponto e vai-se embora.

Mesmo os ladrilhos ficam todos pretos.

 

A geladeira treme. Mas ainda não é hora.

Se houvesse um gato, ele seria pardo.

A morte ainda demora. O dia tarda.

 

 

 

 

 

 

ACALANTO

 

Noite após noite, exaustos, lado a lado,

digerindo o dia, além das palavras

e aquém do sono, nos simplificamos,

 

despidos de projetos e passados,

fartos de voz e verticalidade,

contentes de ser só corpos na cama;

 

e o mais das vezes, antes do mergulho

na morte corriqueira e provisória

de uma dormida, nos satisfazemos

 

em constatar, com uma ponta de orgulho,

a cotidiana e mínima vitória:

mais uma noite a dois, e um dia a menos.

 

E cada mundo apaga seus contornos

no aconchego de um outro corpo morno.

 

 

(de Macau, 2003)

 
 
(imagens©witkin | meza | joice giacomoni)
 

 
 
 
Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro em 1951. Trabalha na PUC-Rio, lecionando tradução e criação literária na graduação, e supervisionando uma linha de pesquisa sobre tradução de poesia na pós-graduação. Traduziu ficção de autores como Henry James, Philip Roth, William Faulkner, V. S. Naipaul e Thomas Pynchon, e obras de poetas como Byron, Wallace Stevens, Elizabeth Bishop, Allen Ginsberg, e Ted Hughes. Publicou quatro livros de poesia — Liturgia da matéria, Mínima lírica, Trovar claro e Macau — e um de contos — Paraísos artificiais. Mais aqui, em sua página oficial.